25.6.10

Filosofia para o Dia-a-Dia: Montaigne e a Auto-Estima

No documentário "Filosofia para o Dia-a-Dia" (Philosophy: A Guide to Happiness), o filosófo suiço Alain de Botton destaca 6 grandes pensadores sobre temas importantes do nosso cotidiano:

- Montaigne e a Auto-Estima

"Belas almas são universais, abertas
e prontas para tudo"



Parte 1 - 9 min


http://www.youtube.com/watch?v=i4vCJ-4l8v8

Parte 2 - 7 min http://www.youtube.com/watch?v=jUfbVMWkl64

Parte 3 - 8 min http://www.youtube.com/watch?v=oVRNXetnFj0


Melhores Trechos:

Montaigne é um filósofo atípico e cativante por uma razão principal: ele compreendia o que faz você se sentir mal consigo mesmo.

O livro aborda três tipos principais de inadequação.

Primeiro, a inadequação física, seu sentimento de desconforto com relação ao próprio corpo.

Depois, a inadequação experimentada quando somos julgados, ao termos nossos hábitos e costumes desaprovados.

E, por fim, a inadequação intelectual, o sentimento de que somos pouco sagazes.

Montaigne dizia que estamos cercados de modelos equivocados, sem espaço para abarcar a natureza da maioria de nós, e que isso faz o individuo odiar a si mesmo, sempre que não se encaixa neles.

Se acreditamos nele, é por confiarmos em Montaigne como amigo, um homem com a coragem para dizer grandes verdades, com simplicidade e honestidade.

Montaigne foi um filósofo atípico, sobretudo num aspecto: a maior parte dos filósofos até então afirmava que a mente pensante podia levar à felicidade, que a racionalidade nos dava a chance de realização.

O primeiro problema de sermos seres pensantes, para Montaigne, é que isso atrapalha nossa relação com nossos corpos.

Ao contrário dos outros animais, temos repulsa por nossa corporalidade. Achamos que somos gordos, brutos ou desajeitados demais. Desenvolvemos distúrbios alimentares, complexos sexuais e bloqueios.

"Temos de reconhecer nossas semelhanças com os bichos da fazenda. Reis e filósofos defecam", seu texto nos lembra, "e as damas também".

A sabedoria animal, muitas vezes, é maior do que a nossa. Por exemplo: os animais ficam mais à vontade com o corpo deles, não têm os constrangimentos, as vergonhas e os pudores que temos. Sua relação com o corpo é mais natural.

Montaigne admirava os animais. Eles são fundamentais em sua filosofia, como exemplos de uma sabedoria que deveríamos imitar.

Montaigne não nos igualava aos animais para nos diminuir, e sim para fazer com que nos aceitássemos melhor.

Devemos aceitar o corpo que temos com uma pitada de humor, tão naturalmente quanto os animais o fazem. É uma idéia simples. Uma idéia não precisa ser complexa para ser verdadeira.


Ter o cérebro desenvolvido não atrapalha só por nos levar a ter vergonha do próprio corpo, mas também porque nos leva a ser arrogantes, a achar que sabemos o que é certo e impor nossa visão aos outros.

Cada sociedade tem seus parâmetros do que é normal, do que são roupas, comidas ou conversas normais. Quem foge desses parâmetros está sujeito a ser alvo de julgamentos e preconceito, a ser tachado de "esquisito", virar alvo de chacota ou coisa pior.

Então, o que devemos fazer ao ser alvo de preconceito alheio? Numa única palavra: viajar. Física ou mentalmente. Temos de nos deparar com a diversidade do mundo e ver como aquilo que parece estranho para uma sociedade pode ser considerado normal por outra.

Cada país tem seus preconceitos, mas viajar de um país a outro relativiza os preconceitos individuais do viajante. Não é só uma questão de ampliar os horizontes, mas de fazer você perceber como a mente de seu opressor é limitada.

Montaigne não pregava o multiculturalismo nem afirmava que todas as culturas são igualmente boas. Ele só criticava a forma como as pessoas decidem o que é bom ou ruim com base no hábito mais do que na razão.

Conseguir uma perspectiva mais ampla nos faz ser mais tolerantes, não só com os outros, mas com aspectos de nós mesmos.


Outro campo que nos faz sofrer é o intelectual, a sensação dolorosa de não sermos tão sagazes quanto deveríamos.

Na época de Montaigne era preciso ter alguns requisitos para ser visto como inteligente. O principal era o diploma universitário.

Montaigne tinha uma visão muito clara a respeito: para ele, a maior parte dos graduandos era, apesar das becas e dos diplomas, "um bando de tapados".

Ele não dizia isso por recalque, mas apenas para mostrar que símbolos de inteligência, muitas vezes, não querem dizer nada.

O tipo de inteligência que importava para Montaigne era a "sabedoria". Ele afirmava que uma pessoa podia ser sábia sem jamais ter freqüentado uma universidade. Para isso, bastaria ter humildade, modéstia e aceitar as próprias limitações intelectuais.

Os sábios não precisam saber de tudo sempre. Eles aceitam que certas coisas estão além de seu controle, aceitam suas limitações, não só as da mente como as físicas.

Montaigne conhecia muitos lavradores, gente sem nenhuma instrução formal. No contato com eles, percebeu que muitos tinham mais sabedoria que os universitários.

Montaigne jamais disse que o estudo era inútil, mas observou que muitos universitários não se tornam mais felizes ou mais sábios que as outras pessoas.

Montaigne quer nos mostrar que, num lugar como este [Cambridge University], você vai decorar muitas coisas, vai armazenar informações, mas não necessariamente aprenderá a usá-las em sua vida.

Aqui dentro [Cambridge University], perdi muitas lições que a vida tinha a ensinar. Se fosse para sugerir o curso ideal, eu usaria textos de Montaigne, demonstrando como muitos pontos importantes não são abordados aqui, mas deveriam ser.

Assuntos como a boa convivência com os outros, como combater a ansiedade, como lidar com a morte... Até assuntos banais, como a forma de terminar uma relação. Essas questões não são debatidas aqui, mas talvez devessem ser.

Montaigne reconhecia que há pessoas mais sagazes do que outras, mas dizia que a maneira como elas são classificadas é que está errada, assim como nosso sistema de avaliação escolar, que recompensa a coisa errada: o aprendizado em vez da sabedoria.

Mas como seria um teste de sabedoria aceitável para Montaigne? Como alguém pode avaliar a sabedoria em vez de medir apenas o aprendizado? Tentei criar uma prova, Os alunos devem responder a cinco das questões abaixo. A precisão factual das respostas, embora desejável, não terá peso na avaliação.

Eram perguntas como:

"O que fazer quando se está ansioso?"
"O que é ser bom pai ou boa mãe?"
"Como distinguir amor de uma paixão passageira?"
"Devemos nos preocupar com o que os outros acham?"

Os estudantes de hoje não são avaliados em sua sabedoria, mas talvez devessem ser. O sistema educacional, como o da França de Montaigne, faz muita gente se sentir burra quando, na verdade, não é, enquanto deixa outras pessoas se achando muito espertas embora não sejam.

Você pode ser capaz de elaborar um texto brilhante, recordar muitos fatos e apresentar argumentos coerentes sem que seja sábio, da mesma maneira como um individuo pode não ter essas habilidades e, ainda assim, ser muito sábio.

Se nada disso abrandar nossa sensação de inadequação intelectual diante de gente com credenciais intimidadoras, Montaigne tem uma última sugestão: que imaginemos a pessoa no vaso sanitário. Afinal, "mesmo no mais alto dos tronos, todos têm de usar o traseiro para sentar".

"Sou um homem. Nada que seja humano me é estranho."

"Aquele que acha que sabe, na verdade, não sabe o que é saber."

Montaigne convidava-nos a não nos sentirmos humilhados por nenhum aspecto daquilo que somos, nossos corpos ou idiossincrasias, ou pela falta de instrução formal.

O que distingue Montaigne é que seu recado vem de alguém em quem podemos confiar como amigo, um dos primeiros e únicos filósofos a lançar idéias realistas do que é ser uma boa pessoa.



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3 comentários:

Thatiana disse...

Estou ansiosa pelos dois últimos tópicos dessa série... mto bom! :D
Esses temas são tão importantes e tão interligados que um sempre leva ao outro e todos a mesma coisa rsrsrs (compliquei né?!)

1° repeito às diferenças SEMPRE, respeito às opiniões, culturas, tradições, sotaques, cor, td;

2° "Somos todos ignorantes o que muda é o assunto" (não sei quem é o autor dessa frase, mas li em algum lugar e ficou guardado no meu íntimo). E isso é mto sincero;

3° "Quem anda muito e lê muito, sabe muito" (tb não sei de quem é, mas li em algum lugar).


Bjossss!

Canteiro Pessoal disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Canteiro Pessoal disse...

Nicholas, que frase: Belas almas são universais, abertas e prontas para tudo. Vou de encontro no quanto, o universal é abortado por meus atos, tantas vezes, o aberto não reina e o estar pronta não entrar no palco. Momentos assim, grito em olhos, escondo-me para o resgate,para que não morra em mim o desejo de amar a abertura, o galgar dos olhos sendo doces, pois o amargo é assombroso, e magoar peles me torna tão vivo e eternamente nos segundos exausta fico da vida cotidiana. Triste! No entanto, a busca da presença das letras, é tão desejável, acalma-me, pois me leva a voos com a luz e a vida não partiturada em superficial. Com isso, sinto que meu gesto existe e em minha voz é voz incomum. Portanto,'para que eu possa levar uma gota de orvalho', encosto-me a face em dedos enlaçam meus dedos, e tudo desabrochar em madrugada sabidas, que colhem o grande íntimo da noite.


A voz presente,
a voz em verbo
e a voz serenizada.

Abraços.

Priscila Cáliga

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