15.7.09

"Sustentabilidade NÃO EXISTE" - Yvon Chouinard, Patagonia


Yvon Chouinard
Eu conheci a empresa dele, a Patagonia, por conta da escalada e dos equipamentos de camping. Mas no livro da Anita Roddick foi onde eu soube que se tratava de uma empresa diferenciada.

Desde os 18 anos ele escalava os paredões no Yosemite, e fez as primeiras ascensões de algumas das vias mais difíceis do mundo. Como empresário, no alto dos seus 71 anos, seus feitos são ainda maiores.

Seu negócio começou com a necessidade de fazer e melhorar os próprios equipamentos de escalada. Logo os amigos começaram a fazer encomendas, a demanda cresceu, outros amigos passaram a ajudá-lo e todo o dinheiro era usado para financiar suas aventuras.

Como o objetivo de ninguém ali era ser megamilionário, eles se permitiam sair do trabalho mais cedo e ir surfar, esquiar, escalar. Ao invés da obssessão de reduzir custos e produzir mais, procuravam melhorar seus produtos e fizeram importantes inovações, levando a escalada para outros níveis de possibilidade.

Por serem fanáticos por esportes da natureza, eram engajados em causas ambientais, buscavam reduzir o impacto de seus produtos e conscientizar outras empresas.

A parte de assumir riscos controlados, espírito de equipe, falar com franqueza e tomar decisões também nunca foi um problema, afinal, esses são fatores de vida ou morte em seus "hobbies".

Hoje a empresa cresceu muito, está com mais de 1.000 funcionários em vários países do mundo e possui faturamento anual acima de 230 milhões de dólares. O foco atual é a parte de vestuário, a unidade de escalada constituiu uma empresa à parte, a Black Diamond, e pelo que eu percebi, é a marca mais respeitada entre escaladores.

A Patagonia é um dos maiores sucessos da indústria de esportes outdoor, e o + SURPREENDENTE: sem vender a alma. Continua com a mesma cultura de quando era composta pelo velho grupo de amigos.

Apesar de receber uma oferta de meio bilhão de dólares, Yvon e sua esposa Malinda, continuam como únicos sócios da empresa e detém controle total, podendo expandí-la em um ritmo saudável e sem pressões de acionistas.

Livro Let My People Go Surfing - Yvon ChouinardAlém da doações que sua empresa, fundou a One Percent for the Earth, uma aliança de empresas que doam 1% das suas receitas às causas ambientais. Está com mais de mil membros (entre eles gigantes como a Sony) e já arrecadou 42 milhões de dólares para cerca 1.500 ONGs do mundo todo.

Toda sua história, da sua empresa e sua visão sobre administração estão no livro Let My People Go Surfing: The Education of a Reluctant Businessman lançado por ele em 2005.

E se a Patagônia tivesse cedido ao senso comum de mercado: cortar custos, expandir, abrir capital bla bla bla teria sido melhor? Teria conquistado tantos clientes fiéis, funcionários apaixonados e realizado tanto pela causa ambiental sem deixar de lucrar? Claro que não.

Empresas como Patagônia, The Body Shop e Grupo Grameen, PROVAM que com Inteligência e Integridade é possível criar um ambiente de trabalho mais HUMANO, LIVRE, JUSTO e FINANCEIRAMENTE FORTE, do que os concorrentes que caem na selvageria do just business.

Veja abaixo os melhores trechos do que li sobre ele:

Yvon Chouinard
Nenhuma criança sonha ser um homem de negócios [...]

Sou um homem de negócios há quase 50 anos. É para mim tão difícil pronunciar estas palavras quanto para alguém admitir que é um alcoólatra ou advogado [...]

Eu nunca respeitei a profissão. Os negócios têm de admitir a maior parte da culpa por serem inimigos da natureza, por destruírem culturas dos nativos, por tirarem dos pobres e darem aos ricos e por envenenarem a terra com os efluentes de suas fábricas.

Ao mesmo tempo, negócios podem produzir comida, curar doenças, controlar populações, empregar pessoas e, em geral, enriquecer nossa vida. E podem fazer essas coisas boas e gerar lucro sem vender sua alma.
Já que eu nunca quis ser um homem de negócios, precisava de umas poucas e boas razões para ser um. Uma coisa que eu não queria mudar, mesmo que as coisas ficassem sérias: o trabalho deveria ser prazeroso todos os dias. Todos nós tínhamos de ir trabalhar felizes, e subir as escadas de dois em dois degraus.

Deveríamos estar rodeados de amigos que pudessem se vestir como quisessem, até ficar descalços. Todos nós precisávamos de horários flexíveis para surfar quando o mar estivesse bom, esquiar depois de uma grande tempestade de neve ou ficar em casa para cuidar de um filho doente.

Precisávamos apagar a distinção entre trabalho, diversão e família. Quebrar as regras e criar meu próprio sistema de trabalho é a parte do gerenciamento que me traz maior satisfação. Mas eu não mergulho de cabeça antes de fazer a minha lição de casa.

Quando a Patagonia estava realmente começando a caminhar com as próprias pernas, eu li todos os livros sobre negócios que consegui encontrar, em busca de uma filosofia que servisse para nós.

A única razão pela qual ainda não havíamos vendido a empresa e nos aposentado era que estávamos pessimistas em relação ao destino do mundo, e que sentíamos a responsabilidade de usar nossos recursos para ajudar.

A prática de esportes de risco também havia me ensinado outra importante lição: nunca passe dos limites. Você pode empurrar os limites, viver para os momentos em que está à beira do abismo, mas nunca se jogue.

Você tem que ser sincero consigo mesmo; deve conhecer suas forças e limitações e viver do seu jeito. Essa verdade é a mesma nos negócios. Quanto mais rápido uma empresa tenta ser o que não é - tenta "ter tudo" - mais rápido ela vai morrer.
Não existe diferença entre o pessimista que diz "Ah não tem jeito, nem adianta fazer nada" e o otimista que diz "Não precisa fazer nada, vai dar tudo certo". Em ambos os casos, nada acontece.

Nós nos perguntamos que porque estávamos no negócio e em que tipo de empresa queríamos que a Patagonia fosse. Uma empresa de 1 bilhão de dólares? Tudo bem, mas não se tivermos que fazer produtos dos quais não nos orgulhamos.

E discutimos o que poderíamos fazer sobre o impacto ambiental que causávamos como empresa. Falamos sobre nossos valores em comum, e sobre a cultura que trouxe todos para a Patagônia, e não para outra empresa.

Executivos que concentram nos lucros, vendem as empresas quando entram num buraco. Para mim, lucro é o que acontece quando fazemos certo todo o resto.

Por quem os executivos são responsáveis? Pelos clientes? Acionistas? Funcionários? Por nenhum desses. Executivos são responsáveis por sua base de recursos. Sem um ambiente saudável não existem acionistas, funcionários, clientes e nenhuma empresa.

Não produzimos Kits de Relações públicas ou festas em shows comerciais. Acreditamos que o melhor jeito de conseguir publicidade é dizer algo importante de ser dito.
Em muitas companhias, o rabo (financeiro) é quem abana o cachorro (decisões corporativas).

Queremos que nossos clientes precisem de nossos produtos, não apenas desejem. É claro que também queremos - e precisamos - ganhar dinheiro, mas acreditamos que isso é mais bem cumprido permanecendo ágil e eficiente.


Um dos nossos objetivos foi não fazer dívidas. Uma empresa com poucas dívidas, ou com "dinheiro no porquinho", pode aproveitar oportunidades à medida que elas aparecem ou investir num começo sem ter que contrair mais dívidas ou procurar investidores de fora.

Na verdade, nossos funcionários são tão independentes, nos disseram alguns psicólogos, que seriam considerados não empregáveis em uma empresa típica. Nós não queremos zumbis que apenas seguem instruções.

Queremos o tipo de funcionário que irá questionar a sabedoria de alguma coisa que julga ser uma decisão ruim e, uma vez que se convença de alguma coisa, vai dar o sangue para produzir artigos da melhor qualidade possível - sejam eles camisetas, catálogos, displays de vitrine ou um programa de computador.

Como você faz com que essas pessoas tão individualistas se alinhem e trabalhem por uma causa comum é a arte do gerenciamento na Patagonia.

Não temos escritórios privados, e todos trabalham em salas abertas sem portas ou separações. O que perdemos em "espaço silencioso para pensar" é mais do que compensado por melhoria na comunicação e atmosfera igualitária.

Gerentes tentam liderar pelo exemplo. Não temos vagas reservadas no estacionamento: as melhores vagas são reservadas para carros de baixo consumo, independentemente de quem os possui.

Malinda e eu pagamos nosso almoço na lanchonete, assim não enviamos a mensagem de que está tudo bem em tirar dinheiro da empresa.

E temos uma política de livro aberto, com os detalhes financeiros disponíveis para todos os funcionários, para promover transparência completa.

Apesar dos desafios envolvidos, descobrimos que toda vez que escolhemos fazer a coisa certa, mesmo que custe o dobro, ela se mostra mais lucrativa. Isso reforça minha confiança de que estamos no caminho certo.

Se você quer mudar o governo, você tem que mudar as corporações, e para isso precisará mudar os consumidores. Opa, o consumidor? Ué, sou eu. Sou eu que tenho que mudar.

A definição original de consumidor é "aquele que destrói ou gasta pelo uso, devora, desperdiça". São necessários 7 planetas Terra para prover matéria-prima se o resto do mundo consumir como os americanos.

Um dos maiores desafios que eu tenho é combater a complacência.

O sonho americano é ter seu próprio negócio e expandí-lo tão rápido quanto possível enquanto você guarda dinheiro e curte a aposentadoria nos cursos de golf. Não importa se você está vendendo shampoo ou minas terrestres.

Quando a empresa se torna um bezerro gordo, é vendida por lucro, e seus recursos e holdings são devastadas ou deixadas de lado, quebrando laços familiares e a saúde das economias locais. A noção de empresas como entidades descartáveis inclui todos os outros elementos da sociedade.

A empresas públicas não podem fazer nada - estão nas mãos dos acionistas. Patagonia é uma empresa privada, os únicos acionistas sou eu e minha esposa, então podemos fazer tudo que quisermos.

Um samurai não pode ter medo de morrer, qualquer vacilo, ele tem sua cabeça cortada. Eu não tenho medo de perder essa empresa.

A missão da Patagônia é "usar o mundo dos negócios para inspirar e implementar soluções para a crise ambiental"

Viajar é minha forma de auto-educação. Em todo riacho que eu pesco, agora não é tão bom quanto costumava ser. Se você ficar de olhos abertos enquanto viaja, vai perceber que estamos destruindo o planeta. Eu sou muito pessimista em relação a isso.

Durante toda minha vida não vi nada além de constante deterioração de todos os processos que são essenciais à manutenção de uma vida saudável no planeta Terra.

A maior parte dos cientistas e pensadores do campo ambiental que conheço pessoalmente também é pessimista e acredita que estejamos experimentando uma extinção da espécie extremamente acelerada - inclusive, possivelmente, a maior parte da raça humana

Eu criei uma empresa sem precisar realmente. Nunca quis ser um empresário, eu era artesão e bom em trabalhar com minhas mãos.

Patagonia existe para pôr em prática todas as coisas que pessoas inteligentes estão dizendo para fazermos, não apenas para salvar o planeta, mas para salvar também a economia.

Se você vai até as causas reais, muito dos maiores problemas da sociedade existem porque estamos destruindo o planeta [...]

O pentágono diz que as "novas guerras" serão as "guerras por recursos naturais". Estamos muito distantes de uma socieade sustentável [...]

Ficar dando dinheiro para resolver os sintomas não resolverá os problemas.

Temos que acabar com essa idéia de que é Filantropia. Para mim é custo empresarial. Toda empresa deveria dizer "somos poluidores, estamos usando fontes não-renováveis, devemos nos cobrar isso"

É bom para os negócios. Pense como um custo de marketing [...] "Ok, você vende vinhos por $10. Cobre $10,10. Ninguém deixará de comprar seu vinho porque custa por causa de $0,10. Na verdade, você pode adicionar só $0,6 pois 40% das doações você pode abater impostos".

Se em um posto de gasolina o frentista diz "obrigado por abastecer, 6 centavos irão para o meio-ambiente, aposto que muita gente mudaria seu caminho para pôr esta gasolina"
Eu acredito que o modelo aceito de capitalismo que demanda crescimento infinito é o culpado pela destruição da natureza e deve ser substituído. Fracassando isso, eu tento trabalhar com as empresas e ajudá-las a mudar seus pensamentos sobre nossos recursos naturais.

A Wal-mart me perguntou qual é a coisa mais importante que eles poderiam fazer, e eu disse "Assuma a responsabilidade pelo seu produto, do nascimento ao fim".

Temos que acabar com essa idéia de consumir-descartar.

Não existe Sustentabilidade, existem apenas níveis. É um processo, um caminho que você trilha e tenta - todos os dias - fazê-lo melhor.

Yvon ChouinardFontes:



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5 comentários:

Canteiro Pessoal disse...

Nossa... que todos nós possamos ter em nossos respectivos objetivos, um caráter e proceder como deste ser aqui retratado.
Tudo abordado por aqui é espetacular, mas esta parte saltou em meus olhos, "como o objetivo de ninguém ali era ser megamilionário". Isto, levanta a questão da simplicidade e viver e apenas viver. Tudo na naturalidade, olhar para o próximo e ao meio em que está inserido e, sem sombra de dúvida, o atuar do amor tão brilhantemente como levantar de bandeira.
Excelente post!

Beijos mil vaso

Priscila Cáliga

Tatah Paiva disse...

Sumiu, hein Nick??? Pensei que tivesse ficado metido porque está com 350 seguidores no blog???
Legal esse negócio de LinkWithin, né???
Achei fuçando em algum blog!rs

Eliana Gerânio Honôrio disse...

Muitas saudades!

Juliana Migliorati disse...

Legal que só! Ter um objetivo na vida é de extrema necessidade.
Eu não sou boa de negócios pessoa de coração mole morre pobre srsrsrrsr... kkkkk... Beijo

Sabrina Noureddine disse...

Adorei esse post, não conhecia a empresa, nem o livro, também entrou para a minha lista....rsrsrs
Eu assisti The Corporation, excelente para refletirmos, somos os únicos responsáveis pelo mundo que temos e o que teremos...
Abs.

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