21.5.09

Documentário "O Povo Brasileiro", Darcy Ribeiro

"Darcy é um dos MAIORES intelectuais que o Brasil já teve.

Não apenas pela alta qualidade de seu trabalho e da sua produção de antropólogo, de educador e de escritor,

mas também pela incrível capacidade de viver muitas vidas numa só, enquanto a maioria de nós mal consegue viver uma"


(Antônio Cândido)


Eu assisti a uns dias atrás o FANTÁSTICO documentário "O Povo Brasileiro", baseado no grande livro do Darcy Ribeiro que explica primorosamente a formação do nosso povo!

A diretora Isa Grinspum arrebentou! Além do próprio Darcy, tem participações de gente feríssima como Chico Buarque, Tom Zé, Antônio Cândido, entre tantos outros, e foi co-produzido pela TV Cultura, GNT e Fundar (Fundação Darcy Ribeiro).

Tem imagens belíssimas, depoimentos bacanas... e além da qualidade, a quantidade também não decepciona: são 10 programas + extras, DVD duplo, 280min!

Eu já tinha ouvido de falar Darcy Ribeiro, Sérgio Buarque, Gilberto Freyre, Celso Furtado.. mas suas obras e biografias tavam na lista "Um dia eu leio" hahhaa

Depois do documentário, não teve jeito, no dia seguinte peguei o livro do Darcy na biblioteca... e achei FANTÁSTICO!

Mais do que um mega - e recompensado - esforço em explicar o Brasil, o livro é uma declaração de amor por este país! =)

Tudo isso só deixou mais curioso, fui atrás de saber mais da vida dele... vi as entrevistas no Roda-viva... e adivinha? achei FANTÁSTICO! :-P

O cara como antropólogo criou obras e estudos que estão entre os mais importantes da área. Como educador, suas teses e projetos melhoraram a educação de milhões de pessoas. Como senador e ministro, criou diversas leis...

Criou a Universidade de Brasília que ele sonhava que fosse um motor para a transformação do país, e ajudou a desenvolver várias universidades e museus.. criou 500 CIEPs no Rio, que são escolas modelo planejadas para que as crianças ficassem período integral.

O Parque Nacional do Xingu, o incrível Memorial da América Latina, a Fundação Darcy Ribeiro, o Sambódromo do Rio com 200 salas de aula para educação primária.... mais uma infinidade de coisas... tudo ele. Era um intelectual de "fazimentos" como ele dizia.

Apesar de ter tido fases difíceis: infância pobre, na ditadura foi exilado, lutou até o fim contra um câncer de pulmão.... ele curtiu demais a vida, viveu entre índios, entre intelectuais.... fugiu da UTI pra terminar seu livro e curtir mais um pouquinho da vida.

Um cara de mente e ações formidáveis.. muito sincero, espontâneo... loucamente apaixonado pelas mulheres, pelo Brasil e pela vida.

"Termino essa minha vida exausto de viver, mas querendo ainda mais vida, mais amor, mais travessuras.

A você que fica aí inútil, vivendo essa vida insossa, só digo: Coragem! mais vale errar se arrebentando do preparar-se para nada.

O único clamor da vida é por mais vida bem vivida. Essa é, aqui e agora."

(Darcy Ribeiro)


Documentário "O Povo Brasileiro" - Veja no youtube



Conteúdo:
  • Matriz Tupi
  • Matriz Lusa
  • Matriz Afro
  • Encontros e Desencontros

  • Brasil Crioulo

  • Brasil Sertanejo

  • Brasil Caipira

  • Brasil Sulino

  • Brasil Caboclo

  • A invenção do Brasil


  • Entrevistas no Rodaviva



    Veja abaixo
    Melhores Trechos, Frases, Pensamentos
    do Documentário, do Livro e das entrevistas:

    • Sobre os "Fazimentos"
    "... Sou um homem de causas. Vivi sempre pregando, lutando, como um cruzado, pelas causas que comovem. Elas são muitas, demais: a salvação dos índios, a escolarização das crianças, a reforma agrária, o socialismo em liberdade, a universidade necessária. Na verdade, somei mais fracassos que vitórias em minhas lutas, mas isso não importa. Horrível seria ter ficado ao lado dos que venceram nessas batalhas"

    "Fracassei em tudo o que tentei na vida.
    Tentei alfabetizar as crianças brasileiras, não consegui.
    Tentei salvar os índios, não consegui.
    Tentei fazer uma universidade séria e fracassei.
    Tentei fazer o Brasil desenvolver-se autonomamente e fracassei.
    Mas os fracassos são minhas vitórias.
    Eu detestaria estar no lugar de quem me venceu"

    "A Sorbonne outorga o título de doutor honoris causa a Darcy Ribeiro. Ele aceita, diz ele, pelo mérito de seus fracassos.

    Darcy fracassou como antropólogo, porque os índios do Brasil continuam condenados à aniquilação. Fracassou como reitor de uma universidade que ele queria que fosse transformadora da realidade. Fracassou como ministro da Educação, num país que multiplica analfabetos. Fracassou como membro de um governo que tentou fazer a reforma agrária e controlar o canibalesco capital estrangeiro. Fracassou como escritor que sonhou em proibir que a história se repita.

    Estes são seus 'fracassos'. Estas são suas dignidades"

    • Sobre o Brasil
    "Os índios eram uma gente que agradecia a Deus pelo mundo ser tão bonito. Que vivia para viver a vida, para gozar a vida. A finalidade da vida era viver.

    Um indio desde que nasce, ele aprende a se relacionar com tudo de forma bonita.

    Tudo tem rituais. O índio festeja o plantio, o índio festeja a colheita, festeja o nascimento e não festejam mas cultuam a morte. O índio se enfeita muito, canta muito, dança muito, brinca muito e ri muito.

    Acho que é muito difícil para nossa cultura suportar tanta beleza"

    "Foi essa gente nossa, feita da carne de índios, alma de índios, de negros, de mulatos, que fundou esse país. Esse 'paisão' formidável. Invejável. A maior faixa de terra fértil do mundo, bombardeada pelo sol, pela energia do sol. É uma área imensa, preparada para lavouras imensas, produtoras de tudo, principalmente de energia."

    "Por essas vias se plasmaram historicamente diversos modos de ser brasileiros, que permitem distinguí-los, hoje, como sertanejos do Nordeste, caboclos da Amazônia, crioulos do litoral, caipiras do Sudeste e centro do país, gaúchos das campanhas sulinas, além de ítalo-brasileiro, teuto-brasileiros, nipo-brasileiros, etc

    Todos eles muito mais marcados pelo que têm de comum como brasileiros, do que pelas diferenças devidas a adaptações regionais ou funcionais, oude miscigenação e aculturação que emprestam fisionomia própria a uma ou outra parcela da população"

    "a convicção a que eu chego é de que uma das coisas mais belas do mundo foi a aventura do Brasil se fazendo a si mesmo. Um povo que constitui um novo gênero humano. Não tem novidade nenhuma em fazer a Austrália: pega um bocado de ingleses e escoceses e joga no terreno vazio e eles matam os índios e ficam lá e fazem uma Inglaterra de segunda [risos]. Isto daqui é bobagem. Mas fazer um gênero humano novo, fundir herança genética e cultural, índia, negra e européia num gênero humano novo, numa coisa nova, que nunca houve. É isso a aventura brasileira e que eu resumo dizendo que o que nós somos, mesmo, é uma nova Roma"

    "Por que o Brasil não dá certo, mesmo com tanta riqueza, com tanta arte? Porque nunca existiu para seu povo, sempre existiu para o comércio internacional"

    "Ultimamente a coisa se tornou mais complexa porque as instituições tradicionais estão perdendo todo o seu poder de controle e de doutrina. A escola não ensina, a igreja não catequiza, os partidos não politizam. O que opera é um monstruoso sistema de comunicação de massa, impondo padrões de consumo inatingíveis e desejos inalcançáveis, aprofundando mais a marginalidade dessas populações"

    "é a minha convicção que ou nós comemos e dominamos o saber moderno ou nós vamos ser recolonizados"

    "O desencontro é total. Nossa vanguarda lúcida, fiel a seu povo, não existe. O povo brasileiro está órfão. É um corpo sem cabeça. Nós, intelectuais, sem um povo com que nos identifiquemos, com horror do povo de verdade que aí está, somos uma cabeça decepada"

    "a modernidade aqui não é a bobagem de se estar abrindo mais multinacionais. É preciso acabar com essa mania de modernidade falsa, boboca, de gente com a cabeça feita para multinacionais [...]

    Então, primeiro lugar, o pleno emprego. Em segundo lugar, a comida. Em terceiro lugar, a educação. Educação em tempo integral [...] A partir daí, isso é que é modernidade. Na medida em que se faça isso, que se força a economia a isso, a partir daí é que este país pode florescer como a civilização que nós podemos ser"

    "No mundo inteiro, no mundo desenvolvido, a criança fica 8 horas e come uma refeição, porque fica 8 horas e tem que comer uma refeição na escola. A escola é o lugar onde ele estuda, onde ele come, onde ele toma banho, além das lições. Ele tem uma professora que faz com ele os exercícios. Não mandam exercícios para casa. Como é que você pode mandar exercícios para casa de um menino - e 80% são assim - que não tem uma mesa, não tem..."

    "Eu conheci a Grécia na pobreza. Conheci Portugal na pobreza. Conheci a Espanha na pobreza. A Itália do sul, na pobreza. Nunca ninguém deixou de comer todo dia. Todo mundo enchia a barriga, porque a economia estava organizada primeiro para o povo comer e vender o excedente. Aqui não. Somos um proletariado externo. Não existe para nós, existe para os outros"

    "A brutalidade, a incapacidade, a mediocridade da nossa classe dominante, que aqui o que faz é enricar, é ter vantagem para ela, é juntar, é gastar. O Brasil sempre foi um moinho direto da gente, moeu, liquidou seis milhões de índios que tinha aqui. Liquidou. Mais 12 milhões de negros africanos. Pra quê? Para adoçar a boca de europeu com açúcar. Para enriquecer com o ouro de Minas Gerais. Então, a classe dominante sempre se deu bem e continua se dando bem. Mas o povão está aí, com uma fome que é espantosa. Por que fome neste país? Por que criança sem escola neste país? Por que que nós só somos melhores, só somos melhores, excluindo São Paulo, do que Bangladesh, em educação? É pra morrer de vergonha."

    "O espantoso é que os brasileiros, orgulhosos de sua tão proclamada, como falsa, 'democracia racial', raramente percebem os profundos abismos que aqui separam os estratos sociais.

    O mais grave é que esse abismo não conduz a conflitos tendentes a transpô-lo, porque se cristalizam num modo de viver que aparta os ricos dos pobres, como se fossem castas e guetos.

    Os privilegiados simplesmente se isolam numa barreira de indiferença para com a sina dos pobres, cuja miséria repugnante procuram ignorar ou ocultar numa espécie de miopia social, que perpetua"

    "O povo-massa, sofrido e perplexo, vê a ordem social como um sistema sagrado que privilegia uma minoria contemplada por Deus, à qual tudo é consentido e concedido. Inclusive o dom de serem, às vezes, dadivosos, mas sempre frios e perversos"

    "A figura do Prestes me impressionou muito. Os comunistas me fizeram muito bem. Os comunistas me fizeram responsável pelo destino humano. Me interessa o que acontece aos homens na Indochina, no Paraná, no Peru. Me interessa. Isso de você assumir o destino humano é muito importante. Tanto que os jovens de hoje, eu pergunto: quem é que vai fazê-los responsáveis pelo destino humano?"

    "Darcy acreditava no trabalho, não na caridade. Acreditava que dando isso ao povo, estaria dando-lhes dignidade e auto-suficiência"


    "Vou falar uma coisa para você hein, presta atenção que é importante: Precisamos inventar o Brasil que nós queremos, escuta o que tô falando"

    • Sobre o Livro "O Povo Brasileiro"
    "É claro que eu tinha de fazer um livro sobre o Brasil que refletisse de certa forma isso. E vivi fazendo pesquisa, e vivi muito com negros, brasileiros, pioneiros de todo o lugar do Brasil. E li tudo que se falou do Brasil. Então estava preparado pra fazer esse livro. E gosto dele. Tenho orgulho do fundo do peito de ter dado ao Brasil esse livro. É o melhor que eu podia dar. Gosto muito disso"

    "Durante trinta anos eu quis escrever esse livro. Tomei nota, estudei, porque a minha convicção, quando eu o comecei a fazer no exílio, eu queria saber por que que o Brasil não deu certo, quando eu estava no exílio. Por que perdemos? Por que, mais uma vez, a direita ganhou? Por que o Brasil não deu certo do ponto de vista do seu povo?
    E vi que eu não podia fazer esse livro, porque faltava uma teoria sobre o Brasil. E levei 30 anos escrevendo uma teoria geral. Uma teoria geral do mundo, das Américas. São cinco livros, que têm noventa e seis edições em várias línguas. E esses livros... ter escrito os cinco e não escrever o final, para o qual eu me preparei, era uma loucura.
    Então, quando eu via que estava morrendo, eu ia lá e aquele pessoal ia me matar naquela UTI [risos]. Eu fugi do hospital para viver e fugi para escrever esse livro. Então, eu escrevi esse livro nos 30 anos que eu me preparei e mais quarenta dias, depressa, com muitas secretárias para fazer ligeiro, antes de morrer"

    "Escrever esse livro foi o desafio maior que me propûs. Ainda é. Há mais de trinta anos eu o escrevo e reescrevo, incansável [...] Nunca pûs tanto de mim, jamais me esforcei tanto como nesse empenho, sempre postergado [...] eu não queria largá-lo. Pedia mais de mim, me prometia revê-lo, refazê-lo, até que alcançasse a forma que devia ter"

    "Não se iluda comigo, Leitor. Além de antropólogo, sou homem de fé e de partido. Faço política e faço ciência movido por razões éticas e por um forte patriotismo. Não procure aqui, análises isentas. Este é um livro que quer ser participante, que aspira influir sobre as pessoas, que aspira ajudar o Brasil a encontrar-se a si mesmo"

    • Sobre o Câncer
    "Darcy sabia que estava com câncer, e que o câncer tinha devorado pelo menos um de seus pulmões, mas estava alegre de alegria por estar na sua terra e sentir que ela estava tão sempre viva e dançadoura [...] O cirurgião tomou Darcy pelo braço e levou-o para caminhar pelo corredor:
    -Não quero desanimá-lo -, mas acho que o senhor deve preparar-se para o pior [...]
    Darcy não pôde conter o riso, e o médico não entendeu.
    No dia seguinte, foi operado. Darcy despertou com um pulmão a menos. Como tem tantos, nem percebeu." (Eduardo Galeano)

    "No hospital só tinha gente querendo morrer, eu quero viver"

    "O médico havia dito que Darcy não passaria daquela noite. Não só passou como teve melhoras. Quando vimos ele havia fugido para sua casa em Maricá. Ele queria terminar seu livro antes de morrer, mas nunca conseguira. Desta vez em 45 dias o concluiu. Darcy só perderia a luta contra o câncer dois anos depois. Nesse período, escreveu não apenas um, mas quatro livros"

    E para terminar...


    "Só há duas opções nesta vida:
    se resignar ou se indignar.

    E eu não vou me resignar nunca"

    (Darcy Ribeiro)




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    8 comentários:

    Cida Hilel disse...

    Nicholas, vim pela primeira vez no seu blog por indicação de uma amiga, e eu me surpreendi, nunca esperei encontrar um rapaz tão novo e com tanta coisa boa pra transmitir. Desde esse dia virei sua fã, venho sempre ver cada nova postagem.
    E hoje, depois dessa postagem sobre o Darcy Ribeiro e sobre o livro, amo mais ainda seu blog.
    Parabéns, ficou muito bom. É sempre bom encontrar pessoas inteligentes e cultas entre jovens brasileiros.
    abraços
    Cida

    Bete disse...

    Ola meu caro amigo Nicolas
    Estava lendo o post e pensava exatamente o que ressalta o comentario acima . Nao me surprendi porque ja conheço este espaço ha algum tempo e cada post é uma aula de conhecimento.
    Vir aqui é sempre um aprendizado.
    Entao...Darcy foi um guerreiro, homem de uma inteligencia ímpar.
    Bjs

    Sabrina Noureddine disse...

    Sou nova no mundo dos blogs e conheci o seu por acaso, adorei!!! Gostei tanto que tb coloquei no meu blog o espaço com as crianças desaparecidas.
    Concordo com a Cida, tão jovem e tão preocupado com as questões humanas... Que bom seria se todos os jovens tivessem essa consciência... Parabéns!!!

    vitor disse...

    Bravo!!!
    Excelente post, muito bem escrito e ainda nos presenteia com os links para a visualização dos vídeos. Obrigado

    Élide disse...

    Post maravilhoso!
    Estou estudando "O povo brasileiro" e através de pesquisa achei seu blog... Parabéns, acrescentou muito!

    Tatá disse...

    Excelente!

    Fiquei comovido com seu blog. Tinha visto apenas um capítulo do filme, em um encontro de educadores. Depois de ler o seu blog vou assistir ao filme inteiro.

    Parabéns!!!

    Um abraço, Ataulfo

    Carlos disse...

    Amigos,

    alguém sabe o nome da última música que toca no documentário 'O povo brasileiro'?

    Me ajudem! p favor!!!

    Abarços

    sofia martínez disse...

    Muito bom. Eu recomendo um documentário chamado Vice, cujo tema é muito atraente.

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