27.1.11

Livro "DEMIAN" - Hermann Hesse

"Queria apenas tentar viver aquilo que brotava espontaneamente de mim. Por que isso me era tão difícil?

[...] Quem quiser nascer tem que destruir um mundo; destruir no sentido de romper com o passado e as tradições já mortas,

desvincular-se do meio excessivamente cômodo e seguro da infância para a conseqüente dolorosa busca da própria razão do existir: SER é OUSAR SER.

(Hermann Hesse)




Indicação da Babs :) Conta uma parte da vida de Emil Sinclair, um menino bem educado e amado pela família, em como foi deixando de ser garoto e se tornando homem. Esse processo é catalisado por algumas situações e amizades, principalmente pela de Max Demian.

É um livro curto (150 pág), recomendaria fortemente para meninos entre 14-19 anos, principalmente introvertidos.

Fala sobre os conflitos na transformação de adolescente para adulto e da vida espiritual e mundanda, sobre descobrir-se, pensar pela própria cabeça, encarar a realidade, sobre a influência do amor e mulheres, enfim... é MUITO bacana! ;)

Tem outros 2 livros dele que vou ler: "Sidarta" e "Lobo da Estepe". Juntos com "Demian" formam uma trilogia disfarçada; tratando da infância, velhice e juventude, respectivamente.

Dali - Geopoliticus Child
"A ave sai do ovo, o ovo é o mundo.

Quem quiser nascer tem que destruir um mundo."
(Hermann Hesse)

Melhores Trechos

[...] um homem real, único e vivo. Hoje sabe-se cada vez menos o que isso significa, o que seja um homem realmente vivo, e se entregam à morte sob o fogo da metralha a milhares de homens, cada um dos quais constitui um ensaio único e precioso da natureza.

Não creio ser um homem que saiba. Tenho sido sempre um homem que busca, mas já não busco mas nas estrelas e nos livros: começo a ouvir os ensinamentos que meu sangue murmura em mim.

A vida de todo o ser humano é um caminho na direção de si mesmo.

Homem algum chegou a ser completamente ele mesmo, mas todos aspiram a sê-lo.

A manhã sem colégio, em dia útil, era algo mágico e lendário: o sol entrava logo em meu quarto, mas não era o mesmo sol que obrigava o professor a fechar as cortinas verdes na sala de aula.

Quando o medo nos quer dominar, é necessário livrar-nos dele. Tens que livrar-te desse medo de qualquer maneira.

Como quase todos os pais, também os meus não auxiliaram o despertar dos instintos vitais, assunto sobre o que nunca se falou em nossa casa.

Auxiliaram apenas, com inesgotável atenção, minhas vãs tentativas de negar a realidade e continuar habitando um mundo infantil cada vez mais irreal e fictício.

Não sei se os pais podem fazer a esse respeito alguma coisa, e nenhuma reprovação tenho para com os meus.

Eu devia encontrar o meu caminho por mim mesmo, tarefa que foi tão difícil quanto à maioria dos jovens que receberam o que se costuma chamar de "uma boa educação".

Todos os homens vivem esses momentos difíceis. Para os de nível médio, este é o ponto da existência em que surge a maior oposição entre o avançar da própria vida e o mundo ao redor, o ponto em que se torna mais duro conquistar o caminho que conduz à frente.

São muitos os que, unicamente essa vez, passam na vida por aquele morrer e renascer que é nosso destino, somente essa vez, quando tudo que chegamos a amar quer abandonar-nos e sentimos de repente em nós a solidão e o frio mortal dos espaços infinitos.

E há muitos também que se embaraçam para sempre nesses obstáculos e permanecem a vida toda agarrados a um passado sem retorno, ao sonho do paraíso perdido, o pior e o mais assassino de todos os sonhos.

Mas apesar de tudo, me sentia miserável. Vivia numa orgia contínua e aniquilante e meus camaradas me consideravam um de seus líderes mais enérgicos, um moço sagaz e resoluto, mas, a despeito disso, minha alma esvoaçava temerosa, penetrada de angústias.

[...] embora me achasse diferente de meus novos companheiros e me sentisse continuamente solitário em sua companhia, não me era possível desligar-me deles. Já não posso precisar se cheguei alguma vez a encontrar prazer naquela vida de bebedeiras e fanfarronadas.

São muitos os caminhos pelos quais Deus pode nos conduzir à solidão e levar-nos a nós mesmos.

Jamais troquei com Beatrice uma única palavra. E, não obstante, ela exerceu sobre mim a mais profunda influência. Fixou diante de mim sua imagem, abriu-me as portas de um santuário, fez de mim um devoto a rezar ajoelhado num templo.

De súbito deixei de frequentar os cafés e as correrias noturnas de meus camaradas. Voltei a estar sozinho e recuperei o gosto pela leitura e os longos passeios silenciosos.

Sempre é bom termos consciência de que dentro de nós há alguém que tudo sabe.

A ave sai do ovo, o ovo é o mundo. Quem quiser nascer tem que destruir um mundo.

Queria apenas tentar viver aquilo que brotava espontaneamente de mim. Por que isso me era tão difícil?

Quem quiser nascer tem que destruir um mundo; destruir no sentido de romper com o passado e as tradições já mortas, de desvincular-se do meio excessivamente cômodo e seguro da infância para a conseqüente dolorosa busca da própria razão do existir: ser é ousar ser.

Não creio que se possam considerar homens todos esses bípedes que caminham pelas ruas, simplesmente porque andam eretos ou levem nove meses para vir à luz.

Sabes muito bem que muitos deles não passam de peixes ou de ovelhas, vermes ou sanguessugas, formigas ou vespas.

Não há porque te comparares com os demais, e se a natureza te criou para morcego, não deves aspirar a ser avestruz. Às vezes te consideras por demais esquisito e te reprovas por seguires caminhos diversos dos da maioria. Deixa-te disso.

Contempla o fogo, as nuvens, e quando surgirem presságios e as vozes soarem em tua alma, abandona-te a elas sem perguntares se isso convém ou é do gosto do senhor teu pai ou do professor ou de algum bom deus qualquer. Com isso só conseguimos perder-nos.

A única realidade é aquela que se contém dentro de nós, e se os homens vivem tão irrealmente é porque aceitam como realidade as imagens exteriores e sufocam em si a voz do mundo interior.

Também se pode ser feliz assim; mas quando se chega a conhecer o outro, torna-se impossível seguir o caminho da maioria.

Meu maior desejo era viver, por fim, um pouco, dar algo de mim ao mundo exterior, entrar em contato e em luta com ele.

Há muita diferença entre levarmos simplesmente o mundo em nós mesmos e conhecê-lo.

Pistórius, que por sua vez era bastante excêntrico, ensinou-me a conservar a coragem e a estima por mim mesmo, e serviu-me de exemplo, achando sempre algo valioso em minhas palavras e sonhos, em minhas fantasias e idéias, levando sempre a sério tudo aquilo e discutindo-o gravemente.

Sei muito bem que hás de ter sonhos que não revelas nem a mim. Não quero que me contes. Mas ouve-me bem: vive esses sonhos, vive-os bem, dedica-lhes altares! Não é a perfeição, mas já é um caminho.

Que consigamos, tu, eu e alguns outros, renovar ou não o mundo é coisa que em breve se verá. Mas, dentro de nós mesmos, temos que renová-lo a cada dia; de outro modo, nada conseguiremos.

- Mas não podes mesmo aconselhar-me nada? - perguntou, por fim, entristecido e esgotado. - Nada absolutamente? Deve haver algum caminho! E tu, como fazer?
- Nada posso dizer-te, Knauer. Nessa questão não é possível obtermos ajuda. Também a mim nunca ninguém ajudou.
Tens que refletir contigo mesmo e fazer aquilo que verdadeiramente surja em tua essência. Não há outro caminho. Se tu mesmo não o podes encontrar, também não encontrarás quaisquer espíritos que te guiem, creio eu.

O que verdadeiramente me fazia bem era o progresso do conhecimento de mim mesmo, minha confiança crescente em meus próprios sonhos, idéias e intuições; a revelação, cada dia mais clara, do poder que em mim mesmo levava.

Todos os homens buscavam a "liberdade" e a "felicidade" num ponto qualquer do passado, só de medo de ver erguer-se diante deles a visão da responsabilidade própria e da própria trajetória.

Todo o homem, por mais bondoso que seja [...] Tem que dar aquele passo que o desliga dos pais e de seus mestres e sentir um pouco a aspereza da solidão, embora em sua maioria não a podem suportar por muito tempo e voltem para a submissão.

Aquele que só quer seu destino já não tem modelos nem ideais, amores nem consolos.

Para o homem consciente só havia um dever: procurar a si mesmo, afirmar-se em si mesmo e seguir sempre adiante o próprio caminho, sem se preocupar com o fim a que possa conduzí-lo [...]

Sua missão era encontrar o próprio destino, e não qualquer um, e vivê-lo inteiramente até o fim.

Tudo o mais era ficar a meio caminho, era retroceder para refugiar-se no ideal da coletividade, era a adaptação e medo da própria individualidade interior.

Era um impulso da natureza, um impulso em direção ao incerto, talvez do novo, talvez do nada, e minha função era apenas deixar que esse impulso atuasse, nascido das profundezas primordiais, sentir em mim sua vontade e fazê-lo meu por completo. Esta, e somente esta, era minha função.

Poucos dias depois, iniciei minha viagem. Estranha viagem! Passei sem descanso de um lugar a outro, seguindo a inspiração do momento

Quinze dias depois matriculei-me na Universidade de H. Tudo nela decepcionou-me. O curso de história da filosofia, que comecei a frequentar, pareceu-me tão vulgar e trivial como as atividades dos jovens estudantes.

Tudo seguia padrões rígidos, todos faziam as mesmas coisas, e a calorosa alegria das faces juvenis tinha uma expressão lamentavelmente vazia e impessoal. Quanto a mim, desfrutava a minha liberdade.

O que existe hoje não é comunidade: é simplesmente rebanho. Os homens se unem porque têm medo um dos outros e cada um se refugia entre seus iguais: rebanho de patrões, rebanho de operários, rebanho de intelectuais...

E por quê têm medo? Só se tem medo quando não se está de acordo consigo mesmo. Têm medo porque jamais se atreveram a perseguir os próprios impulsos interiores. Uma comunidade formada por indivíduos atemorizados com o desconhecido que levam dentro de si.

Não sabia que o mundo pudesse ser ainda tão belo. Acostumara-me a viver absorto em mim mesmo e a aceitar, resignado, a perda do sentido exterior,

supondo que a ausência das cores vivas do mundo visível estivesse indissoluvelmente vinculada à perda da infância e que a liberdade e a virilidade da alma tinham que ser pagas, de certo modo, com a renúncia desse suave esplendor.

Agora percebia, encantado, que tudo aquilo estivera simplesmente obscurecido e coberto de cinzas, e que também o homem que se libertou e que renunciou à felicidade da infância pode ver o mundo resplandecer e apreciar as íntimas delícias da visão infantil.

Não há nenhum sonho perdurável. Uns substituem os outros e não devemos esforçar-nos por nos prender a nenhum.

Não estávamos separados dos homens por fronteira alguma, mas por uma forma diversa de ver. Nosso trabalho era erguer no mundo uma ilha, talvez um exemplo e, quando não, o anúncio de uma possibilidade diferente.

Por tanto tempo antes solitário, conheci então aquela comunidade que se faz possível entre homens que experimentaram a mais absoluta solidão.

Para eles, a humanidade - que amavam tanto quanto nós - era algo completo que deveria ser conservado e protegido.

Para nós, a humanidade era um futuro distante para o qual todos caminhávamos, sem que ninguém conhecesse sua imagem e sem que encontrassem suas leis escritas em parte alguma.

Para nós, só havia um dever e um destino: chegarmos a ser perfeitamente nós mesmos, conformarmo-nos inteiramente à semente da natureza em nós ativa e vivermos tão entregues à nossa vontade que o futuro incerto nos encontraria prontos para tudo que pudesse trazer consigo.

Você não deve se entregar a desejos nos quais não acredita. Sei o que deseja. Você tem que abandonar esses desejos ou desejá-los de verdade e totalmente.

Quando chegar a pedir tendo em si a plena segurança de alcançar seu desejo, a demanda e a satisfação coincidirão no mesmo instante. Mas você desejo e se reprova, temeroso de seus desejos. Tem que dominar tudo isso.

O amor não deve pedir - continuou - tampouco exigir. Há de ter a força de chegar em si mesmo à certeza e então passa a atrair em vez de ser atraído.

Sinclair, seu amor é agora atraído por mim. Quando chegar a atrair-me, então, atenderei. Não quero ser uma dádiva, mas uma conquista.

Não há motivo para preocupações. O que há de vir logo surgirá diante de nós e então saberemos o que necessitamos saber.

A corrente do mundo já não iria passar ao largo deixando-nos à margem, mas desta vez diretamente através de nossos corações; a aventura e os mais violentos destinos nos chamavam, e aproximava-se o momento em que o mundo queria transformar-se e precisava de nós.

Todos os homens pareciam irmanados. Pensavam na pátria e na honra. Mas era o destino que se mostrava diante deles, por um momento, frente a frente e sem véus. Milhares de jovens saíam dos quartéis e entravam nos trens.

Havia julgado os homens abaixo do que realmente valiam. Apesar da uniformidade que lhes impunha o serviço militar e o perigo comum, vi muitos se aproximarem arrogantemente à vontade do destino, em plena vida ou a ponto de morrer.

Muitos mostravam, a todo momento e não só no ataque, aquele olhar firme, distante e alheado que não sabe de fim nenhum e implica uma completa entrega ao monstruoso.

Fossem quais fossem suas opiniões ou idéias, aqueles homens estavam prontos, eram aproveitáveis e podiam servir para dar forma ao futuro.

Hermann Hesse



Gostou? Compartilhe:
TwitterStumbleupondel.icio.us

3 comentários:

Canteiro Pessoal disse...

É saboroso redegustar letras de Hesse, afinal o tenho como apreciação - enamorar particular.

Priscila Cáliga

José Maria Plá Junior disse...

Já tinha ouvido falar de Hesse, mas fiquei com vontade de ler depois desse post. Tá na fila.
Grande abraço.

Plá

Livrismos disse...

Demian foi quase um divisor de águas em minha vida. Quer dizer, a obra de Hesse como um todo é que foi, cada livro foi apenas peça do todo. As reflexões sobre o bem e o ma que fogem daquele esteriótipo de dualidade ajudaram a criar uma sensação de que nada é capaz de ser definido de forma tão simples como achamos que realmente são.

Livro incrível!! Vale muito a pena!

Blog Widget by LinkWithin