30.12.10

Trechos de "Canção de Mim Mesmo", Walt Whitman (Song of Myself)

É a poesia favorita. Ótima para começar esse novo ano.

Transcrevi os melhores trechos porque é enorme, a versão original tem 52 estrofes. Foi publicada no livro Folhas de Relva (Leaves of Grass).

Mesmo assim ficou longa, eu sei. Mas vale a pena, fala sobre diversos temas: vida, morte, liberdade, amor, Deus, natureza, Felicidade... sobre todas as pessoas e sobre cada uma delas.

É uma celebração da vida e das pessoas, e é o espírito que quero preservar e ver em 2011.

FELIZ Ano Novo pra você! :)


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A atmosfera não é um perfume, não tem o gosto da essência, não tem odor,
Existe para a minha boca, eternamente; estou apaixonado por ela,
Irei à margem junto ao bosque e ficarei sem disfarces e nu,
Estou louco que ela entre em contato comigo.
A fumaça da minha própria respiração,

[...]

Minha expiração e inspiração, meu coração batendo, sangue e ar passando por meus pulmões,
Aroma de folhas verdes e folhas secas e da praia e das negras rochas marinhas e de feno no celeiro,
O som das palavras expelidas de minha voz solta nos rodopios do vento,
Alguns beijos leves, alguns abraços, um buscar de braços,
O jogo de brilho e sombra nas árvores quando os galhos flexíveis se agitam,
O deleite sozinho ou na correria das ruas, ou por campos e montes,
A sensação de saúde, o gorjeio ao meio-dia, a canção de mim erguendo-me da cama e encontrando o sol.

Achaste que mil acres são demais? Achaste a terra grande demais?
Praticaste tanto para aprender a ler?
Sentiste orgulho por entenderes o sentido dos poemas?

Fica este dia e esta noite comigo e possuirás a origem de todos os poemas,

Possuirás o bem da terra e do sol, (há milhões de sóis por encontrar,)

Não mais possuirás coisa alguma de segunda ou terceira mão, nem olharás pelos olhos dos mortos, nem te nutrirás dos fantasmas que há nos livros,
Também não olharás pelos meus olhos, nem receberás coisas de mim,
Ouvirás todos os lados e saberás filtrar tudo por ti mesmo.


[...]

Nunca houve tanta iniciativa como agora,
Nem tanta juventude ou experiência como agora,
E nunca haverá tanta perfeição quanto agora,
Nem tanto céu ou inferno como agora.


Ímpeto e ímpeto e ímpeto,
Sempre o fecundante ímpeto do mundo.

[...]

Robustos como um cavalo, afetuosos, altivos, elétricos,
Eu e este mistério aqui estamos, de pé.

Clara e suave é minha alma e claro e suave é tudo que não é minha alma.

[...] enquanto discutem mantenho-me em silêncio e vou me banhar e admirar a mim mesmo.


Bem-vindo seja todo órgão e atributo meu, e de qualquer homem cordial e limpo,
Nem uma polegada nem uma partícula de uma polegada é vil, e nenhum será menos familiar que os demais.

Estou satisfeito – vejo, danço, rio, canto;
Quando a companheira amorosa dorme abraçada a mim a noite inteira, e vai embora ao raiar do dia com passos silenciosos,
Deixando-me cestas cobertas com toalhas brancas enchendo a casa com sua exuberância

[...]

Traiçoeiros e curiosos estão à minha volta,
Pessoas que encontro, o efeito sobre mim de minha infância ou o bairro e a cidade em que vivo, ou a nação,
As últimas datas, descobertas, invenções, sociedades, autores velhos e novos,
Meu jantar, traje, parceiros, olhares, elogios, dívidas,
A indiferença real ou fantasiada de algum homem ou mulher que amo,
A doença de um parente ou de mim mesmo, ou a falha, ou perda ou falta de dinheiro, ou depressões ou exaltações,
Batalhas, os horrores da guerra fratricida, a febre de notícias duvidosas, os eventos incertos,
Estas coisas vêm a mim dias e noites e se vão de mim de novo,
Mas elas não são o meu Eu verdadeiro.

Entre o puxar e arrastar fica o que sou,
Fica divertido, complacente, compassivo, ocioso, unitário,
Abaixa os olhos, está ereto, ou dobra um braço num certo repouso impalpável,
Olhando de lado, curioso, o que virá a seguir,
Dentro e fora do jogo, e o assistindo, e intrigado sobre ele.


[...]

Creio em ti minha alma, o outro que sou não deve se rebaixar a ti,
E não deves ser rebaixada ao outro.
Vagueia comigo na relva, solta a trava da garganta,
Nem palavras, nem música ou rima quero, nem hábito ou palestra, nem mesmo os melhores,
Somente o sossego me agrada, o rumor de tua voz valvulada.

Lembro-me como uma vez deitamos certa manhã transparente de verão,
Como assentaste tua cabeça transversalmente em meus quadris e gentilmente te viraste para mim,
E abriste a camisa em meu peito e lançaste tua língua em meu coração despido,
E tateaste até sentir minha barba e até pegar meus pés.

De repente te ergueste e espalhaste em minha volta a paz e o conhecimento que superam todos os argumentos da terra,
E sei que a mão de Deus é a promessa da minha,
E sei que o espírito de Deus é irmão do meu,
E todos os homens já nascidos são também meus irmãos, e as mulheres minhas irmãs e amantes,
E que uma sobrequilha da criação é o amor,
E ilimitadas são as folhas rijas ou caídas pelos campos,
E as formigas marrons nos pequenos poços sobre elas

[...]

Um menino disse 'O que é a relva?' trazendo-a para mim com as mãos cheias;
Como eu podia responder ao menino? Não sei o que ela é assim como ele.


Suponho que seja a bandeira do meu ânimo, tecida em um tecido verde esperançoso

[...] que brota similarmente em áreas largas e estreitas,
Crescendo entre gente negra e branca,
Canadenses, tuckahoes, congressistas, presos - dou a eles o mesmo, e recebo deles o mesmo.

[...]

O que achas que foi feito dos jovens e velhos?
E o que achas que foi feito das mulheres e crianças?

Estão vivos e bem em algum lugar,

O brotinho é a prova de que de fato não há morte,

[...]

Tudo avança e se expande, nada entra em colapso,
E morrer é algo diferente do que qualquer um supôs, e mais promissor.

Alguém supôs que é sorte ter nascido?
Depressa informo a ele ou ela que morrer é a mesma coisa, e disso tenho ciência.

[...] não estou contido entre meu chapéu e botas,
E examino muitos objetos múltiplos, não há dois que sejam idênticos e todos são bons,

[...]

Para mim os que foram meninos e que amam as mulheres,
Para mim o homem que é orgulhoso e que sente a dor de ser desprezado,
Para mim a jovem amada e a velha solteirona, para mim mães e as mães de mães,
Para mim lábios que têm sorrido, olhos que têm vertido lágrimas,
Para mim crianças e aqueles que criam as crianças.

Descortinai-vos! Não sois culpados para mim, nem caducos, nem descartados,

[...]

E estou próximo, tenaz, voraz, incansável, e não posso ser afugentado.

[...]

Sozinho pelas selvas e montanhas eu caço,
Vagando maravilhado com minha própria leveza e júbilo,

No fim da tarde escolhendo um local seguro para passar a noite,
Acendendo fogo e grelhando a caça ainda fresca,
Adormecendo num leito de folhas com cão e arma ao meu lado.
O veleiro Ianque está sob suas velas, ele corta as chispas e desliza,
Meus olhos fixam a terra, debruço-me sobre a proa ou grito alegremente do convés.

Os barqueiros e marisqueiros levantaram cedo e me esperaram,
Meti a bainha das calças em minhas botas e fui e me diverti;
Tinhas de estar conosco naquele dia ao redor do caldeirão de sopa.


[...]

O escravo fugitivo veio à minha casa e ficou do lado de fora,
Ouvi seus movimentos quebrando os galhos de lenha,

Pela porta entreaberta da cozinha, eu o vi hesitante e frágil,
E fui até o tronco onde ele se sentava, trouxe-o para dentro e o acalmei,
Trouxe água e enchi uma banheira para seu corpo suado e pés feridos,
Dei-lhe um quarto ao lado do meu, e dei-lhe algumas roupas limpas e grossas,
Lembro perfeitamente bem seus olhos agitados e de seu constrangimento,
E lembro de ter posto curativos nos arranhões de seu pescoço e tornozelos;
Ele ficou comigo uma semana antes que se recuperasse e continuar sua jornada ao norte,
Eu o fiz sentar-se ao meu lado à mesa, meu mosquete encostado em um canto.


[...]

Vinte e oito rapazes se banham perto da praia,
Vinte e oito rapazes e todos tão simpáticos;
Vinte e oito anos de vida feminina e todos tão solitários.
Ela é dona da bela casa na subida da margem,
Ela se esconde vistosa e ricamente trajada atrás da cortina da janela.

Qual dos rapazes que ela gosta mais?
Ah, o mais sem graça deles é lindo para ela.

Aonde vais, senhora? pois te vejo,
Tu te espalhas lá na água, contudo, estás imóvel em tua sala.


[...]

Em mim aquele que faz carícias na vida para onde quer que se mova, voltando-se para frente ou para trás,
Debruçado sobre os nichos ao lado e novos, sem perder uma pessoa ou objeto,
Absorvendo tudo para mim mesmo e para esta canção.

Bois que chacoalham o jugo e as correntes ou parando sob a sombra das folhas, o que expressais nos olhos?
Isto me parece mais que todo impresso que já li na vida.

[...]

Acredito nesses propósitos alados,

E reconheço o vermelho, amarelo, branco brincando comigo,
E considero o verde e o violeta e a coroa plumada intencionais,
E não desprezo a tartaruga porque ela não é uma outra coisa,
E o gaio nos bosques nunca estudou escala musical, no entanto gorjeia muito bem para mim,

[...]

A pressão de meu pé sobre a terra faz jorrar mil afeições,
Elas escarnecem do máximo que faço para descrevê-las.


Estou encantado com a experiência de crescer ao ar livre,

[...]

O que é mais comum, mais barato, mais próximo, mais fácil, sou Eu,
Eu buscando oportunidades, dedicando-me para alcançar vastos retornos,


[...]

Sem pedir ao céu que baixe à minha boa vontade,
Difundindo-a livremente para sempre.

[...]

Dorme a cidade e dorme o campo,
Os vivos dormem para o seu tempo, os mortos dormem para o seu,

[...]

Sou dos velhos e jovens, dos tolos tanto quanto dos sábios,
Desatento com os demais, sempre atento aos demais,
Maternal não menos que paternal, uma criança assim como um homem,
Recheado com o recheio que é tosco e recheado com o recheio que é fino,
Alguém da Nação de muitas nações, igual à menor e igual à maior,

[...]

Sinto-me em casa nas montanhas nevadas do Canadá ou no mato, ou com pescadores em Terra-Nova,
Sinto-me em casa na frota de navios quebra-gelo, velejando com o resto e bordejando,
Sinto-me em casa nas colinas de Vermount ou nos bosques do Maine, ou rancho do Texas,
Camarada de Californianos, camarada de Noroestinos livres, (amando seu porte grande,)
Camarada de jangadeiros e carvoeiros, camarada de todos que apertam mãos e oferecem bebida e comida,
Um aprendiz com os mais simples, um professor dos mais pensativos,
Noviço iniciando no entanto experiente de miríades de estações,
De toda cor e casta sou, de toda classe e religião,
Fazendeiro, mecânico, artista, cavalheiro, marinheiro, quacre,
Prisioneiro, gigolô, brigão, advogado, médico, padre
.

Resisto a qualquer coisa mais que minha própria diversidade,
Respiro o ar mas deixo muito dele atrás de mim,
E não sou convencido, e estou no meu lugar.

Esses são realmente os pensamentos de todos os homens em todos os tempos e terras, não são originais em mim,

[...]

Ouviste que era bom ganhar o dia?
Também digo que é bom cair, batalhas são perdidas com o mesmo espírito com que são ganhas.


[...]

Vivas àqueles que falharam!
E àqueles cujas naus afundaram no mar!
E àqueles que afundaram no mar!
E a todos os generais que perderam combates, e todos os heróis superados!
E os inúmeros heróis desconhecidos iguais aos maiores heróis conhecidos!

Esta refeição é servida com igualdade, esta é a carne para a fome natural,

[...] minha festa é para todos,
Não terei uma só pessoa desprezada ou relegada,


[...]

O escravo de grosso lábio é convidado, o doente venéreo é convidado;
Não haverá diferença entre eles e os demais.

[...]

Pensas que desejo surpreender?
A luz do dia surpreende? O rabo-ruivo da manhã pipila pelos bosques?
Eu espanto mais que eles?

Nesta hora as coisas que conto, conto em confidência,
Talvez não conte a todos, mas a ti eu conto.


Quem vai ali? Cheio de realizações, grosso, místico, nu;
Como é que extraio energia da carne que como?
O que é um homem afinal? O que sou eu? O que és tu?


[...]

Não me queixo do que se queixa o mundo todo,
Que os meses são vácuos e o chão é lama e sujeira apenas.


[...]

Em todos enxergo a mim mesmo, em nenhuma vejo mais do que eu sou, e nem um grão de cevada menos,
E o bem ou mal que digo de mim digo deles.


[...]

Existo como sou, e isso me basta,
Se nenhum outro no mundo está ciente, sinto-me contente,
E se todos estiverem cientes, sinto-me contente.


Um mundo está ciente e é de longe o maior pra mim, e esse sou eu mesmo,
E se me aproprio do que é meu hoje ou em dez mil ou dez milhões de anos,
Posso alegremente recebê-lo agora, ou com igual alegria esperar.


[...]

Sou o poeta do Corpo e sou o poeta da Alma,
Os prazeres do céu estão comigo e as dores do infer­no estão comigo,
O primeiro acrescento a mim mesmo e distribuo, o segundo traduzo em uma nova língua.


Sou o poeta da mulher assim como do homem,
E digo que é tão bom ser uma mulher como ser um homem,
E digo que não há nada maior do que ser a mãe dos homens.


Canto o cântico da expansão ou do orgulho,
Tivemos fuga e censura o bastante,
Mostro que tamanho é apenas o desenvolvimento.

Ultrapassaste os demais? És o Presidente?
Isso é ninharia, eles irão além desse teu feito.


[...]

Estampa-te em mim, noite de seio nu - estampa-te em mim, noite magnética e nutritiva!
Noite dos ventos sul – noite das grandes estrelas raras!
Noite imóvel e ondulante – noite de verão louca e desnuda.

Sorri, ó terra voluptuosa de hálito fresco!
Terra das líquidas e sonolentas árvores!
Terra do poente extinto – terra das montanhas enevoadas!
Terra do vítreo verter da lua cheia recém tingida de azul!
Terra de brilho e escuridão manchando o curso do rio!
Terra do cinzas límpido de nuvens mais brilhantes e mais claras por minha causa!
Terra angulada dos grandes precipícios – rica florida terra!
Sorria, teu amante vem vindo.

Pródiga, me deste amor – por isso a ti dou amor!
Oh, inexprimível e apaixonado amor.


Tu mar! também me entrego a ti – entendo teu sentido,
Contemplo da praia teus curvos dedos convidativos,
Creio que te recusas a recuar sem me sentir,
Devíamos sair juntos, me dispo, corro pra longe dos olhos da terra,
Recebe-me suavemente, me embala em ondulante adormecimento,
Borrifa-me tua umidade amorosa, posso te recompensar.


[...]

Sou aquele que atesta empatia,

[...]

Este minuto que vem a mim depois de decilhões passados,
Não há nada melhor que ele agora.


[...]

Viva a ciência positiva! vida longa à demonstração exata!
Traga folha-da-fortuna mesclada com cedro e ramos de lilás,
Este é o lexicógrafo, este o químico, este fez uma gramática das velhas cártulas,
Estes marinheiros guiaram o navio por mares desconhecidos e perigosos,
Este é o geólogo, este trabalha com o escalpelo, e este é um matemático.

Senhores, a vós as primeiras honras sempre!
Vossos fatos são úteis, contudo eles não são minha morada,

[...]

Walt Whitman, um Cosmos, de Manhattan o filho,
Turbulento, carnudo, sensual, comendo, farreando, procriando,
Sem drama, não superior a homens e mulheres ou separado deles,

[...]

Quem quer que degrade outro, degrada a mim,

[...]

Por Deus! Não aceitarei nada de que todos não possam ter sua compensação nos mesmos termos.

Através de mim muitas vozes longamente mudas,
Vozes das gerações intermináveis de prisioneiros e escravos,
Vozes dos doentes e desesperados e de ladrões e anões,

Vozes de ciclos de preparação e crescimento,
E dos fios que conectam as estrelas, e de ventres e da matéria paterna,
E dos direitos daqueles que estão por baixo,
Dos deformados, triviais, apáticos, tolos, desprezados,
Névoa no ar, besouros rolando bolas de esterco.

Através de mim vozes proibidas,
Vozes de sexos e luxúrias, vozes veladas e eu retiro o véu,
Vozes indecentes por mim clareadas e transfiguradas.

Não pressiono meus dedos sobre minha boca,
Mantenho-me delicado com os meus intestinos, do mesmo modo cuido da cabeça e coração,


[...]

Visão, audição, sensação, são milagres, e cada parte e pedaço de mim é um milagre.

Divino sou por dentro e por fora, e torno sa­grado o que quer que toque ou que me toque,


[...]

Se venero uma coisa mais que outra será a expansão de meu próprio corpo, ou qualquer parte dele,
Translúcido molde de mim serás tu!

Telhado e descanso que a sombra oferece, sereis vós!

Firme bico de arado masculino serás tu!
Qualquer coisa que vá para a minha lavoura serás tu!
Tu meu rico sangue! tua corrente leitosa, são tiras pálidas de minha vida!
Peito que pressiona contra outros peitos serás tu!

[...]

Sol tão generoso serás tu!
Vapores clareando ou sombreando meu rosto sereis vós!
Vós riachos e orvalhos suados sereis vós!

[...]

Mãos que tomei, rosto que beijei, mortal que já toquei, sereis vós!

Sou louco por mim mesmo, há tanto de mim e tudo tão saboroso,
Cada momento e o que aconteça me agita de alegria,
Não posso dizer como meus tornozelos dobram, nem de onde vem a causa de meus menores desejos,
Nem a causa da amizade que irradio, nem a causa da amizade que recebo.


[...]

Contemplar a aurora!
A frágil luz desfaz as imensas e diáfanas sombras,
O ar tem gosto bom para o meu paladar.

[...]

Fascinante e tremendo, com que rapidez o nascer do sol me mataria,
Se eu não pudesse agora e sempre emitir, de dentro de mim, o nascer do sol.

Também nos erguemos fascinantes e tremendos como o sol,
Encontramos o que é nosso, ó minha alma, na calmaria e no frescor da alvorada.

Minha voz persegue o que meus olhos não alcançam,
Com um giro de minha língua abarco mundos e volumes de mundos.

A fala é gêmea de minha visão, ela é inigualável em sua própria medida,
Ela me provoca sempre, diz sarcasticamente,
Walt tu conténs o bastante, por que não te abres para o mundo?

[...]

Felicidade, (que quem me ouça ponha-se à procura dela hoje.)

[...]

Escrita e conversa não me revelam,
Carrego a plenitude das provas e tudo mais em meu rosto,


[...]

Ouço o som que amo, o som da voz humana,
Ouço todos os sons correndo juntos, combinados, fundidos ou prosseguindo,

Sons da cidade e de fora da cidade, sons do dia e da noite,
Jovens falantes àqueles que gostam deles, o riso ruidoso de operários às refeições,

[...]

Ah, isso sim é música! - isso condiz comigo.

[...]

Por fim solto-me novo para sentir o enigma dos enigmas,
E a isso chamamos Ser.


[...]

Tenho condutores instantâneos por toda parte do meu ser, quer eu passe ou pare,
Eles agarram todo objeto e o conduzem sem dano através de mim.

Eu meramente mexo, pressiono, sinto com meus dedos, e sou feliz,
Tocar minha pessoa na pessoa de alguém é aproximadamente tudo quanto posso suportar.


[...]

O insignificante é tão grande quanto tudo mais,
(O que é menos ou mais que um toque?)

Lógica e sermões nunca convencem,
O sereno da noite penetra mais fundo em minha alma.


[...]

Creio que uma folha de relva não é menos que a jornada das estrelas,
E a formiga é igualmente perfeita, e um grão de areia, e o ovo da garrincha,
E a perereca é uma obra-prima para o altíssimo,
E a amora-preta trepadora adornaria os salões do céu,
E a mais estreita junta em minha mão faz qualquer máquina parecer desprezível,
E a vaca pastando de cabeça baixa supera qualquer estátua,
E um camundongo é milagre bastante para abalar sextilhões de infiéis.


[...]

Acho que eu podia ir viver com os animais, eles são tão plácidos e reservados,
Eu fico em pé e os observo longamente.

Eles não suam nem se queixam de sua condição,
Não ficam acordados nas trevas nem lamentam seus pecados,
Não me enjoam discutindo seus deveres perante Deus,
Nenhum está insatisfeito, nenhum está ensandecido com a mania de possuir coisas,
Nenhum se ajoelha ao outro, nenhum para os de sua espécie que viveram milhares de anos atrás,
Nenhum é respeitável ou infeliz sobre toda a terra.


[...]

Eu sigo adiante como então, como agora e como sempre,
Juntando e mostrando sempre mais e com velocidade,


[...]

Espaço e Tempo! agora vejo que é verdade, o que adivinhei,
O que adivinhei quando vagueei na relva,
O que adiivinhei enquanto jazia sozinho em minha cama,
E de novo ao andar na praia sob as pálidas estrelas da manhã.

Meus laços e lastros se soltam, meus cotovelos repousam em fendas marinhas,
Contorno serras, minhas palmas cobrem continentes,
Estou em marcha com minha visão.


[...]

Contente com o nativo e contente com o estrangeiro, contente com o novo e o velho,
Contente com a mulher sem graça assim como com a bonita,


[...]

Viajando por todos os portos em busca de permutas e aventuras,
Me apressando com a multidão moderna tão ávido e volúvel quanto qualquer um,


[...]

Solitário à meia-noite no meu quintal, meus pensamentos longe de mim por um bom tempo,

[...]

Acelerando pelo espaço, acelerando pelo céu e pelas estrelas,

[...]

Esbravejando, aproveitando, planejando, amando, acautelando,
Recuando e preenchendo, aparecendo e desaparecendo,
Passo o dia e noite por essas estradas.


[...]

Sirvo-me do que é material e imaterial,
Nenhum guarda me barra, nenhuma lei me priva.


[...]

Entendo os grandes corações dos heróis,
A coragem do tempo presente e de todos os tempos,
Como o capitão viu o naufrágio lotado e desgovernado do navio a vapor, e a Morte perseguindo-o pela tempestade,
Como ele segurou com garra e não arredou uma polegada, e foi fiel dia e noite,
E rabiscou em grandes letras numa tábua, 'Não desanimeis, não vos abandonaremos';
Como ele os seguiu e os acompanhou por três dias e não desistiu,
Como salvou o grupo à deriva, por fim.


[...]

Tudo isso eu engulo, tem gosto bom, gosto muito, se torna meu,

[...]

Sou o escravo perseguido, recuo às dentadas dos cães,

Inferno e desespero caem sobre mim, atiram e de novo atiram os atiradores,
Agarro as grades da cerca, meu sangue goteja, dissolvido pelo exsudar de minha pele,
Tombo nas ervas e pedras,

Os cavaleiros esporeiam seus cavalos arredios, aproximam-se,
Dirigem seus escárnios contra meus ouvidos aturdidos e me batem violentamente na cabeça com cabos de chicote.

Agonias são uma de minhas mudas de roupa,
Não indago da pessoa ferida como se sente, eu mesmo me torno a pessoa ferida,
Minhas feridas ficam lívidas em mim quando me apóio na bengala e observo.


[...]

Nossa fragata se incendeia,
O inimigo se pergunta se nos rendemos,
Se nossa bandeira está arriada e se a luta havia chegado ao fim.

Agora rio contente, pois ouço a voz de meu pequeno capitão,
'Não arriamos a bandeira', ele grita solenemente, 'aqui é que tem início a nossa parte da luta'.


[...]

Uma das bombas foi acertada, há uma crença geral de que estamos afundando.

O pequeno capitão está sereno,
Ele não está afobado, sua voz não é nem alta nem baixa,
Seus olhos nos dão mais luz que nossos faróis de batalha.

Perto da meia-noite, sob os raios da lua, eles se rendem a nós.


[...]

Nem um garoto é preso por furto sem que eu seja levado também com ele, e com ele sou julgado e sentenciado.

Nem um paciente de cólera dá o seu último suspiro sem que eu dê o meu último suspiro,


[...]

Pedintes se incorporam em mim e estou incorporado neles,
Estico o chapéu, sento com o rosto envergonhado, e mendigo.

Basta! basta! basta!
Por alguma razão estou atormentado. Afastai-vos!
Dá-me um tempo além da minha cabeça agredida, do sono, dos sonhos, das fissuras,
Descubro que estou à beira de cometer um erro comum.

Que eu pudesse esquecer os que zombam e os insultam!
Que eu pudesse esquecer as lágrimas que escorrem e os golpes das clavas e martelos!

[...]

Homem ou mulher, gostaria de dizer o quanto gosto de ti, mas não posso,
E contaria o que está em mim e o que está em vós, mas não posso,
E contaria os anseios que tenho, a pulsação de minhas noites e dias.


Atenção, não dou palestras ou esmolinhas,
Quando dou algo, dou-me por inteiro.

Tu que estás aí, impotente, de pernas bambas,
Abre o lenço que cobre a tua boca até que eu sopre coragem para dentro de ti,


[...]

Não pergunto quem tu és, isso não é importante para mim,

[...]

Ao escravo dos campos de algodão ou aos limpadores de latrinas me inclino,
Em sua face direita deixo o meu beijo familiar,
E em minha alma juro que nunca o negarei.


[...]

Ouvi o que foi dito do universo,
Ouvi e ouvi por vários milhares de anos;
Ele está medianamente bem, até onde se sabe – mas será que isso é tudo?

[...]

O que interessa aos demais interessa a mim, política, guerras, mercados, jornais, escolas,
O prefeito e os conselhos, bancos, tarifas, navios-a-vapor, fábricas, estoques, lojas, imóveis e bens pessoais.

[...]

Cada pensamento que se debate em mim também se debate neles.

[...]

Não falhará o jovem que morreu e foi enterrado,
Nem a jovem que morreu e foi posta ao seu lado,
Nem a criancinha que espiou pela porta, e então recuou e nunca mais foi vista,
Nem o velho que viveu sem propósito, e sente um amargor pior que o do fel,
Nem aquele no albergue de indigentes, tuberculoso de rum e da perturbação mental,
Nem os inumeráveis massacrados e destruídos, nem a ralé embrutecida rotulada de excremento da humanidade,
Nem os sacos que andam por aí com as bocas abertas para receber comida,

[...]

Lanço todos os homens e mulheres para frente comigo, em meio ao Desconhecido.

[...]

Nascimentos nos trouxeram riqueza e variedade,
E outros nascimentos nos trarão riqueza e variedade.


Não chamo um maior e outro menor,
Aquele que realiza o seu tempo e o seu lugar é tal como qualquer outro.

A humanidade foi assassina ou invejosa para contigo, meu irmão, minha irmã?
Sinto por ti, ela não é assassina ou invejosa comigo,
Todos têm sido gentis comigo, não tenho lamentações para exprimir.


[...]

Sou um clímax de coisas realizadas, e em mim está guardado tudo aquilo que há de vir.

[...]

Tudo abaixo foi devidamente percorrido, e ainda subo e subo cada vez mais.

[...]

Imensas foram as preparações para mim,
Fiéis e amigáveis os braços que têm me ajudado.

[...]

Todas as forças foram consistentemente usadas para me completar e deleitar,
Agora neste ponto me ergo com a alma robusta.

Oh expansão da juventude! sempre-tensa elasticidade!
Oh virilidade, ponderada, corada e plena.


Amantes me sufocam,
Enchendo meus lábios, abundantes nos poros de minha pele,
Empurrando-me pelas ruas e corredores públicos, vindo a mim durante à noite,

[...]

Iluminando os momentos de minha vida,
Dando beijinhos em meu corpo, com suaves beijocas balsâmicas,
Silenciosamente passando punhados de seus corações e doando-os para se tornarem meus.

Velhice soberbamente se erguendo! Oh bem-vinda, graça inebriante dos últimos instantes!

[...]

Não há interrupção e nunca poderá haver interrupção,
Se eu, tu, e os mundos, e tudo sob ou sobre suas superfícies fossem neste momento reduzidos a uma pálida bóia, no fim das contas seria em vão,
Nós certamente viríamos de novo até onde agora estamos,
E certamente iríamos mais longe, e então mais longe e mais longe.


[...]

Vê cada vez mais longe, há espaço ilimitado além disso,
Conta cada vez mais, há tempo ilimitado em volta disso.


[...]

Sei que tenho o melhor do tempo e espaço, que nunca foi medido e nunca será medido.

[...]

Nem eu, nem ninguém mais pode percorrer essa estrada por vós,
Deveis percorrê-la por si mesmos.

Não é distante, está dentro de alcance,


[...]

Põe tua mochila nas costas, filho amado, e eu farei o mesmo, e vamos logo,
Cidades maravilhosas e nações livres tomaremos no caminho.


[...]

Hoje antes do nascer do sol, escalei uma colina e contemplei o céu povoado,
E disse ao meu espírito 'Quando nos tornarmos os guardiões desses orbes, e de todo o prazer e conhecimento que há neles neles, estaremos completos e satisfeitos então?'
E meu espírito disse 'Não, superaremos essa etapa apenas para passar adiante e ir além'.


Estás me perguntando algo também e posso ouvir você,
Respondo que não posso responder, deves encontrar as respostas por ti mesmo.


[...]

Deves habituar-te ao fulgor da luz e de todos os momentos de tua vida.

Por muito tempo, tu te agarraste timidamente a uma prancha na praia,
Agora quero que sejas um nadador ousado,
Para pular no meio do mar, te ergas novamente, acenes para mim, grites e, sorrindo, agites teus cabelos.

Sou o instrutor de atletas,
Aquele que por mim expande um peito mais amplo que o meu prova a amplitude do meu,
Quem mais honra meu estilo é quem aprende com ele a destruir o instrutor.

O rapaz que amo torna-se um homem, não por algum poder emprestado, mas por mérito próprio.
Antes iníquo que virtuoso por conformidade ou medo,

[...]

Preferindo as cicatrizes e a barba e os rostos manchados [...] a aqueles que se mantêm longe do sol.

[...]

Se puderes me entender, sobe para o cume das montanhas ou segue para a praia,
O mosquito mais próximo é uma explicação, e uma gota ou movimento das ondas é uma chave,
O malho, o remo, o serrote, corroboram minhas palavras.

Nenhuma sala fechada ou escola pode afinar-se comigo,
Mas os brutos e as criancinhas são nisso melhores do que eles.


[...]

Tenho dito que a alma não é mais que o corpo,
E tenho dito que o corpo não é mais que a alma,


[...]

E digo a qualquer homem ou mulher, deixe que sua alma fique tranquila e íntegra perante um milhão de universos.

E digo à humanidade, não sejas curiosa sobre Deus,
Pois eu que sou curioso sobre todas as coisas não tenho curiosidade alguma sobre Deus,
(Não há uma gama de termos que pode dizer o quanto estou em paz sobre Deus e sobre a morte.)

Ouço e vejo Deus em todos os objetos e ainda assim não compreendo Deus minimamente,

[...]

Vejo algo de Deus em cada hora das vinte e quatro, e em cada momento,
Nos rostos de homens e mulheres vejo Deus, e em minha própria face no espelho,


[...]

E quanto a ti, Morte, e tu, amargo abraço da mortalidade, é inútil tentar me assustar.
Para o seu trabalho sem vacilo chega o parteiro,


[...]

E quanto a ti, Cadáver, acho que serás um bom adubo, mas isto não me ofende,
Sinto o perfume doce das rosas brancas que crescem,
Busco os lábios folhosos, busco os seios polidos dos melões.

E quanto a ti, Vida, reconheço-te nos restos de muitas mortes,
(Sem dúvida eu mesmo morri dez mil vezes antes.)

[...]

Há isso em mim – não sei o que é – mas sei que está em mim.

[...]

Não está em dicionário algum, expressão vocal, símbolo.

Balança sobre algo maior do que a terra em que balanço,
Disso a criação é a amiga cujo abraço me desperta.

Talvez eu devesse contar mais. Esboços! Suplico por meus irmãos e irmãs.

Vedes, ó meus irmãos e irmãs?
Não é caos nem morte – é forma, união, plano – é vida eterna – é Felicidade.


[...]

Ouvinte que está aí! Que confidências tens para me fazer?
Olha nos meus olhos enquanto sorvo o esgueirar da noite
(Fala honestamente, ninguém mais te ouve, e só fico apenas por mais um minuto.)

Contradigo a mim mesmo?
Muito bem então contradigo a mim mesmo,
(Sou vasto, contenho multidões.)


Concentro-me naqueles que estão próximos, aguardo na soleira da porta.

Quem fez seu trabalho do dia? quem terminará a ceia mais cedo?
Quem deseja andar comigo?

[...]

Entrego-me ao solo para brotar da relva que amo,
Se me quiseres de novo, procura-me sob as solas de tuas botas.


Mal saberás quem sou ou o que pretendo,
Mas serei boa saúde para ti não obstante,
E filtrarei e darei fibra ao teu sangue.

Falhando em me encontrar no começo não perde o ânimo,
Não me achando em certo lugar, procura em outro,
Estou em alguma parte, te aguardando.


Para ler uma tradução com a poesia completa:



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2 comentários:

Ana Paula Ruggini Zarpelon disse...

Que Deus nos abençõe durante todo o Ano de 2011, e que nossa presença faça diferença na vida de todos que passam por ela.

Abraços!

Simplesmente SôniaMaria disse...

Dá para anular o outro comentário? Digito rápido e erro gravemente. Obrigada por tudo que voc~e nos envia... Um Feliz 2011, e sua visão é a mesma que tenho. Sõnia

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