2.2.11

Perda do Trabalho, Perda da Identidade - Eugène Enriquez

Curti demais o artigo enviado para mim pela minha amiga e psicóloga Ariane Ragusa Guimarães. Obrigado! :)

Separei e editei os melhores trechos abaixo. Para quem quiser ver o artigo inteiro (em PDF):

Eu não conhecia o Eugène Enriquez. Ele é professor emérito da Universidade Paris VII, pioneiro e um dos expoentes da psicossociologia. Tiozinho fera! rs :)

"Melting Men" (Homens Derretendo) obra da brasileira Nele Azevevo

Melhores Trechos
"Perda do Trabalho, Perda da Identidade" de Eugène Enriquez:

Nas antigas sociedades o trabalho não era valorizado. Os romanos chamariam o trabalho de tripalium, que era um instrumento de tortura. A necessidade de produzir e de comercializar, ficava a cargo dos escravos.

Após a Revolução Industrial, o trabalho, que não era tido em alta consideração (na sociedade medieval um nobre não devia trabalhar), passou a ser valorizado, porque se transformou num símbolo de liberdade do homem, para transformar a natureza, transformar as coisas e a sociedade.

Aliás, foi o pensador inglês John Locke — um dos inspiradores do Bill of Rights, a Declaração de Direitos inglesa, da Declaração da Independência americana, e que também influenciou a Declaração francesa dos Direitos do Homem — a liberdade fundamental do homem é a liberdade de empreender.

Esta idéia se difundiu muito rapidamente, porque ela correspondia bem ao desejo das nações naquele momento. Veremos Adam Smith dizer, em A Riqueza das Nações, que o trabalho é o que permite aumentar a riqueza das nações.

Para Montesquieu, o trabalho e o comércio é que permitem manter as relações entre os seres humanos e, conseqüentemente acalmar, eu diria, as tendências guerreiras do homem. Para Montesquieu, quando se faz comércio, não se faz guerra.

No entanto, a nova mentalidade sobre o trabalho vai gerar o que chamamos de mobilização geral dos seres humanos para o trabalho. Vemos aí se desenvolver a idéia de que os indivíduos que não trabalham são parasitas, delinqüentes e inúteis.

A figura do trabalhador torna-se, então, uma figura central.

Desde 1970, a tendência se inverte. E o mal-estar na civilização torna-se palpável. Por quê? O economista austríaco Joseph Schumpeter caracterizou o capitalismo como um movimento de destruição criadora.

Esse movimento vai-se intensificar, isto é, o capitalismo, ao invés de ser produtor de riquezas, vai se tornar, cada vez mais e rapidamente, seu destruidor, para poder construir outras riquezas. A ordem é: vamos construir para destruir e vamos destruir para construir.

Podemos tomar um exemplo simples. Quando se compra um computador hoje, ele vai ser obsoleto e sem interesse, daqui a dois anos. Bem depressa, o produto que estamos produzindo vai para o lixo. O que significa que estamos entrando numa sociedade que é, exclusivamente, de consumo e pelo consumo.

Outra coisa é que o desenvolvimento se volta para o problema do consumo e não mais para o da produção. Esse é um ponto essencial. O desenvolvimento das novas tecnologias, como aquelas das telecomunicações, permite efetivamente que hoje funcionemos em tempo real.

Vemos se desenvolver um extraordinário "boom" do capital financeiro e não mais do capital industrial. Estamos cada vez mais no movimento de produzir dinheiro com dinheiro, sem produzir mercadoria.

Vamos entrar em um outro mundo, não somente do consumo, mas num mundo que um economista francês, Maurice Allais, ganhador do Prêmio Nobel de Economia, há alguns anos, definiu como um imenso cassino financeiro.

Basta ver as manchetes dos jornais. Há vinte ou trinta anos, é verdade que já existiam alguns grandes especuladores que jogavam na bolsa. Hoje, praticamente todo mundo tem algumas ações e tenta se arranjar com elas.

Então, para se ter um melhor produto a ser vendido no mercado, a fim de se realizar melhores lucros financeiros, o que vai acontecer? Uma intensificação da guerra econômica, uma exacerbação desta guerra, que desde sempre foi fundamental para o capitalismo, mesmo que, de tempos em tempos, os grandes poderosos sejam obrigados a fazer acordos com os bancos centrais e pensar em baixar ou aumentar as taxas de juros.

De maneira bem clara, o capitalismo está a ponto de fazer ruir as antigas sociedades industriais nas quais vivemos, fundadas ao mesmo tempo sobre a produção de
mercadorias, sobre o dinamismo dos empreendedores e sobre a resistência operária.

Então, vai aparecer o predomínio generalizado de uma visão racional da vida, isto é, de uma visão racional estritamente econômica, instrumental.

O Brasil tem essa característica extraordinária de ser um laboratório muito interessante, porque é um país, ao mesmo tempo, desenvolvido, sub e supradesenvolvido. Eu diria que, de todos os países do mundo — e conheço muitos — este é o país mais contraditório que já vi.

Aqui no Brasil há de tudo, encontramos características do século XX e do século passado, simultaneamente. E isso depende da região e até mesmo dos bairros, algumas vezes.

Nessa nova situação, em algumas regiões temos realmente mais necessidade de trabalhadores intelectuais, que tenham feito estudos profundos de engenharia, de eletrônica, de estudos comerciais etc. Em outras regiões, temos mais necessidade de empregos pouco qualificados, empregos precários, quer dizer, pessoas que se tornarão empregados domésticos, motoristas etc.

Falamos cada vez menos de trabalho e cada vez mais de emprego. Dizemos que uma pessoa tem ou não um emprego. O que quer dizer um emprego? Quer dizer ter uma tarefa a ser feita, com um salário fixo, mesmo que essa remuneração não seja interessante. Vemos então que a noção do trabalho liberador está se partindo em pedaços.

Além disso, constatamos — exatamente por causa da automação e das novas tecnologias — que cada vez temos menos necessidade da maioria das pessoas. O que é bastante curioso aqui, nesse fenômeno que vai ser traduzido por perda de emprego, é a tese de que isso leva a economia capitalista a se comportar melhor. Mas não é verdade.

Ou seja, depois dessa redução de empregos, do uso de tecnologias como a reengenharia e outras do gênero, das técnicas de qualidade total, nas quais não acredito de maneira nenhuma — o crescimento global em todos os países, na realidade, diminuiu.

Sobre a qualidade total, vejo-a como uma inutilidade, pois qualidade total nunca existiu em lugar nenhum. Podemos melhorar a qualidade de um produto, mas qualidade total não existe.

Quando falamos em qualidade, o que estamos querendo dizer? A qualidade da organização geral, a qualidade dos métodos que estamos realizando, a qualidade do produto, a qualidade de vida das pessoas que trabalham, a qualidade de melhor atendimento ao cliente. É tudo isso ao mesmo tempo.

Certas qualidades são contraditórias, porque, se o chefe de empresa quer aumentar o ritmo, ele não vai se preocupar com a qualidade de vida dos seus colaboradores.

Definitivamente, a noção de qualidade total é a noção de um mundo que não existe. Não pode existir um mundo totalmente racional, onde cada qual funciona bem, no tempo previsto, com os gestos necessários, sem sentimento, nem paixão.

O que isso provoca em nossa civilização? Diria que provoca o desenvolvimento da perversão social. O que entendo por perversão social se aplica às empresas dominadas por lógicas e estratégias financeiras e industriais e que têm, cada vez mais, tendência a considerar os homens como objetos eminentemente substituíveis, atendo-se apenas aos problemas financeiros.

A redução de pessoal acontece, mesmo quando as empresas estão funcionando bem. Uma companhia sueca, Eletrolux, suprimiu aproximadamente 100 mil empregos no mundo e 12 mil na matriz, porque o acionista principal queria um rendimento financeiro de 15% para as suas ações, rendimento esse que era de 9%, o que já muito bom, porque na Suécia não há inflação.

Numa situação assim, todos os assalariados, não importa qual seja o seu nível hierárquico, não sabem nunca se serão mantidos ou não no emprego, porque não é a riqueza econômica da empresa que vai impedir que exista redução de efetivo.

Vou dar o exemplo novamente da Peugeot e da Citroën, que conheço bem, na França. É uma empresa que está funcionando muito bem. Ela passa seu tempo a despedir as pessoas de maneira regular. Poderão permanecer na empresa apenas aqueles que são considerados de excelente performance.

Vocês sabem muito bem o que isso quer dizer, performance e excelência. Isso remete às pessoas ditas vencedoras. São aqueles que matam de maneira tranqüila, sem dó, "fritando" o semelhante, um outro profissional. Mata-se de verdade e a pessoa lesada não tem idéia, nem tem a impressão de que querem matá-la.

Isso é psicologização, na medida em que, se alguém não consegue conservar o seu trabalho, fala-se tranqüilamente: "você não soube se adaptar, você não soube fazer esforços necessários, não teve uma alma de vencedor, você não é um herói. Você é culpado e não a organização da empresa ou da sociedade. A culpa é só sua."

Isso culpabiliza as pessoas de modo quase total, pessoas que, além disso, ficam submetidas a um estresse profissional extremamente forte. Então as empresas exigem daqueles que permanecem um devotamento, lealdade e fidelidade, mas ela não dá nada em troca. Ela vai dizer simplesmente: "você tem a chance de continuar, mas talvez você também não permaneça."

Nas críticas que são feitas à burocracia, sobre o fato de a empresa privada ser bem melhor, é preciso observar, com Max Weber, que foi o primeiro a refletir sobre a burocracia, que esta tem muitos defeitos, mas tem, apesar de tudo, uma vantagem. Ela é fiadora do interesse geral ou garantidora da preservação do bem comum.

E isso não acontecerá se simplesmente promovermos uma desregulamentação. Diria que, quando criticamos a burocracia, é preciso prestar atenção e não apenas criticar os mecanismos que permitem à sociedade funcionar e se manter.

Eu vou retomar uma frase muito bonita, um antigo conceito de Aristóteles que, há vários séculos, dizia: uma sociedade é aquilo em que podemos viver juntos, tendo o prazer de viver juntos.

A primeira formação da identidade é feita pela família. Iinsisto em que o papel da família é, de fato, o de ensinar quais são as coisas proibidas e as coisas possíveis, papel de transmitir noções éticas e também de incutir o amor natural.

Por outro lado, a escola que freqüentemente não preenche o seu papel, deve favorecer o confronto com os semelhantes e favorecer o desenvolvimento do pensamento, dando às pessoas a possibilidade do prazer intelectual.

Cada vez mais, temos pais que não sabem, e também a escola não sabe mais, quais sãos os verdadeiros valores sociais que devem transmitir para as crianças.

A empresa, deveria ser um lugar de aprendizagem, de continuação da socialização. A identidade para cada um de nós tem a ver com nossas consistências e com a relação destas com outros seres humanos. Essa relação está existindo com menor freqüência.

Nós não vivemos mais do nosso trabalho, nós sobrevivemos dele, o que é bem diferente. Nós vivemos no efêmero.

Quantas vezes, no Brasil, ouvi essa expressão: "eu não sei o meu futuro" ou "para mim, o futuro é a próxima semana." Ora, quando vivemos sem esse horizonte de temporalidade, como poderemos ter projetos, como poderemos construir nossa vida e nossa existência?

O que está se desenvolvendo é essa angústia generalizada, que vai ocorrer em todos os países do mundo.

Existe a possibilidade de se valorizar a personalidade, quando se é mais agressivo, mais decidido. Existe uma maneira de tentar contornar toda essa dificuldade, orientando nossa sociedade a ter um certo humor em relação a isso, ou então a se integrar, ainda que à margem.

Podemos, também, desenvolver estratégias de defesa, isolando-nos e privando-nos da identidade coletiva. Podemos nos refugiar no álcool, na droga, na criminalidade. É claro que não são boas estratégias de respostas, mas, todos esses fenômenos, resultam na fragmentação geral de nossa sociedade.

É o que Alain Touraine, formulou muito bem, há vinte anos: "Aquilo que eu receio, quanto a toda a nossa sociedade, é que ela se fragmente de maneira tal que cada um se torne uma gangue para sua coletividade."

Então, estaríamos numa sociedade de luta geral de gangues, os homens uns contra os outros. Numa certa medida, é o que está acontecendo.

O mais extraordinário é que aqueles que foram os atores mais ativos deste lado desastroso, começam a ficar inquietos pelo que está acontecendo.

Por exemplo, o Sr. Hammer, que é o criador "genial" (estou fazendo humor) da reengenharia, começa já a dizer que o chefe de empresa não vê as conseqüências sociais, apenas técnicas, daquilo que planeja e realiza.

Estamos em um momento em que não temos mais ideologias que nos protegem ou que nos dizem o que fazer. Nós, felizmente, devemos construir o mundo inventando e imaginando novas perspectivas.

Não temos mais pensadores magníficos que nos digam o que fazer. É por isso que estou dizendo que não estamos no final da história, mas, ao contrário, estamos no início, pelo fato de que somos responsáveis pelo que devemos fazer.

Podemos pensar em outras formas de organização do trabalho, nas quais os indivíduos não estejam, simplesmente, em um trabalho repetitivo, mas nas quais eles possam ter uma certa autonomia e possibilidade de decisão.

Podemos pensar, igualmente, no desenvolvimento das atividades do setor quaternário, ou seja, o ensino, a educação, todo o setor de lazer.

Sob esse ponto de vista, a velha citação de Marx não é tão falsa, de que talvez um dia existirão pessoas que irão trabalhar três horas por dia e depois irão pescar, ler um bom livro, fazer música etc.


Deve-se pensar também numa civilização que possa se centrar não apenas no trabalho, mas uma sociedade que se centre na multiplicação das atividades, à medida em que cada qual é bem mais competente do que acredita.

Por exemplo, como imigrantes da África do Norte, na França, as mulheres árabes que sabem apenas um pouco de francês sentem-se totalmente inúteis. Mas foram criadas, em certos bairros, redes de solidariedade onde essas mulheres vão ensinar as francesas a fazer a culinária algeriana e, em troca, as francesas vão ensinar a elas o francês.

O que quero dizer é que existe a possibilidade de se recriar. E temos exemplos também da antiga economia do Brasil, essa economia de troca, que não passa pelo dinheiro, mas pelo fato de as pessoas prestarem serviços. Cada pessoa se sente útil para alguma coisa. Os deficientes físicos mostram ser capazes de fazer sempre alguma coisa.

Lembro-me da primeira experiência que tive, quando era um jovem psicossociólogo. No norte da França, as pessoas que trabalhavam nas minas diziam que não tinham nada a nos falar. Eu dizia que não tinha problema, bastava que elas me falassem sobre o seu trabalho.

Algumas vezes, essas entrevistas duravam horas, às vezes, o dia todo. Então, os mineiros diziam que nunca pensaram que sabiam tantas coisas. É claro que essas pessoas sabem muito mais do que elas julgam saber.

Há também o problema da duração do trabalho. Nos meados do século XIX, as pessoas trabalhavam 70 horas por semana e, quando diziam aos chefes de empresa que era preciso trabalhar apenas 60 horas, o chefe de empresa dizia: é impossível. Não é verdade.

O melhor exemplo foi dado, há uns quinze anos, no momento da grande recessão na Inglaterra, quando inúmeras empresas colocaram o seu pessoal no desemprego técnico. Eles trabalhavam 3x por semana, durante 6 meses.

E durante esse tempo, eles produziram tanto quanto produziram durante a semana toda, o que mostra que o fato de não poder se reduzir a jornada de trabalho é falso.

Eu diria também que é preciso encontrar ligações de solidariedade fora do trabalho. É preciso reinventar o coletivo. Que todos possam, também, reencontrar o sentido político, o significado dos seus atos, além do prazer de viver juntos.

Termino dizendo duas frases escritas por dois pensadores que aprecio. Uma é do americano Herbert Simon, antigo Prêmio Nobel de Economia, que diz na sua autobiografia: "Sou um pesquisador da ciência social, antes de ser um economista ou psicólogo, e espero ser um ser humano antes de qualquer coisa."

Tudo isso nos leva à idéia de um novo humanismo. Gostaria de citar uma frase mais longa do grande historiador francês Fernand Braudel, que renovou toda uma parte histórica no mundo. Ele escreveu, um pouquinho antes de morrer, a seguinte frase: "É preciso criar um novo humanismo."

E ele definia humanismo da seguinte maneira:
"O humanismo é uma maneira de esperar, de querer que os homens sejam fraternais e que as civilizações, cada uma por si, e juntas, se salvem e nos salvem. Aceitar e desejar que as portas do presente se abram largamente sobre o futuro, além das falências, além das explosões das catástrofes que nos predizem os profetas."

Eugène Enriquez

[Conferência proferida durante o seminário "Trabalho e Existência", em 13/11/97, promovido pela Escola do Legislativo, IRT - Instituto de Relações do Trabalho - e o Instituto Jacques Maritain, da PUCMinas] Palestra publicada originalmente em "Relações de Trabalho Contemporâneas"; orgs. Antônio Carvalho Neto e Maria Regina Nabuco. Belo Horizonte: IRT (Instituto de Relações do Trabalho) da PUC-Minas, 1999. pp. 69-83.
Revisão: Professor José Newton Garcia de Araújo, do Departamento de Psicologia e do Mestrado em Ciências Sociais da PUC-Minas.
© Cad. Esc. Legisl., Belo Horizonte, 5(9): 53-73, jul./dez. 1999.



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1 comentários:

Canteiro Pessoal disse...

Nicholas, rico conteúdo e que imagem espetacular.

Priscila Cáliga

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