30.8.10

Livro "A Nascente", Ayn Rand (The Fountainhead) - MEU FAVORITO! - parte 2

Link para a 1ª Parte:
Ayn Rand - Ilustração por Nick Gaetano

Na Parte 1 eu disse que esse livro me deu respostas, confiança, ânimo. Fez com que eu entendesse melhor como o mundo funciona. É o meu livro favorito sem dúvida.

Uma das coisas que chocam quem a lê é a apologia ao egoísmo. Mas não é no sentido comum: uma pessoa que não gosta de ninguém, que não compartilha nada com ninguém. Mas sim, no sentido de pensar pela própria cabeça, de ser independente, de agir pelos seus próprios valores e motivações, e não por coerção.

Quem escreve um livro como A Nascente não pode ser chamada de egoísta no sentido perjorativo. E quem lê o livro percebe que o protagonista, apesar de ser chamado de egoísta, é a pessoa mais generosa na história.

Veja abaixo um trecho dos rascunhos preliminares da Ayn Rand para o livro A Nascente:

Howard Roark - O homem como o Homem deve ser. Auto-suficiente, autoconfiante, a razão incorporada, a alegria de viver personificada. Acima de tudo, um homem que vive para si próprio, da forma como viver para si próprio deve ser entendida. E que triunfa completamente. Um homem que é aquilo que deve ser.

[...] Ele não sofre, porque não acredita em sofrimento. Derrotas e desapontamentos são apenas parte da batalha [...]

Ele será ele mesmo a qualquer custo - a única coisa que realmente quer da vida. E, no fundo, sabe que tem a habilidade para obter o direito de ser ele mesmo. Consequentemente, a sua vida é clara, simples, satisfatória e alegre [...]

Ele está em conflito com o mundo de todas as formas possíveis - e em completa paz consigo mesmo. E a diferença principal entre ele e o mundo é que ele nasceu sem a habilidade de levar os outros em consideração. Como uma questão de forma e necessidade de seu percurso, como em encontros entre companheiros de viagem - sim. Como uma consideração básica e primária - não.

[...] A história é a história de triunfo de Howard Roark [...] um épico triunfante do espírito humano.

O livro A Nascente foi escrito em 1935 e demorou 7 anos para ser concluído. Foi rejeitado por 12 editoras e finalmente publicado em 1943. Nos 2 anos seguintes, o boca-a-boca tornou-o um grande best-seller.

Ela tem outras obras interessantes, que estou pilhadaço para ler:

Atlas Shrugged, For The New Intellectual, Philosophy - Who Needs It, We The Living, Anthem, The Early Rand, Three Plays, Capitalism - The Unknown, The Art of Fiction, The Art of Non-Fiction, The Romantic Manifesto, Night of Januray 16th, Sense of Life, Virtue of Selfishness, entre outros.


Também tem a biografia The Passion of Ayn Rand da Barbara Branden. Foram grandes amigas, mas romperam a amizade por causa de uns rolos com o Nathaniel Branden. :-P

Esse livro virou filme e assisti. Nada demais. Para quem é fã, é bacana.


A obra mais importante de Ayn Rand é o Atlas Shrugged (A Revolta de Atlas, também publicado como 'Quem é John Galt?') e contém as principais idéias do Objetivismo, a filosofia criada por Ayn Rand.

Como vi em alguns blogs e alguns amigos avisaram nos comentários, será lançado em português agora em Setembro/2010 pela Editora Sextante. (Vou comprar um para mim, óbvio). Em 2011 está previsto sair no cinema, o primeiro filme de uma série de 4 (as gravações estão tendo vários problemas, tomara que o filme fique bom).

Atlas na mitologia carrega o mundo nas costas. O livro conta a história sobre um EUA fictício onde o governo aplica leis para impedir a inovação e obrigando empresas bem-sucedidas a sustentarem as fracas, assegurando que todos tenham participação no mercado.

A mediocridade começa a se aproveitar e os melhores empresários, artistas, pensadores, cientistas.. decidem se isolar da sociedade, não querem sustentar os acomodados, entram em greve e o caos se instala.


Recomendo TOTALMENTE ler A Nascente da Ayn Rand. Deveriam recomendá-lo no ensino médio, mas enquanto se é vivo nunca é tarde. No Brasil principalmente, se esse livro fosse tão famoso quanto é nos EUA, as coisas seriam muito melhores por aqui.

Recentemente (AGO/2010) um norte-americano escreveu a maior mensagem do mundo, viajando de carro com um GPS e registrando o caminho no Google Earth. Imagine a minha surpresa quando vi:

"Leia Ayn Rand"
hahaha assino embaixo! ;)



Clique aqui para ver os Melhores Trechos!
Parte 3 e 4 do livro (parte 1 e 2 no post anterior)
Parte 3

Ele [...] era correto demais, de uma maneira que era quase uma sátira deliberada do ser correto.

Leu por algumas horas. E então parou. Parou de repente, sem razão, no meio de uma sentença importante. Não tinha nenhuma vontade de continuar lendo. Não tinha nenhuma vontade de jamais fazer outro esforço [...] Largou o livro e levantou-se. Não tinha nenhuma vontade de permanecer onde estava; não tinha nenhuma vontade de sair dali. Pensou que deveria ir dormir.

Gail Wynard não era bom em acatar ordens. Ele não reconhecia nada além da precisão do seu próprio julgamento.

Era inútil. Não estavam lutando contra um homem. Estavam lutando contra uma vontade humana sem corpo.

Era como usar um rolo compressor para passar lencinhos. Mas ele apertava os dentes e se concentrava no trabalho [...] Ouviu e viu coisas que lhe deram imunidade contra o espanto para o resto da vida. Fazia um esforço máximo e aprendeu a ficar calado, a ficar no lugar como os outros descreviam como seu lugar, a aceitar a incompetência como seu chefe - e a esperar. Ninguém jamais o ouvira falar sobre o que sentia. Ele sentia muitas emoções sobre seus semelhantes, mas respeito não era uma delas.

Aprendera a ler e escrever sozinho [...] fazendo perguntas. Lia tudo que encontrava. Não podia tolerar o inexplicável. Tinha de entender tudo que qualquer um soubesse [...] Ninguém precisava jamais explicar-lhe qualquer coisa duas vezes. Aprendeu seus primeiros conceitos matemáticos com os engenheiros que instalavam canos de esgoto. Aprendeu Geografia com os marinheiros no porto. Aprendeu sobre civismo com políticos em um bar local que era ponto de gângsteres.

Tinha treze anos quando decidiu checar como era a educação [...] Mas a energia de sua vontade era desperdiçada: em uma semana, percebeu que não precisava fazer nenhum esforço para ser o primeiro da classe [...] Ele ficava sentado, persistentemente, durante horas que se arrastavam como correntes, enquanto a professora repetia, revisava e repassava, suando para arrancar alguma faísca do intelecto dos olhos vazios [...]

[...] frequentemente ia caminhar nas melhores ruas da cidade. Ele não sentia nenhuma amargura com relação ao mundo da riqueza, nenhuma inveja nem nenhum temor. Simplesmente tinha curiosidade, e sentia-se tão à vontade na Quinta Avenida como em qualquer outro lugar [...] Por enquanto ele não queria nada, apenas compreender.

Queria saber o que tornava essas pessoas diferentes das que viviam em seu bairro. Não eram as roupas, as carruagens ou os bancos que chamavam a sua atenção. Eram os livros [...] As pessoas do seu bairro não liam livros.

[...] Passou por uma agonia silenciosa, tentando lê-lo até o final. Chegou ao fim do livro. Entendeu um quarto do que leu. Mas esse foi o início de um processo que ele seguiu com uma determinação sistemática, com toda a sua energia. Sem aconselhamentos, ajuda ou um plano, começou a ler uma seleção incongruente de livros. Quando se deparava com um trecho que não conseguia entender em um livro, arranjava outros sobre o mesmo assunto. Diversificou suas leituras desordenadamente, em todas as direções [...] Não havia nenhuma ordem em sua leitura, mas havia ordem no que permaneceu em sua mente.

Gail Wynard, que se orgulhava de nunca precisar da mesma lição duas vezes, não se apaixonou outra vez nos anos seguintes.

Suas manchetes enormes, fotos berrantes e textos exageradamente simplificados atingiam os sentidos e entravam na consciência das pessoas sem nenhuma necessidade de um processo intermediário racional, como se fosse um alimento injetado pelo reto, sem precisar ser digerido.

O esforço que ele exigia de seus funcionários era difícil de executar; o esforço que exigia de si mesmo era difícil de acreditar [...] não tirava nada para si mesmo [...] gastava tudo na Manchete.

Ele olhou fogo na lareira. Isso é que fazia um homem feliz, ficar sentado olhando sonhadoramente para o fogo, para a sua própria lareira, na sua própria casa; é isso que ele havia ouvido e lido. Ele olhou fixamente para as chamas, sem piscar, para forçar-se a obedecer cegamente a uma verdade já estabelecida. ‘Só mais um minuto assim e vou me sentir feliz’ ele pensou, concentrando-se. Não aconteceu nada [...] Por que não conseguia convencer a si mesmo? Ele tinha tudo que sempre quisera [...] Quantas pessoas lutavam e sofriam para alcançar o que ele havia alcançado? Quantas sonhavam, sangravam e morriam para isso, sem conseguirem alcançá-lo?

Os Palmers te chateiam e os Eddington te esnobam. Mas você tem que agradar pessoas que você despreza para impressionar pessoas que desprezam você.

É isso o que todo mundo faz. É para isso que todo mundo vive.

- [...] é como a morte. Você não é real. É apenas um corpo [...] Você entende o que é a morte? Quando um corpo não pode mais se mexer, quando não tem... não tem nenhuma vontade, nenhum significado [...] Bem, o seu corpo se mexe - mas é só isso. A outra parte, a coisa dentro de você [...] a sua alma. A sua alma não existe. Nenhuma vontade, nenhum significado. O que você realmente é não existe mais [...]
- Então, há duas coisas das quais não podemos abrir mão: nossos pensamentos e nossos desejos?
- Sim! Você entende! Então, você percebe, você é como um cadáver para todos à sua volta. um tipo de morte ambulante [...] Você não está aqui, Dominique. Não está viva. Onde está o seu eu?
- Onde está o seu Peter? [...] Minha verdadeira alma, Peter? Ela é real somente quando é independente [...] Mas você nunca quis isso. Você queria um espelho. As pessoas não querem nada além de espelhos à sua volta. Para refletí-las ao mesmo tempo em que também refletem. Você sabe, como a infinidade sem sentido que surge de dois espelhos de frente um para o outro [...] Reflexos de reflexos e ecos de ecos. Sem começo e sem fim. Sem centro e sem propósito. Eu te dei o que você queria. Eu me tornei o que você é, o que os seus amigos são, o que a maioria da humanidade está ocupada sendo - mas sem adornos. Não andei por aí declamando críticas literárias para esconder minha opinião vazia; eu disse que não tinha opinião. Não peguei desenhos emprestados para esconder minha impotência criativa; eu não criei nada. Não fiquei dizendo que a humanidade é uma concepção nobre e que a unidade é o objetivo principal da humanidade; eu apenas concordei com todo mundo.

Dizem que a pior coisa que se pode fazer a um homem é matar seu respeito próprio. Mas não é verdade. Respeito próprio é algo que não pode ser morto. A pior coisa é matar a ilusão de respeito próprio de um homem.

É extremamente cruel ser honesto.

- Você nunca se sentiu pequeno ao olhar para o oceano.
Ele riu.
- Nunca. Nem ao olhar para os planetas. Nem para os picos das montanhas [...] Por que deveria? Quando olho para o oceano, sinto a grandeza do Homem. Penso na capacidade magnífica do Homem que criou este barco para conquistar todo esse espaço sem sentido [...] É interessante especular sobre as razões que tornam os homens ansiosos para rebaixarem a si mesmos. Como naquela idéia de se sentir pequeno diante da natureza [...] Você já notou como um homem se sente virtuoso quando fala sobre isso? [...] esse não é o espírito que controlou o fogo, o vapor, a eletricidade, que atravessou oceanos em barcos à vela, que constriu aviões e represas... e arranha-céus. O que é que eles temem? [...] E por quê?
- Quando eu encontrar a resposta para isso - disse ela - farei as pazes com o mundo.

Keating não bebeu muito. Pagou tudo. Pagou mais do que o necessário. Deu gorjetas exorbitantes. Ele não parava de perguntar:
- Nós somos amigos... não somos amigos? Não somos?

Ele nunca havia tocado no corpo dela, mas o havia possuído mais profundamente do que se houvesse tocado nele quando fizera a estátua dela, e isso havia criado um sentimento especial entre eles, que não conseguiam perder.

Eu penso, com frequência, que ele é o único de nos que atingiu a imortalidade. Não quero dizer em termos de fama, nem quero dizer que ele não vai morrer algum dia. Mas ele está vivendo como se fosse imortal. Acho que ele é o que a concepção realmente significa. Você sabe como as pessoas anseiam serem eternas. Mas elas morrem a cada dia que passa. Quando você se encontra com elas, elas não são como na última vez em que você as viu. A qualquer hora, elas matam uma parte de si mesmas. Elas mudam, negam, contradizem - e chamam a isso de crescimento. No final, não resta nada, nada que não tenha sido revertido ou traído, como se nunca tivesse havido nenhuma entidade, apenas uma sucessão de adjetivos aparecendo e desaparecendo em uma massa não formada. Como elas podem esperar uma permanência que nunca possuíram, nem por um único momento?

Ele estava soznho e não havia necessidade de fingir nada. Estava deitado na cama, de costas, com os braços abertos, impotente.

Ela é a pessoa mais desenfreada que eu conheço.

Ele estava olhando para o outro lado da rua. Ele não havia mudado. Havia nele um antigo senso de leveza, de facilidade de movimento, de ação, de pensamento. Ela disse, sua sentença sem começo nem fim:
- ... fazendo prédios de cinco andares pelo o resto da vida...
- Se necessário. Mas eu não acho que vai ser assim.
- O que você está esperando?
- Não estou esperando.

Não tenho nenhuma resposta para lhes dar, Howard. Vou deixar que você os enfrente. Você lhes responderá. A todos eles, os jornais Wynard, o que torna possível a existência dos jornais Wynard e o que está por trás de tudo isso.

- Até... quando, Roark?
A mão dele descreveu um arco sobre as ruas.
- Até você parar de odiar tudo isso, parar de ter medo de tudo isso, aprender a não reparar em nada disso.

[...] sua calma contendo a mesma qualidade peculiar composta de duas coisas: o controle maduro de um homem tão seguro de sua capacidade de se controlar [...] e uma simplicidade infantil em aceitar os fatos

[...] intocado por esses convidados que haviam vindo até aqui impulsionados pelo tédio, por um ódio invejoso, uma submissão relutante a um convite que continha seu nome perigoso, uma curiosidade faminta por escândalo.

Sentiu a reação em seu corpo, a reação do apetite, da aceitação, do prazer. Pensou que não era uma questão de desejo, nem mesmo uma questão de ato sexual, mas apenas que [...] este homem tinha a vontade da vida [...] e ela estava reagindo não ao ato nem ao homem, mas àquela força dentro dele.

Não é nada que tenha entrado nele, Alvah. É algo dentro dele que se libertou

Aquela história da vida da dona de casa do Bronx que assassinou a jovem amante de seu marido é bastante sórdida, Gail. Mas acho que existe algo mais sujo: a curiosidade das pessoas que se interessam por esse tipo de curiosidade.

Havia silêncio na platéia, confuso e humilde. Quando alguém ria, o resto ria junto, com alívio, felizes por descobrir que estavam se divertindo

[...] sempre houvera um Deus e um Demônio, só que os homens haviam se equivocado muito sobre as formas de seu Demônio: ele não era único e grande, eram muitos e indecentes e pequenos.

- Quantos anos você tem, Gail? Quanto trabalhou? Mais da metade da sua vida já passou, mas você viu a sua recompensa, esta noite [...] se você se empenhar e fizer um grande esforço, algum dia se elevará até conseguir atingir o nível daquela peça! [...]
- Se você quer ouvir, a peça me enojou. Como você sabia que aconteceria.

- Porque foi isso que eu senti esta noite. Traição.
- Em relação a quem?
- Não sei. Se fosse religioso, eu diria ‘a Deus’. Mas não sou religioso.

Sabe pelo que você é apaixonada, na verdade? Pela integridade [...] O limpo, consistente, razoável, fiel a si mesmo [...] como uma obra de arte. Mas você quer que ela seja de carne e osso.

Parte 4

Havia acabado de obter seu diploma universitário [...] e queria decidir se a vida valia a pena ser vivida. Não sabia que era essa a pergunta que tinha em mente. Não pensava em morrer. Pensava apenas que desejava encontrar alegria, razão e significado na vida, e que nenhum deles lhe havia sido oferecido, em nenhum lugar.

Não gostara do que lhe haviam ensinado na faculdade. Ensinaram-lhe muito a respeito de responsabilidade social, a respeito de uma vida de serviço e auto-sacrifício. Todos disseram que isso era lindo e inspirador. Mas ele não havia se sentido inspirado. Não havia sentido absolutamente nada.

Ele não conseguia dar nome ao que queria da vida. Sentia-o aqui, nesta solidão selvagem [...] Sentia raiva por encontrar a exaltação somente em uma região desabitada, e porque tinha de perder esse grande senso de esperança quando voltasse aos homens e ao trabalho dos homens. Pensou que isso não estava certo; que o trabalho do Homem deveria ser um passo mais elevado, um aperfeiçoamento da natureza, não uma degradação. Ele não queria desprezar os homens; queria amá-los e admirá-los. Mas temia a visão da primeira casa, salão de sinuca e pôster de filme que encontraria no seu caminho.

Sempre quisera compor músicas, e não podia atribuir nenhuma outra identidade àquilo que buscava. Se quiser saber o que é, dizia a si mesmo, escute as primeiras frases do Concerto nº 1 de Tchaikovsky [...] As pessoas não encontraram palavras para descrevê-lo, nem o ato nem o pensamento, mas encontraram a música. Deixe-me ver isso em um único ato do Homem na Terra. Deixe-me vê-lo tornar-se realidade. Deixe-me ver a resposta à promessa daquela música. Não servos nem aos que são servidos, não altares e sacrifícios [...] Não me ajude nem me sirva [...] Não trabalhem pela minha felicidade, meus irmãos - mostrem-me a sua, mostrem que é possível, mostrem a sua conquista, e o conhecimento me dará coragem para buscar a minha.

[...] Seus pés tocaram no chão, brecando seu movimento. Ele parou e abriu os olhos. Ficou imóvel [...] Havia muitas casas, eram pequenas, isoladas e diferentes umas das outras. Contudo eram como variações de um único tema, como uma sinfonia tocada por uma imaginação inesgotável, e ainda era possível ouvir o riso da força que fora liberada sobre elas, como se essa força houvesse corrido, desenfreada, desafiando a si mesma a ser exaurida, mas nunca se esgotando. Música, pensou ele, a promessa da música que ele invocara, seu sentido tornando-se realidade - lá estava ela, diante de seus olhos [...]
- Aquilo não é real, é? - perguntou o rapaz, apontando para baixo.
- Ora, é sim, agora - respondeu o homem.
- [...] Quem o construiu?
- Fui eu.
- Qual é o seu nome?
- Howard Roark.
- Obrigado. - disse o rapaz.
[...] Roark fitou-o afastando-se. Nunca vira esse rapaz antes e nunca mais o veria outra vez. Ele não sabia que dera a alguém a coragem para enfrentar uma vida inteira.

São preciso dois para criar uma grande carreira: o grande homem, e o homem - quase mais raro ainda - que é grande o suficiente para enxergar a grandeza e dizê-lo.

A maioria das pessoas constrói da mesma forma como vive: como uma questão de rotina e um acaso sem razão. Mas alguns poucos entendem que construir é um grande símbolo. Nós vivemos em nossas mentes, e existência é a tentativa de trazer essa vida para a realidade física, para declará-la em gesto e forma. Para o homem que entende isso, a casa que ele possui é uma declaração de sua vida. Se ele não constrói, mesmo tendo os meios, é porque sua vida não foi o que ele queria.

[...] quero que você saiba que eu respeito muito pouco na vida, mas respeito as obras na minha galeria, e os seus prédios, e a capacidade do Homem de produzir trabalhos como esses. Talvez seja a única religião que jamais tive.

Acho que alguns prédios são exibicionistas baratos, só fachada, e alguns são covardes, pedindo desculpas por si mesmo em cada tijolo, e alguns são os eternamente inadequados, malfeitos, mal-intencionados e falsos. Os seus prédios têm um senso acima de tudo: um senso de alegria. Não uma alegria serena, mas um tipo de alegria difícil e exigente. O tipo que faz com que uma pessoa sentir-se como se fosse uma realização experimentá-la. Nós olhamos e pensamos: ‘Se eu posso sentir isso, sou uma pessoa melhor’.

- Você começou do nada, não foi? - perguntou Wynard. - Veio de uma família pobre.
- Sim. Como você sabia?
- Simplesmente porque parece uma presunção o pensamento de lhe dar qualquer coisa: um elogio, uma idéia ou uma fortuna.

- [...] Você queria gritar, quando era jovem, ao não ver nada além de incompetência abundante ao seu redor, sabendo quantas coisas poderiam ser bem feitas, e feitas tão bem, mas sem ter o poder para fazê-las? Sem nenhum poder para estourar os crânios vazios ao seu redor? Tendo que receber ordens - e isso já é ruim o suficiente -, mas receber ordens dos seus inferiores, você já sentiu isso?
- Sim.
- Você empurrou a raiva para dentro de si, e guardou-a, e decidiu deixar-se ser despedaçado, se fosse necessário, para alcançar o dia em que dominaria aquelas pessoas, todas as pessoas e tudo ao seu redor?
- Não [...] Eu detesto a incompetência [...] Mas isso não fez com que eu quisesse dominar as pessoas. Nem ensinar-lhes nada. Fez com que quisesse fazer o meu próprio trabalho, do meu jeito

- O que é, Gail?
- Nada. Somente um sentimento de quanta coisa não tem importância, e de como é fácil viver.

Foi simples bom senso. Uma pessoa não pode colaborar em seu próprio trabalho. Eu posso cooperar, se é assim que chamam, com os operários que erguem meus prédios. Mas não posso ajudá-los a colocar os tijolos e eles não podem me ajudar a desenhar a casa.

Havia momentos em que era muito ruim. As noites, geralmente. Uma vez eu quis me matar. Não era raiva, a raiva me fazia trabalhar ainda mais. Não era medo. Era asco, Howard [...] Então, eu olhei para aquele gatinho. E pensei que ele não sabia sobre as coisas que eu detestava, nunca poderia saber. Ele estava limpo, limpo no sentido absoluto, por que não tinha nenhuma capacidade de conceber a feiúra do mundo. Não posso lhe descrever o alívio que era tentar imaginar o estado de consciência dentro daquele cérebro pequeno, tentar compartilhar dela, uma consciência viva, porém limpa e livre.

Wynard não conseguiu entender, durante muito tempo, por que o lugar lhe dava uma impressão de luxo, até que percebeu que não se notava a móbília, apenas uma extensão limpa de espaço e o luxo de uma austeridade que não fora simples de alcançar. Em valor financeiro, era o lar mais modesto em que Wynard entrara como convidado em 25 anos.

- Howard, você já teve poder sobre um único ser humano?
- Não. E eu não o aceitaria, se me fosse oferecido.

Se fosse verdade aquela lenda sobre aparecer diante de um juiz supremo e relatar os próprios atos do passado, eu ofereceria, com todo o meu orgulho, não nenhum ato que eu cometi, mas uma coisa que nunca fiz neste mundo: nunca busquei aprovação alheia. Eu me levantaria e diria: Eu sou Gail Wynard, o homem que cometeu todos os crimes, exceto o principal - o de atribuir futilidade ao maravilhoso fato da existência e buscar justificativa externa.

- Howard, você já esteve apaixonado?
Roark virou-se para olhar diretamente para ele e respondeu serenamente.
- Ainda estou.
- Mas quando anda através de um prédio, o que você sente é maior do que isso.
- Muito maior, Gail.

Eu estava pensando nas pessoas que dizem que a felicidade é impossível na Terra. Veja o quanto todos eles se esforçam para encontrar alguma alegria na vida. Veja como lutam por isso. Por que qualquer criatura viva precisa existir com dor? Em nome de que direito concebível alguém pode exigir que um ser humano exista para qualquer coisa que não seja a sua própria alegria? Cada um deles a quer. Cada parte deles a quer. Mas nunca a encontram. Por que será? Elas choramingam e dizem que não entendem o significado da vida.

Ela se sentia como se o ouvisse dizer: ‘ Por que está chocada? Você acha que estivemos realmente separados?’

[...] perguntou-se se a solenidade peculiar de olhar para o céu vem, não do que contemplamos, mas desse ato de erguer a cabeça.

Mitchell Layton herdara um quarto de bilhão de dólares e passara os 33 anos seguintes tentando pagar por isso.

Sentia algo obscuro e malicioso na maneira com que as pessoas falavam da genialidade de Prescott, como se não estivesse prestando uma homenagem a Prescott, mas cuspindo na genialidade. Pela primeira vez, Keating não podia imitar as pessoas. Estava claro demais, até para ele, que o favoritismo do público deixara de ser um reconhecimento de mérito, e que se tornara quase uma marca de vergonha.

[...] o dinheiro deixara de ser uma grande preocupação que prendesse a sua atenção. Era a inatividade que ele temia, o ponto de interrogação aparecendo indistintamente no futuro, se a rotina de trabalho lhe fosse tirada.

- Você é feliz, Petey? Não é?
Ele olhou para ela e viu que ela não estava rindo dele; os olhos estavam arregalados e assustados. E, como ele não pôde responderr, ela gritou:
- Mas você tem que ser feliz! Petey, você tem! Senão, para que eu vivi?

Se quiser que alguma coisa cresça, você não alimenta as sementes separadamente. Simplesmente espalha um certo fertilizante. A natureza faz o resto.

Bem, aquela velha: dividir e conquistar. Bem, tem suas aplicações. Mas coube ao nosso século descobrir uma fórmula muito mais potente. Unir e governar.

Howard, eu sou um parasita. Fui um parasita minha vida toda. Você desenhou os meus melhores projetos em Stanton [...] Eu me alimentei de você e de todos os homens como você que viveram antes de termos nascido. Os homens que desenharam o Parthenon, as catedrais góticas, os primeiros arranha-céus. Se eles não tivessem existido, eu não saberia empilhar pedra sobre pedra [...] Eu tomei aquilo que não era meu e não dei nada em troca. Eu não tinha nada para dar.

Você consegue esquecer o que lhe ensinaram a repetir, e pensar, pensar para valer, com o seu próprio cérebro?

Vender a alma é a coisa mais fácil do mundo. É o que todas as pessoas fazem, a cada hora da vida delas. Se lhe pedisse para não abrir mão da sua alma, você entenderia por que isso é muito mais difícil?

Peter, antes de poder fazer coisas para as pessoas, você precisa ser o tipo de homem que sabe como fazer as coisas. Mas para fazer as coisas, você precisa amar o ato de fazê-las, não as consequências secundárias. O trabalho, não as pessoas. Sua própria ação, não qualquer recipiente da sua caridade. Ficarei contente se as pessoas que precisam de uma forma melhor de viver a encontrarem em uma casa que desenhei. Mas não é esse o motivo do meu trabalho. Nem a minha razão. Nem a minha recompensa.

Peter, eu amo esse trabalho. Quero vê-lo erguido, funcionando, construído. Quero torná-lo real, vivo. Mas toda entidade viva é integrada. Sabe o que isso significa? Inteira, pura, completa, intacta [...] A única coisa que importa, meu objetivo, minha recompensa, meu início e meu fim, é o próprio trabalho. Meu trabalho feito do meu jeito.

Não faço comparações. Nunca penso em mim mesmo em relação a qualquer outra pessoa.

Egoístas não são bondosos. E você é. Você é o homem mais egoísta e o mais bondoso que conheço. Isso não faz sentido.

Eu não sabia que uma casa podia ser desenhada para uma mulher, como um vestido. Você não pode se ver aqui como eu posso, não pode ver como essa casa é completamente sua. Cada ângulo, cada parte de cada cômodo é um cenário para você.

Foi a pior coisa que fiz na vida, mas não por que a magoei. Eu a magoei de verdade, Katie, e talvez mais do que você mesma saiba. Mas essa não é a minha pior culpa... Katie, eu queria me casar com você. Foi a única coisa que eu realmente quis. E esse é o pecado que não pode ser perdoado: que eu não tenha feito o que eu queria. Parece tão sujo, fora de propósito e monstruoso [...] porque não há nenhum sentido nisso, nenhuma dignidade, não há nada além de dor, e dor desperdiçada... Katie, por que sempre nos ensinam que é fácil e maligno fazermos o que queremos e que precisamos de disciplina para nos conter? Fazer o que queremos é a coisa mais difícil do mundo, e requer o maior tipo de coragem.

Era isso que eu não conseguia entender a respeito das pessoas, durante muito tempo. Elas não têm um eu. Vivem dentro dos outros. Vivem de segunda mão, como parasitas.

Olhe para eles. O homem que engana e mente, mas preserva uma fachada respeitável. Ele sabe que é desonesto, mas os outros acham que é honesto e ele deriva seu respeito próprio dos outros, adquirindo-o de segunda mão. O homem que aceita uma conquista que não foi sua. Ele sabe que é medíocre, mas é magnífico aos olhos dos outros [...] O homem cujo único objetivo é ganhar dinheiro [...] o dinheiro é somente um meio para atingirmos algum fim. Se um homem o deseja para algum propósito [...] - para investir em sua indústria, para criar, estudar, viajar, desfrutar do luxo - ele é completamente moral. Porém [...] o que eles querem é ostentação: exibir, chocar, entreter, impressionar os outros.

Olhe para nossos ‘empreendimentos culturais’. Um palestrante que recita algum material reciclado que pegou emprestado, que não consiste de absolutamente nada e não significa absolutamente nada para ele; e as pessoas que escutam não ligam a mínima, mas ficam ali sentadas para poder dizer a seus amigos que assistiram à palestra de um nome famoso. Todos são parasitas vivendo de segunda mão [...] À custa de seu respeito próprio. No âmbito da maior importância - o âmbito dos valores, do discernimento, do espírito, do pensamento - eles colocam os outros acima de si mesmos.

É tão fácil recorrer aos outros. É difícil ser auto-suficiente. Você pode fingir virtude para uma platéia. Não pode fingí-la para si mesmo. O ego de uma pessoa é o seu juiz mais severo. Eles fogem dele. Passam a vida fugindo [...] É simples buscar subtitutos para a competência - subtitutos tão fáceis: amor, charme, bondade, caridade. Porém, não existe substituto para a competência.

É a característica mortal dos parasitas que vivem de segunda mão. Eles não têm nenhum interesse por fatos, idéias, trabalho. Só se interessam pelas pessoas. Eles não perguntam: ‘Isto é verdade?’ Perguntam: ‘Isto é o que os outros acham que é verdade?’. O mais importante para eles não é julgar, mas repetir; não é fazer, mas dar a impressão de fazer. Não a criação, mas a exibição. Não a habilidade, mas a amizade. Não o mérito, mas a influência.

O que aconteceria com o mundo sem aqueles que fazem, pensam, trabalham, produzem? [...] Não se pode pensar com o cérebro dos outros nem trabalhar com as mãos dos outros. Quando pára de usar a sua faculdade de pensamento independente, você pára de usar a sua consciência. Parar de usar a sua consciência é parar de viver.

[...] Homens sem ego. Opinião sem um processo racional. Movimento sem freio nem motor. Poder sem responsabilidade. O parasita age, mas a fonte de suas ações está espalhada em todas as outras pessoas vivas. Está em todo lugar e em lugar nenhum, e você não pode ter uma conversa racional com ele. Você é julgado por um tribunal vazio. Uma massa cega [...] eles aceitam qualquer coisa, exceto um homem que assuma uma posição independente.

Olhe para todos ao nosso redor. Você se perguntou por que eles sofrem, por que buscam a felicidade e nunca a encontram. Se qualquer homem parasse e se perguntasse se jamais teve um desejo verdadeiramente pessoal, ele encontraria a resposta. Veria que todos os seus desejos, esforços, seus sonhos, suas ambições por outras pessoas [...] Ele não consegue encontrar nenhum alegria na luta e nenhuma alegria quando é bem-sucedido. Ele não pode dizer [...] : ‘Foi isso que eu quis porque fui eu quem quis, não porque fez com que meus vizinhos olhassem boquiabertos para mim’. Então, ele se pergunta por que é infeliz [...] Nossos melhores momentos são pessoais, automotivados [...] Nem ao menos temos uma palavra para a qualidade de que estou falando, para a auto-suficiência do espírito humano. É difícil chamá-la de egoísmo ou egotismo, as palavras foram pervertidas [...] eu acho que o único mal fundamental é colocar o seu interesse primário dentro de outras pessoas.

- Eu sempre exigi uma certa qualidade nas pessoas de quem gostava [...] Agora sei o que é: um ego auto-suficiente.
- Estou feliz por você admitir que tem amigos.
- Eu até admito que os amo. Mas não poderia amá-los se eles fosse a minha razão principal de viver. Você percebe que o Peter Keating já não tem mais um único amigo? Entende por quê? Se uma pessoa não respeita a si mesma, não pode ter nem amor nem respeito pelos outros [...] Se este barco estivesse afundando, eu daria a minha vida para te salvar. Não por que seja qualquer tipo de dever. Somente por que eu gosto de você, por meus próprios motivos e padrões. Eu poderia morrer por você. Mas não poderia viver, e não viveria, por você.

[...] Eu não mencionei o pior tipo de parasita de todos: o homem que busca o poder.

Fui eu que te destruí, Peter. Desde o começo. Por ajudá-lo. Há questões sobre as quais uma pessoa não deve pedir ajuda e nem dá-la. Eu não deveria ter feito os seus projetos em Stanton.

- Pelos meus cálculos atuais, minha fortuna pessoal chega a quarenta milhões de dólares. Deve ser o suficiente para contratar qualquer advogado que você queria ou a profissão inteira.
- Eu não vou usar um advogado.
- Howard!

Nada disso era muito claro, mas ninguém se importava muito com o motivo. A questão era simples: um homem contra muitos. Ele não tinha nenhum direito a um motivo [...] Contra isso, um homem que não desejava servir nem governar.

A debutante fazendo as unhas dos pés, a dona de casa comprando cenouras de um vendedor ambulante, o contador que desejara ser pianista, mas que tinha a desculpa de ter que sustentar a irmã, o homem de negócios que odiava seu negócio, o trabalhador que odiava seu trabalho, o intelectual que odiava todo mundo - estavam todos unidos como irmãos no luxo de uma raiva comum que curava o tédio e fazia cada um deles ficar fora de si, e cada um deles sabia muito bem a bênção que era ficar fora de si.

Vamos parar e pensar por um momento. O sacrifício é uma virtude? Um homem pode sacrificar sua integridade? Sua honra? Sua liberdade? Seu ideal? Suas convicções? A honestidade de seus sentimentos? A independência de seus pensamentos? Mas esses são os bens supremos de um homem. Qualquer coisa da qual ele abra mão em favor desses bens não é sacrifício, mas uma barganha fácil [...] não deveríamos, então, parar de pregar absurdos perigosos e malignos? Sacrificar o próprio eu? Mas é precisamente o eu que não pode e não deve ser sacrificado. É o eu não sacrificado que devemos respeitar no Homem, acima de tudo.

A ele foi concedido o impossível, o sonho de todos os homens: a oportunidade e intensidade da juventude, para serem usadas com a sabedoria da experiência. Um recomeço e um clímax, juntos. Eu esperei e vivi, pensou ele, por isto.

- Sejam quais forem os fatos - explicou Wynard à sua equipe - este não será um julgamento baseado em fatos. É um julgamento baseado na opinião pública.

A Manchete publicou uma série de julgamentos famosos, em que homens inocentes haviam sido condenados pelo preconceito que a maioria possuía na época. A Manchete publicou artigos sobre homens torturados pela sociedade: Sócrates, Galileu, Pasteur, os pensadores, os cientistas, uma sequência longa e heróica - cada um deles um homem que pensava e agia sozinho, o homem que desafiava os homens.

Há ocasiões, Alvah, em que as questões em jogo não são, absolutamente, os fatos aparentes. E a reação do público parece toda fora de proporção, mas não é.

É só uma questão de descobrir a alavanca. Se aprender a dominar a alma de um único homem, você consegue pegar o resto da humanidade. É a alma, Peter, a alma. Não chicotes, nem espadas, nem fogo, nem armas. Foi por isso que os Césares, os Átilas, os Napoleões foram tolos e não duraram. Nós duraremos. A alma, Peter, é aquilo que não pode ser dominado. Tem que ser destruída [...]

Há muitas maneiras. Aqui vai uma: Faça o homem se sentir insignificante. Faço-o se sentir culpado. Mate suas aspirações e sua integridade. Isso é difícil, mesmo o pior entre vocês, procura, tateando no escuro, um ideal, do seu próprio jeito distorcido. Mate a integridade através da corrupção interna. Use-a contra a si mesma. Direcione-a para um objetivo que destrua toda a integridade. Pregue a abnegação. Diga ao homem que ele deve viver para os outros [...] Sua alma abre mão do respeito próprio. Você o tem. Ele obedecerá. Ficará contente de obedecer, porque não pode confiar em si mesmo, sente-se inseguro, sente-se impuro. Essa é uma maneira. Aqui vai outra: Mate o senso de valores do homem. Mate a sua capacidade de reconhecer a grandeza ou de atingí-la. Grandes homens não podem ser dominados. Não queremos nenhum grande homem. Não negue o conceito de grandeza. Destrua-o por dentro. O grande é o raro, o difícil, o excepcional. Estabeleça padrões de realização abertos a todos, aos piores, aos mais inaptos, e você paralisa o ímpeto de esforço em todos os homens, grande ou pequenos. Você paralisa todo o incentivo ao progresso, à excelência, à perfeição. Ria de Roark e defenda Peter Keating como um grande arquiteto [...]

Venere a mediocridade, e os santuários estarão arrasados. E há outra maneira. Mate através do riso. O riso é um instrumento de alegria humana. Aprenda a usá-lo como uma arma destruidora. Transforme-o em um riso de menosprezo. É simples. Diga-lhes para rirem de tudo. Diga-lhes que um senso de humor é uma virtude ilimitada. Não deixe que nada permaneça sagrado na alma de um homem, e a sua própria alma não será sagrada para ele. Mate a veneração e você terá matado o herói no homem. Não se venera com risadinhas. Ele obedecerá e não imporá nenhum limite à sua obediência - vale tudo - nada é sério demais.

Aqui vai outra maneira. Isto é extremamente importante. Não permita que os homens sejam felizes. A felicidade é independente e auto-suficiente. Homens felizes não têm tempo nem utilidade para você. Homens felizes são homens livres. Portanto, mate a alegria deles de viver. Tire deles o que quer que seja precioso ou importante para eles. Nunca deixe que tenham o que querem. Faça com que sintam que o mero fato de um desejo pessoal é maligno. Leve-os a um estado em que dizer ‘Eu quero’ não é mais um direito natural, mas uma confissão vergonhosa.

Os homens infelizes virão até você. Precisarão de você. Virão buscando consolo, apoio, fuga, A natureza não permite nenhum vácuo. Esvazie a alma do homem e o espaço será seu para preencher [...] Amarramos felicidade à culpa. E pegamos a humanidade pelo pescoço [...]

Se usarmos a razão, fica claro que onde há sacrifício, há alguém coletando as oferendas sacrificiais. Onde há serviço, há alguém sendo servido. O homem que lhe fala de sacrifício, fala de escravos e donos. E tem a intenção de ser o dono. Mas se ouvir um homem lhe dizer que deve ser feliz, que esse é o seu direito natural, que seu primeiro dever é para consigo mesmo, este é o homem que não quer a sua alma. É o homem que não tem nada a ganhar de você [...]

Mas aqui você pode ter notado uma coisa. Eu disse: ‘Se usarmos a razão’. Você percebe? Os homens têm uma arma contra você. A razão. Portanto, você precisa certificar-se completamente de que a tirará deles. Corte os alicerces que a sustentam. Mas tenha cuidado. Não a negue completamente [...] Não diga que a razão é maligna - embora alguns tenham até chegado a fazer isso, e com um sucesso surpreendente. Apenas diga que a razão é limitada. Que há algo acima dela. O quê? Não precisa ser claro a respeito disso, tampouco. O campo é inesgostável. ‘Instinto’, ‘Sentimento’, ‘Revelação’, ‘Intuição Divina’, ‘Materialismo Dialético’. Se for pego em algum ponto crucial e alguém lhe disser que a sua doutrina não faz sentido, você estará preparado. Você responde que há algo acima do fazer sentido. Que, nessa questão, ele não deve tentar pensar, deve sentir. Deve acreditar. Faça com que parem de usar a razão, e você pode jogar como se tivesse todos os coringas: qualquer coisa vale, de qualquer maneira que você desejar, quando desejar. Você os tem na mão. Dá para dominar um homem que pensa? Não queremos nenhum homem que pensa [...]

Está com medo de ver onde vai dar. Eu não estou. Eu lhe digo. No mundo do futuro. No mundo que eu quero. Um mundo de obediência e união. Um mundo em que o pensamento de cada homem não será o seu próprio, mas uma tentativa de adivinhar o pensamento do próximo vizinho que, por sua vez, não terá nenhum pensamento próprio, mas uma tentativa de adivinhar o pensamento do próximo vizinho, que não terá nenhum pensamento... e assim por diante [...] um mundo em que nenhum homem terá um desejo próprio [...] Um mundo em que o Homem não trabalhará por um incentivo tão inocente como o dinheiro, mas por aquele monstro sem cabeça: o prestígio. A aprovação de seus semelhantes, a boa opinião deles [...] Um polvo, só tentáculos e nenhum cérebro. Raciocício individual, Peter? Nada de raciocínio individual, apenas pesquisas de opinião pública. Uma média tirada de zeros, uma vez que nenhuma individualidade será permitida. Um mundo com seu motor arrancado e um único coração, bombeado a mão. A minha mão [...]

Distribuiremos medalhas pelo serviço. Vocês vão cair uns em cima dos outros, brigando para ver quem se submete mais e melhor. Não haverá nenhuma outra distinção a buscar. Nenhuma outra foram de realização pessoal [...]

Não terei nenhum outro propósito, a não ser mantê-los contentes. Mentir, adulá-los, elogiá-los, inflar sua vaidade. Fazer discursos sobre o povo e o bem-comum [...] Eu quero o poder. Quero o meu mundo do futuro.

Ele queria apoiar a cabeça sobre a escrivainha, ficar quieto e descansar, só que a forma de descanso de que precisava não existia, era maior do que o sono, maior do que a morte, o descanso de nunca haver vivido. O desejo era como um insulto secreto a ele mesmo, porque ele sabia que a pressão lancinante em seu crânio significava o opsto, uma ânsia de agir, tão forte que ele se sentia paralisado [...] Tinha que escrever o editorial que explicaria e contra-atacaria. Tinha que ser rápido. Sentia que não tinha direito a nenhum minuto que passasse sem a resposta estar escrita.

Talvez o segredo básico que os cientistas nunca descobriram, a primeira fonte da vida, é o que acontece quando um pensamento toma forma em palavras.

Homens práticos lidam com contas bancárias, imóveis, contratos de publicidade e investimentos seguros como o ouro. Eles deixam para intelectuais pouco práticos, como eu, a diversão de fazer uma análise química do ouro, para aprender sobre a natureza e a fonte do ouro [...] nos deixam trivialidades como o teatro, o cinema, o rádio, as escolas, as críticas de livros e a crítica de arquitetura. Apenas um calmante para nos manter quietos, sem nos importarmos em perder nosso tempo brincando com as questões irrelevantes da vida, enquanto vocês ganham dinheiro. Dinheiro é poder. É mesmo, Sr. Wynard? Então era poder que você queria, Sr. Wynard? Poder sobre os homens? Seu pobre amador!

Qualquer coisa pode ser traída, qualquer um pode ser perdoado. Mas não aqueles que não têm a coragem de sua própria grandeza. Alvah Scarret pode ser perdoado. Ele não tinha nada para trair [...] Mas eu, não. Eu não nasci para ser um homem que vive de segunda mão.

- [...] Wynard se rendeu - disse uma mulher taciturna. Ela sabia pouco sobre Wynard e nada sobre o assunto, mas gostava de ouvir falar em pessoas se rendendo.

As pessoas haviam ido ao tribunal para testemunhar um caso sensacional, para ver celebridades, para obter um tema para conversas, para serem vistas, para matar o tempo. Elas iriam voltar para empregos que não queriam, famílias que não amavam, amigos que não haviam escolhido, para salas de visitas, roupas de gala, copos de coquetéis e filmes, para dores não admitidas, esperanças assassinadas, desejos não alcançados, largados silenciosamente sobre um caminho onde nenhum passo havia sido dado, para dias de esforço para não pensar, não dizer, para esquecer, ceder e desistir.

O medo em que pensavam não era do tipo comum, não uma resposta a um perigo tangível, mas o medo crônico e inconfessável em que todos eles viviam. Eles lembravam a miséria de momentos em que, em solidão, pensaram nas palavras brilhantes que poderiam ter dito, mas não a encontraram, e odiaram aqueles que lhes roubaram a coragem. A miséria de saber quão forte e hábil se é na sua própria mente, a imagem radiante que nunca se tornará realidade. Sonhos? Ilusão? Ou uma realidade assassinada, não nascida, morta por aquela emoção corrosiva sem nome - medo - necessidade - dependência - ódio?

"Há milhões de anos, um homem descobriu como fazer o fogo. Provavelmente se queimou na fogueira, que ensinou seus irmãos a acender. Mas deixou-lhes um presente que eles não haviam concebido e acabou com a escuridão da Terra.

Ao longo dos séculos, houve homens que abriram novos caminhos, armados unicamente com sua própria visão. Grandes criadores, pensadores, artistas, cientistas, inventores. Estiveram sozinhos contra os homens de seu tempo.

Cada pensamento novo foi rechaçado... cada invenção nova, denunciada... mas os homens de visão de futuro seguiram em frente. Lutaram, sofreram e pagaram, mas venceram.

Nenhum criador foi impulsionado pelo desejo de satisfazer seus irmãos. Seus irmãos odiaram o presente que ele oferecia. Sua verdade era seu único motivo. Seu trabalho era seu único objetivo. Seu trabalho, não aqueles que o usaram. Sua criação, não os benefícios que outros derivaram dela. A criação que dava forma à sua verdade.

Ele sustentava a verdade sobre todas as coisas e contra todos os homens. Ele foi em frente, mesmo que outros não estiveram de acordo com ele... com sua integridade como sua única bandeira. Não serviu a nada e a ninguém. Viveu para ele mesmo... e somente vivendo para si mesmo foi capaz de conseguir as coisas que são a glória da humanidade. Essa é a natureza da realização.

O homem não pode sobreviver, exceto através de sua mente. Ele vem à Terra desarmado. Seu cérebro é sua única arma, mas a mente é um atributo do indivíduo. Não existe cérebro coletivo. O homem que pensa, deve pensar e agir por si mesmo. A mente racional não pode trabalhar sob nenhuma forma de coação. Não pode ser subordinada às necessidades, opiniões, ou desejos de outros. Não é um objeto de sacrifício.

O criador se mantém firme em seu próprio julgamento. O parasita segue as opiniões dos outros. O criador pensa. O parasita copia. O criador produz, o parasita saqueia. O interesse do criador é a conquista da natureza. O interesse do parasita é a conquista dos outros homens. O criador requer a independência. Ele não serve, nem governa. Ele trata com homens pela troca livre e pela escolha voluntária. O parasita procura o poder. O parasita quer prender todos os homens juntos, numa ação comum... e numa escravidão comum.

Ele clama que o homem é somente uma ferramenta para o uso de outros... que deve pensar como eles pensam, e agir como eles agem... vivendo na abnegação, na triste servidão a qualquer um, exceto a si mesmo.

Olhem a história. Tudo o que temos, cada grande realização... veio do trabalho independente de alguma mente independente. Cada horror e destruição... veio de tentativas de converter homens em rebanhos sem cérebros, robôs sem almas. Sem direitos pessoais, sem ambição pessoal, sem vontade, esperança ou dignidade. É um conflito antigo. Tem um outro nome. O indivídual contra o coletivo.

Nosso país, o país mais nobre na história dos homens... foi baseado no princípio do individualismo. O princípio dos direitos alienáveis do homem. Um país onde um homem era livre para buscar sua própria felicidade. Para ganhar e produzir, não render-se e não renunciar. Para prosperar, para não morrer de fome. Para conseguir, para não perecer.

Para ter como sua maior possessão, o sentido de valor pessoal... e como sua maior virtude, o seu auto-respeito.

Eu sou um arquiteto. Eu sei o que se constrói a partir das bases. Estamos nos aproximando de um mundo no qual eu não posso me permitir viver. Minhas idéias são minha propriedade. Foram retiradas de mim pela força, pela ruptura de contrato. Nenhum recurso me foi deixado.

Acreditaram que meu trabalho pertencia a outros, para fazer o que quiserem, que tinham direito sobre mim, sem o meu consentimento... que era meu dever servir-lhes, sem alternativa ou recompensa.

Agora vocês sabem porque eu dinamitei Cortlandt. Eu projetei Cortlandt... eu o fiz possível... eu o destrui. Eu concordei projetá-lo, com a finalidade de vê-lo construído como eu desejei. Esse foi o preço que eu coloquei em meu trabalho. Eu não fui pago. Meu edifício foi desfigurado pelos que se beneficiaram com o meu trabalho e não me deram nada em troca.

Eu vim aqui dizer que eu não reconheço... o direito de ninguém a um minuto de minha vida. Nem a qualquer parte de minha energia, nem a alguma de minhas realizações. Não importa quem faça a reivindicação.

Tem que ser dito. O mundo está perecendo em uma orgia de auto-sacrifício.

Eu vim aqui para ser ouvido... em nome de cada homem independente que há ainda no mundo. Eu quis estabelecer meus termos. Eu não quero trabalhar ou viver como alguns outros.

Meus termos são o direito do homem de existir por suas próprias razões."

- A humanidade jamais será destruída, sr. Wynard. Tampouco deve pensar em si mesma como destruída. Não enquanto ela realizar algo como isso.
- Como o que?
- Como o Edifício Wynard.
- Isso cabe a você. Coisas mortas - como a Manchete - são apenas o fertilizante financeiro que o tornará possível. É a função apropriada delas [...] Construa-o como um monumento àquele espírito que é seu... e que poderia ter sido meu.



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2 comentários:

Canteiro Pessoal disse...

Nicholas. Como um livro resgata-nos, do silêncio nos joga na parede para que possamos renascer; transporta-nos para as famosas respostas tão almejadas, em que o frio não nos acorda mais, e já não temos a sensação de estarmos deitados ao lado de um morto. Bem-aventuradas as boas novas, pois são vindas no momento certo, e com gosto de caráter maduro bebemos em gosto.

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Cada recomeço
é, afinal, uma sequela,
e o livro dos acontecimentos
está sempre meio aberto.

[Szymbor]

Abraços

Priscila Cáliga

Lilian disse...

Olá!
Cheguei ao seu blog pesquisando a respeito do Amyr Klink e me deparei com esse post sobre a Ayn Rand. Por coincidência, estou terminando de ler Atlas Shrugged agora, um ano depois de você, jornada fantástica. Também adorei "A Nascente" e, no mês passado, cheguei a escrever um pouco a respeito. Concordo: a leitura deveria ser incluída no currículo escolar. Depois de embarcar numa obra dela, nunca mais somos os mesmos.

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