27.7.10

Livro "Tête-a-Tête - Simone de Beauvoir e Jean-Paul Sartre", Hazel Rowley


"Eles formavam um dos casais mais lendários da História. Os dois estão sepultados no mesmo jazigo. Impossível pensar em um sem lembrar do outro.

O impacto de seus escritos no pensamento moderno é inestimável, mas Sartre e Beauvoir são igualmente lembrados pela vida que levaram. Eram brilhantes, corajosos, inovadores.

Como estudantes, não podiam ter tido uma atuação mais brilhante, no entanto deram as costas para a rigidez acadêmica e as sutilezas burguesas. Tornaram-se ícones como livres-pensadores e intelectuais engajados. Sua produção abrange um extraordinário leque de gêneros.

Sartre e Beauvoir são associados com liberdade. Sua filosofia não era uma mera teorização, foi feita para ser aplicada à vida.

Rejeitaram o casamento. Nunca viveram juntos. Tinham abertamente outros amantes, davam-se bem com os amantes um dos outros, às vezes, dividiam-nos.

Este livro mostra a paixão, a energia, a audácia, o humor e as contradições de seu notável (e pouco ortodoxo) relacionamento.

Esta não é uma biografia de Sartre e Beauvoir, é a história de uma relação. Quis retratar essas duas pessoas de perto, em seus momento mais íntimos.

Podemos ou não considerar esta uma das grandes histórias de amor de todos os tempos, mas é uma grande história. Exatamente o que Sartre e Beauvoir sempre quiseram que suas vidas fossem."

(Hazel Rowley)


Indicação da minha grande amiga Daniele Trindade Cabral, NOTA 1000 esse livro! VALEU DANI!!! =D

Eu li mais por interesse na vida do Sartre. Tive contato com as idéias de liberdade e responsabilidade dele, que me atraíram. Sobre a Simone de Beauvoir, eu nunca tinha ouvido falar.

Após a leitura, achei a Simone de Beauvoir ainda mais impressionante do que o Sartre. Ambos tiveram vidas excepcionais: viajaram pelo mundo, quebraram tabus, transformaram o pensamento da sua época, influenciaram intelectuais e milhões de pessoas no mundo, se engajaram ferozmente contra guerras e injustiças, e amaram muito.

Quando Sartre era jovem, o avô dele disse que ele não tinha talento para ser um grande escritor. Aos 59 anos ganhou o Nobel de Literatura e recusou o prêmio, mesmo estando apertado de dinheiro! hahaha

No entanto, eram humanos como nós. Tinham inseguranças, tristezas, arrependimentos, desilusões, dúvidas.

Para Simone, tudo era mais difícil. Era mulher, em uma época em que o grande objetivo das mulheres deveria ser o casamento. Havia diferenças gritantes entre os sexos nos estudos, no trabalho, no comportamento social. Ela teve que superar essa carga a mais. Ele não.

Suas obras, ações e modo de vida, fizeram dela um dos principais expoentes do feminismo.

Este livro me acrescentou muita coisa, devorei as páginas em poucos dias, fiquei até triste que acabou. RECOMENDO! :D

Melhores Trechos do Livro

"Naturalmente, não se tem sucesso em tudo, mas é preciso querer tudo" (Sartre)

"O homem é condenado a ser livre" (Sartre)

" Eu era muito triste porque sofria por ser feio. Livrei-me completamente dessa tristeza, porque é uma fraqueza. Quem conhece a força que tem, deve ser alegre." (Sartre)

"Para mim, uma escolha nunca é final. Esta sempre sendo feita [...] O horror da escolha definitiva é que envolve não só o eu de hoje, mas também o de amanhã" (Sartre)

"Sartre era encorajador; também estava cheio de projetos e planos para o futuro deles juntos. Teriam aventuras e viagens, trabalhariam muito, e teriam vidas de liberdade e paixão. Ele lhe daria tudo que pudesse. A única coisa que não podia lhe dar era sua individualidade. Precisava ser livre."

"Era óbvio que a ajuda de Sartre não seria do tipo convencional. Ele desdenhava qualquer coisa que soubesse a conformismo ou convencionalismo. A idéia de um emprego regular, com colegas e um chefe, era anátema para ele. Tampouco queria ser um literato profissional, escrevendo em um escritório cheirando a mofo e revestido de livros.

A idéia de se estabelecer num lugar não tinha graça. E embora já tivesse sido noivo, atualmente, a perspectiva de se casar, ter filhos e adquirir bens o horrorizava. Ele tinha uma missão: ser um grande escritor. Nada mais importava. Para escrever, tinha que experimentar o mundo.

[...] Para ele, os indivíduos viviam num estado de absurdo fundamental, ou ‘contingência’. Deus não existia; a vida não tinha um significado preexistente. Cada indivíduo tinha que assumir sua liberdade, criar sua própria vida. [...] Ser livre era assustador. A maioria das pessoas fugia de sua liberdade. Mas Sartre abraçava a dele [...] Sua vida seria sua própria construção. Beauvoir achou isso uma bela filosofia"

"Havia algo incrívelmente vital naquele homem. Ele fazia com que ela quisesse se descobrir, fazia com que quisesse descobrir o mundo. Com ele, ela sabia que nunca se estagnaria."

"Jamais gostei tanto de ler e pensar. Jamais estive tão viva e feliz, ou previ um futuro tão rico. Ah Jean-Paul, querido Jean-Paul, obrigada." (Beauvoir)

"Ele podia ser um homem pequeno, mas vivia a vida de forma tão intensa que parecia maior do que qualquer homem que ela conhecia. Tinha uma ambição ardente. Mas não no sentido mundano. Não tinha interesse nas coisas materiais, nem em estar com pessoas famosas.

Muito simplesmente, estava convencido de que seria um grande homem e que sua tarefa era conseguir isso. Sartre precisava de sua liberdade, mas também queria que Beauvoir abraçasse a dela."

"Sartre estava convencido de que amor não era possessão. Para ele, um tipo mais generoso de amor significava amar a outra pessoa como um ser livre. Quando Beauvoir levantou a espinhosa questão do ciúme, Sartre disse que, se contassem tudo um ao outro, um nunca se sentiria excluído da vida do outro.

Não deveriam ter segredos. Em casos amorosos, dúvidas, inseguranças e obsessões, deveriam ter como objetivo a abertura total. Ele chamava isso de 'transparência' [...] Beauvoir achou a idéia tão assustadora quanto estimulante [...] lá estava Sartre querendo que ela compartilhasse seus pensamentos - todos eles - com ele."

"Desde cedo, compreendera que um aventureiro precisava preservar sua liberdade. Em tudo que lia [...] o herói solitário ia se conduzindo em meio a obstáculos traiçoeiros, dos quais os mais sinistros eram as mulheres. Sartre estava determinado, diz, a evitar esta armadilha"

"A sociabilidade e generosidade de Sartre eram lendárias. Engraçado, brincalhão, criativo e brilhante imitador, fazia as pessoas chorarem de rir. Adorava ajudar e encorajar os outros, e gostava de dar presentes. Mas apesar de seu calor humano e de seu espírito gregário, possuía uma auto-suficiência desconcertante.

Gostava de gente em volta, do burburinho das vozes ao fundo. Precisava ter uma mulher apaixonada por ele, e também gostava de se sentir indispensável a essa mulher. Mas, desde que se sentisse amado, era mais feliz sozinho com sua caneta, papéis e livros.

Os amigos regularmente o acusavam de indiferença. Suas namoradas, a princípio, se deleitavam com suas atenções, depois reclamavam que não lhes dava o suficiente de seu precioso tempo. Ficavam possessivas e ciumentas, e Sartre resmungava que eram exigentes demais"


Jean-Paul Sartre

"Como indivíduos, somos livres, e agimos de 'má-fé' quando tentamos evitar nossa liberdade. A liberdade traz consigo a angústia da escolha. Vem com o fardo da responsabilidade"

"Sartre não gostava de cíume. Achava importante que as pessoas controlassem suas paixões sem se deixar dominar por elas. Do contrário estavam negando sua liberdade, sendo reativas e não ativas" (Beauvoir)

"A tristeza anda de mãos dadas com a preguiça [...] Se, em sua noite melancólica, você fosse serrar lenha, sua tristeza desaparecia em 5 minutos. Vá serrar, mentalmente, claro. Empertigue-se, pare de representar, ocupe-se, escreva" (Sartre)

"Sartre acreditava firmemente que, com força de vontade, podia-se superar todos os desconfortos, emoções e obstáculos. Segundo ele, lágrimas e nervoso eram fraquezas"

"Nasci com uma personalidade combinando com a minha cara: boba e emotiva, covarde e auto-indulgente." (Sartre)

"Levava idéias muito a sério, mas não levava nem um pouco a sério sua posição de autoridade."

"Sartre estava ferozmente determinado a ser um homem livre; mantinha-se afastado de tudo que pudesse sobrecarregá-lo ou acorrentá-lo a um lugar. Nunca se casou; nunca adquiriu nenhum bem; não possui sequer uma cama, um quadro, um souvenir, um livro.

No entanto, o dinheiro dele sempre sai tão depressa quanto entra [...] uma característica que impressiona todos os seus amigos é sua imensa generosidade. Ele dá sem fazer conta, seu tempo, seu dinheiro e a si mesmo; está sempre pronto para se interessar pelos outros, mas não deseja nada em troca; não precisa de ninguém"

"Em dez dias você estará lá, tocarei em você. Falarei com você - estou extasiada. Sabe, mais do que Libertação [...] você é sempre minha experiência mais espantosa na vida, e a mais forte e a mais profunda e a mais verdadeira" (Beauvoir para Sartre)

"Nunca foi muito fácil para mim viver, embora eu seja sempre bem feliz - talvez por querer muito ser feliz. Gosto muito de viver e odeio a idéia de morrer um dia. E aí sou gulosíssima, quero tudo da vida, quero ser mulher e homem, ter muitos amigos e ter solidão, trabalhar muito e escrever bons livros, viajar e me divertir, ser egoísta e altruísta [...] Está vendo, é difícil ter tudo o que eu quero." (Beauvoir)


Simone de Beauvoir

"Cada vez mais, ele achava que escrever era uma busca fútil e complacente num mundo em que havia crianças morrendo de fome e injustiça em toda parte [...] Já não ligava para belas frases. Estava convencido de que a política era importante, a literatura, não"

"Ela e Sartre acreditavam firmemente que era responsabilidade dos intelectuais dizer a verdade, e isso significava permanecer independentes"

"Ele era um foguete, com uma vida e inteligência fascinantes [...] Fazia as idéias parecerem fáceis. Nunca era abstrato" (Lanzmann sobre Sartre)

"Ela abriu seus horizontes de forma espetacular. Tinha 44 anos e estava na flor da idade, era cheia de vitalidade. Com ela, descobriu o prazer de viajar, partir num carro com mapas e guias, e explorar novos lugares. Ficava impressionado com sua alegria de viver. Nunca vira ninguém trabalhar tanto quanto ela, nem conhecera alguém com tamanha capacidade de ser feliz.

Quando dizia que faria algo, ela fazia. 'Era a pessoa mais confiável que se possa imaginar [...] Você podia lhe contar tudo [...] ela quase nunca fazia julgamentos morais [...] Sua primeira reação era forçar-se a compreender, e colocar-se na pele do outro'" (Lanzmann sobre influência de Beauvoir)

Chicago, 1952. Beauvoir estava 44 anos. O fotógrafo Art Shay colocou a câmera na porta entreaberta e bateu a foto hahaha mandou bem!

Ela era linda demais, tinha olhos azuis, cabelos lisos escuros. Tinha paixão pela vida, inteligência e sensibilidade fascinantes, e adorava sexo.

Sartre feio daquele jeito, baixinho, vesgo, barrigudo! Além de ajudá-lo com os trabalhos, ainda ajudava ele a ter amantes hahahaha O Sartre era muito sortudo!! :-P rs



"A única forma de aprender é questionando o que se ensina [...] O homem não é nada se não for um contestador." (Sartre)

"O intelectual devia ouvir as massas e trabalhar com elas, ao invés de conduzí-las"

"Ela o admirava como escritor e como homem, dizia na carta. Ele escrevera os melhores livros de sua geraçã; defendera os fracos e oprimidos; era a alma da generosidade. 'Fazendo e oferecendo amor, um sedutor sempre pronto para ser seduzido, você ultrapassou todos os seus amigos com sua vitalidade, inteligência e brilho" (Françoise Sagan para Sartre)

"Uma coisa não mudou e não pode mudar: não importa o que aconteça e o que eu venha a ser; virei a ser o que eu for com você" (Sartre para Beauvoir)

Lápide no Cemitério de Montparnasse em Paris

Biografia de Sartre
Biografia de Beauvoir

Frases de Sartre sobre Existencialismo



"O importante não é aquilo que fazem de nós, mas o que nós mesmos fazemos do que os outros fizeram de nós."

"Somos separados das coisas por nada, apenas por nossa liberdade; é ela que faz que haja coisas com toda sua indiferença, sua imprevisibilidade e sua adversidade, e que nós sejamos inelutavelmente separados delas."

"A vergonha é vergonha de si, ela é reconhecimento de que eu realmente sou esse objeto que o outro olha e julga. Só posso Ter vergonha de minha liberdade enquanto ela me escapa para tornar-se objeto dado. "

"Quanto aos homens, não é o que eles são que me interessa, mas o que eles podem se tornar."

"E são estas duas idéias - difíceis, reconheço: o homem é livre - o homem é o ser pelo qual o homem se torna objeto - que definem o nosso estatuto presente e permitem compreender a opressão."

"Nossa liberdade hoje não é nada mais que a livre escolha de lutar para nos tornarmos livres. E o aspecto paradoxal desta fórmula exprime simplesmente o paradoxo de nossa condição histórica. Não se trata de enjaular meus contemporâneos: eles já estão na jaula."

"O homem não é de modo nenhum a soma do que tem, mas a totalidade do que não tem ainda, do que poderia ter."

"Será que, no fundo, o que amedronta na doutrina que tentarei expor não é fato de que ela deixa uma possibilidade de escolha para o homem?"

"O homem nada mais é do que aquilo que ele faz de si mesmo: é esse o primeiro princípio do existencialismo."

"O existencialista declara freqüentemente que o homem é angústia. Tal afirmação significa o seguinte: o homem que se engaja e que se dá conta de que ele não é apenas aquele que escolheu ser, mas também um legislador que escolhe simultaneamente a si mesmo e a humanidade inteira, não consegue escapar ao sentimento de sua total e profunda responsabilidade."

"O homem está condenado a ser livre."

"Primeiro, tenho que me engajar; em seguida, agir segundo a velha fórmula: “não é preciso ter esperança para empreender”. Isso não quer dizer que eu não deva pertencer a um partido, mas que não deverei ter ilusões e que farei o melhor que puder."

"O que o existencialista afirma é que o covarde se faz covarde, que o herói se faz herói; existe sempre, para o covarde, uma possibilidade de não mais ser covarde, e, para o herói, de deixar de o ser. O que conta é o engajamento total, e não é com um caso particular, uma ação particular, que alguém se engaja totalmente."

"A escolha é possível, em certo sentido, porém o que não é possível é não escolher. Eu posso sempre escolher, mas devo estar ciente de que, se não escolher, assim mesmo estarei escolhendo."

"O homem é apenas seu projeto, só existe na medida em que se realiza, ele é tão-somente o conjunto de seus atos."

"Todo homem se refugia na desculpa de suas paixões, todo homem que inventa um determinismo é um homem de má fé."

"Sou responsável por mim mesmo e por todos"

"Cada vez que o homem escolhe seu compromisso e seu projeto com toda sinceridade e com toda lucidez, torna-se-lhe impossível preferir um outro"

"Uma coisa não mudou e não pode mudar: não importa o que aconteça e o que eu venha a ser; virei a ser o que eu for com você"
(Sartre para Beauvoir)



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4 comentários:

Vanilla disse...

Parabéns pela escolha!
Admiráveis!

Canteiro Pessoal disse...

Nicholas, surpreendente! Cada dia que passa viajar, despejar meus olhos em teu espaço, é essencial, cultura, aprendizagens múltiplas. És homem-jovem raro neste globo.

Abraços

Priscila Cáliga

felippe disse...

oi meu nome é felippe e gostei meuito do seu blog e por isso quero te fazer uma proposta aceita ser parceiro do meu blog: http://recordcanal07.blogspot.com/
se se enteressar entre em contato pelo meu email: felipperafael@r7.com ou felipperaphael@hotmail.com ou deixe um comentario em meu blog abraços do blog record canal07!

Diego Araújo da Rosa disse...

Boa tarde, Nicholas.

Li seu artigo sobre Sartre e gostaria de contribuir com a minha opinião.


Analise de máximas sartreanas:

1°) "Não há determinismo, o homem é livre". No entanto, a de se considerar que Sartre acreditava que "a experiência precede a essência", quer dizer, se, por um lado, estamos condenados à liberdade, por outro, somos escravos dela, na medida em que ainda não experimentamos.

2°) "O existencialista não crê na força da paixão". Este modo de pensar contraria o de Shakespeare. Em "Romeu e Julieta" o escritor inglês conduz um casal de amantes ao suicídio, contrariando a razão.

3°) "O homem é o futuro do homem". Sim. Como só a experiência é capaz de nos revelar o verdadeiro sentido das coisas, o futuro pertence à contemporaneidade. Porém, a de se ressaltar que, muitas vezes, repetimos os erros do passado, ou seja, a História não é um acontecimento linear. Logo, o inverso também é válido - o homem é o passado do homem.

Fonte desta analise: (SARTRE, Jean-Paul. O existencialismo é um humanismo, Col. Os pensadores. São Paulo, Abril Cultural, 1973. p. 15-16).

Parabéns pelo blog.

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