3.8.10

Filosofia para o Dia-a-Dia: Nietzsche e o Sofrimento

No documentário "Filosofia para o Dia-a-Dia" (Philosophy: A Guide to Happiness), o filosófo suiço Alain de Botton destaca 6 grandes pensadores sobre temas importantes do nosso cotidiano:

- Nietzsche e o Sofrimento

"Eu não sou um homem; sou dinamite."

(Friedrich Nietzsche)



Parte 1 - 9min


http://www.youtube.com/watch?v=PdCQSbutKtc

Parte 2 - 7min http://www.youtube.com/watch?v=PKiOinI3SmY

Parte 3 - 7min http://www.youtube.com/watch?v=uKElUnc6WHs


Melhores Trechos:

Todos nós temos fases ruins na vida. Todos enfrentamos dificuldades que parecem intransponíveis. Quando isso acontece, muitas vezes temos vontade de desistir.

Friedrich Nietzsche acreditava que todos os tipos de sofrimento e fracasso deveriam ser bem-vindos no caminho para o sucesso e vistos como desafios a serem superados. Praticamente sozinho entre os filósofos, considerava os infortúnios como algo vantajoso na vida.

Ele escreveu: "A todos com quem realmente me importo, desejo sofrimento, desolação, doença, maus-tratos, indignidades, o profundo desprezo por si, a tortura da falta de autoconfiança e a desgraça dos derrotados".

Em sua visão, para conquistar algo que valha a pena o homem tem de fazer um grande esforço.

Friedrich Nietzsche entendia de esforço, tanto físico quanto mental. Sua vida foi muito difícil. Ele viveu em permanente luta contra doenças: vertigens, dores de cabeça, enjôos, provavelmente em decorrência da sífilis que contraiu jovem, num bordel em Colônia. Era obrigado a estar sempre se mudando, em busca de um local cujo clima não agravasse seu estado.

Seus livros não fizeram sucesso enquanto ele estava vivo. Embora tenha recebido o título de professor universitário aos 24 anos, seu pensamento destoava do de seus colegas. Ele viu-se obrigado a se aposentar aos 35 anos. Pelo resto da vida, viveu com bem pouco dinheiro.

Ele tinha uma rotina definida: acordava às 5 horas da manhã, escrevia até o meio-dia e saía para caminhadas nas montanhas ao redor do lugarejo.

A vida amorosa de Nietzsche foi igualmente desastrosa. Todas as suas tentativas de seduzir mulheres foram em vão. Diversas vezes ele confessou sofrer com a solidão. Escreveu a um amigo casado: "Graças a sua esposa, as coisas são 100 vezes melhores para você do que para mim".

Terminou seus dias na loucura, depois do famoso colapso nervoso.

Foi confinado num sanatório onde, sob os cuidados da irmã e da mãe, permaneceu até sua morte, onze anos mais tarde, aos 56 anos.

Uma lição que a vida difícil ensinou a Nietzsche foi que toda conquista é fruto de luta e esforço constantes, embora imaginemos o sucesso como fácil e natural para algumas pessoas. Na visão de Nietzsche, não existe estrada reta até o topo. "Não falem de dons ou talentos inatos", escreveu. "Podemos listar muitas figuras importantes que não tinham talento, mas conquistaram seu mérito e transformaram-se em gênios, superando as dificuldades."

A essência da filosofia de Nietzsche é uma idéia simples: dificuldades são normais. Não devemos entrar em pânico nem desistir de tudo. Mas Nietzsche achava que não bastava sofrer. O segredo está em saber reagir bem ao sofrimento, ou, quem sabe, usá-lo para criar coisas belas.

Nietzsche dizia que o fracasso é um tabu em nossa cultura, tratado como se fosse uma coisa que só acontecesse a alguns coitados, mas ninguém fala a respeito. E, do outro lado, há o sucesso. Os dois são coisas distintas.

O interessante é a idéia de que na vida de qualquer um, mesmo sendo uma boa vida, sempre haverá um grau de fracasso. Como você pode apreciar o sucesso se não tiver fracassado antes?

Nietzsche dizia que, diante de problemas, devemos nos espelhar nos jardineiros. Os jardineiros deparam-se com plantas que tem raízes feias. Pois eles são capazes de cultivar algo que parece feio a princípio, até extrair a beleza que há nele.

Para Nietzsche, essa é uma metáfora de como devemos agir na vida: pegar situações que nos parecem horríveis e fazer nascer algo belo delas. lsso só depende de nós mesmos.

A inveja, por exemplo, pode gerar só amargura. Mas, se conduzida do jeito certo, pode nos estimular a disputar com um rival e produzir algo maravilhoso.

A ansiedade pode nos deixar em pânico, mas também pode nos levar a uma análise do que está errado, gerando, assim, paz de espírito.

Era por isso que Nietzsche desejava o infortúnio a seus amigos. Por acreditar que as dificuldades eram um mal necessário e que, se cultivadas com a aptidão necessária, podiam levar à criação de coisas belas.

- Você desejaria o fracasso a seus amigos?
- Não. A sensação do fracasso, sim.
- Por quê?
- Porque a sensação de fracassar é terrível, mas a sensação de se reerguer depois contextualiza as duas sensações. O depois fica muito mais saboroso.

Se Nietzsche dedicou-se a pensar nas melhores reações aos problemas, ele também refletiu sobre quais seriam as mais desastrosas. E concluiu que uma das piores era afogar as mágoas. Um dos traços mais marcantes de Nietzsche era seu horror pelo álcool. Era mais que uma questão de gosto pessoal. Ele dizia que qualquer pessoa que quisesse ser feliz não deveria chegar perto de bebidas alcoólicas.

Imaginar que seja bom escapar dos problemas tomando 1 ou 2 drinques de vez em quando é ter uma visão equivocada da análise nietzschiana da relação entre sofrimento e felicidade.

A felicidade não vem da fuga dos problemas, e sim do ato de cultivá-los para extrair algo positivo deles. A última coisa que Nietzsche recomendaria seria afogar as mágoas.

Nossas preocupações são pistas valiosas do que está errado com a nossa vida e podem apontar o caminho para torná-la melhor.

Embora tenha tido uma vida difícil, não devemos achar que Nietzsche viveu se lamentando o tempo todo. Muitas vezes, ele falava de satisfação, sobretudo quando estava nas montanhas. Mas, por satisfação, ele queria dizer algo mais abrangente do que a sensação de bem-estar que talvez possamos imaginar.

Como diz a famosa frase de Nietzsche: "Aquilo que não me mata só me fortalece".

Nem tudo aquilo que nos faz sofrer é necessariamente ruim, assim como nem tudo que nos dá prazer necessariamente nos faz bem. "Considerar o sofrimento como algo mau a ser abolido", Nietzsche escreveu, "é o cúmulo da idiotice".



Gostou? Compartilhe:
TwitterStumbleupondel.icio.us

6 comentários:

|Fly| disse...

Gosto bastante do trabalho do Alain de Botton. Filosofia pode ser descomplicada e fazer parte de nossas vidas, e mais do que poder, já faz e deve ser vista assim.

belle disse...

:)

Hellyanna disse...

Simplesmente adoro Niezsche.....

assisti ao filme estes dias amei.....

e quando estudei filosofia na facul ce acredita que eu não conseguia ver o gênio.... acredito eu que pela obrigação de tirar boas notas.... não conseguia entender nada....

agora amoooooooooo

bjs

Canteiro Pessoal disse...

Nicholas. Que seleção fasciante. Muito soou nos timbres o trecho: 'Nietzsche dizia que, diante de problemas, devemos nos espelhar nos jardineiros. Os jardineiros deparam-se com plantas que tem raízes feias. Pois eles são capazes de cultivar algo que parece feio a princípio, até extrair a beleza que há nele'. A bela arte do jardinar, a bela descoberta. Um ser perguntou-me: - Cáliga, se alguém lhe presentear com um buquê de rosas, isso te alegraria? Disse: - Caro, não me alegraria, uma porque rosas não me agradam, é uma planta belíssima com suas façanhas e atributos, mas sem criatividade nenhuma aos meus olhos, pois todos presenteiam rosas, não há criatividade na atitude. Outro motivo, não aprecio planta que sofrera corte, dentro de alguns dias irá pro lixo, e sim, ter uma raridade de planta para cultivo. Também, é preciso ir a captura do gosto do que o outro gosto.

Ave rara, partilho um trecho que estou em reflexão faz uns dias. "Mas, nos tempos seguintes, houve tremores de terra e inundações extraordinárias e, no espaço de um dia e uma noite nefastos, todos os vossos combatentes foram tragados dum asó vez pela terra, e a Ilha Atlântida desapareceu mergulhando nas águas. É por isso que ainda hoje esse mar é impraticável e inexplorável, pois a navegação é dificultada pelos baixios lodosos que a ilha formou quando se afundou".

Abraços.

Priscila Cáliga

Thatiana Carvalho disse...

Vou ter que colar aqui o meu comentário no blog da Daniele (recomendado por vc há alguns dias atrás):
'Nunca li profundamente o Nietzsche, mas essas idéias abordadas aqui sempre estiveram na minha cabeça.
As plantas da caatinga, por exemplo, passam grandes privações de água e nutrientes, inconstâncias climáticas e foram exatamente esses fatores, ao longo do tempo, que as fizeram mais resistentes, fortes, adaptadas! Tudo graças as adversidades de seu habitat. Árvores que nunca estiveram ao vento, não suportarão as tempestades.'

Complementando... na época que me formei bióloga passei por muitas dificuldades em escrever minha monografia, não tive o apoio e orientação suficiente... pensei muito sobre elas e acabei aprendendo muito com essas dificuldades. Então resolvi fazer um agradecimento assim:
'Assim como os organismos viventes da Caatinga que precisaram desenvolver adaptações para sobreviver e se tornarem "fortes" no seu habitat, somos nós seres humanos, são as dificuldades que nos constroem e nos tornam fortes... Agradeço à todos e a tudo, devido ao seu papel e relevância nessa vida em especial às pedras nos sapatos.

bjo, Nicholas!
(ansiosa pelo último tópico da série)

Beeta disse...

Concordo com Nietzsche, não de forma tão radical, mas considero que a maioria dos seres humanos só aprendem com erros e sofrimentos..
eu sou assim aprendo com emus erros...
ótimo post,
beijos

Blog Widget by LinkWithin