15.3.11

Ivan Illich - Sociedade sem Escolas (Deschooling Society, 1971)

Nesse post: breve história do Ivan Illich, resumo do livro Sociedade sem Escolas (Deschooling Society), posts sobre críticas à educação, resumo das idéias dele, link para os escritos/livros online.

"Boas intenções não têm muito a ver com o que estamos discutindo aqui.

Para o inferno com boas intenções. [...] Boas intenções não ajudam ninguém."


(Ivan Illich, trecho do discurso To Hell With Goog Intentions, na conferência para jovens americanos voluntários, 1968)


O austríaco Ivan Illich foi um ex-padre e polímata que tinha umas idéias bem interessantes (e radicais) sobre diversas áreas como educação, desenvolvimento tecnológico e econômico, fontes de energia, transportes, ecologia, medicina, trabalho...

Seus escritos explosivos foram atacados tanto pela esquerda quanto pela direita.

Sua obra mais famosa é "Sociedade Sem Escolas", onde defende a desescolarização da educação, autodidatismo e redes de aprendizado.

Ivan Illich - "Sociedade sem Escolas" - UnifespTV (3min)



Apesar de nunca ter se tornado muito conhecido, suas obras já na década de 1970 (!) antecipavam muito do que vivemos hoje: crise ambiental e energética, internet e redes sociais, mal-estar social e etc.

Criticava abertamente os malefícios da institucionalização, monopólios, commoditização e profissionalização de áreas chaves da sobrevivência humana. Desdobrou também a idéia da contraprodutividade - na qual uma instituição estimula o oposto do seu propósito.

  • Exemplo: indústrias médicas/farmacêuticas tem mais interesse nas doenças que na saúde, instituições educacionais tem mais interesse na ignorância do que no aprendizado.

    Semelhante acontece na política, no sistema jurídico, e em outras áreas. A preocupação maior da instituição é se justificar e se perpetuar.

Illich também viajou grandes distâncias a pé pela América Latina e dividiu a sua vida entre os EUA, México e Alemanha. Morreu de câncer na face, o qual ele mesmo tentou tratar durante 10 anos.


Ivan IllichIvan Illich

Comentário meu:

O título do livro Deschooling Society do Ivan Illich me pegou na hora.

Sempre gostei de ler, aprender e pensar. Na escola, nem isso me deixavam fazer em paz. Tinha sempre que parar o que eu tava fazendo e para fazer alguma porcaria que o professor mandava.

Tirando raras exceções (existem algumas), as aulas sempre foram uma tortura. Trabalho em grupo, então, a pior punição: éramos os carrascos e vítimas ao mesmo tempo, pessoas que não têm afinidades, torturando-se mutuamente, em tarefas sem utilidade ou valor pessoal.

Antes "sucesso" era ser bacharel, hoje não é diferencial. Agora todo mundo tem mestrado, já engatando um doutorado, e depois? Até onde vamos nessa bolha de diplomas, nessa corrida por certificados? Gasta-se uma puta grana e um puta tempo, para ter o canudo - consegue o trabalho e não sabe fazer na prática, só se sabe a teoria.

Além disso, o saber está se tornando obsoleto cada vez mais rápido, profissões inteiras desaparecem e outras surgem no intervalo entre começar e terminar uma faculdade.

Sempre trabalhei com informática e muitos recém-formandos em Ciências da Computação, vão trabalhar sem saber programar, modelar banco de dados, administrar redes. Ué estuda 4 anos para quê então? Acontece isso com outros cursos também.

Alguns dos homens mais ricos do mundo criaram fortuna do nada e não têm nem faculdade. Thomas Edison - um dos maiores inventores da humanidade - foi chamado de burro pelo professor, teve que ser ensinado em casa.

Enfim, graças a Deus que me formei e agora nada me atrapalha. Uso meu dinheiro com bons livros, noites para ler, pensar e trocar idéias na net com gente realmente interessada e tentando ver na prática. Saber fazer de verdade, entende?

O sofrimento como aluno me fez ter vontade de dar aulas. Já dei e sei que se sofre dos 2 lados. Não é NADA FÁCIL ser professor, é trabalho para herói. Tem que ter vocação. E o problema é estrutural, não há como o professor sozinho vencer, tudo funciona contra.

Ainda assim, acho que é possível fazer muito melhor do que se vê por aí. O professor deve orientar, inspirar, dividir experiências, fazer pensar... não adestrar.

Trecho do post Eu sou Livre, no LLL:

"Não acredito em estudo. Tirando casos óbvios, como medicina, engenharia e aviação comercial, não vejo o que alguém possa me ensinar que eu não aprenderia melhor sozinho, lendo, refletindo e praticando.

Dá pra aprender mecânica visitando oficinas ao lado de um bom mecânico. Dá pra aprender artes plásticas visitando museus e galerias com um artista.

Acredito no movimento. Não acredito que ninguém possa aprender nada sentado, calado, imóvel e passivo, ao lado de outros moscas-mortas, absorvendo como uma esponja a pseudosabedoria que um professor despeja.

O nome disso é TRANSFERÊNCIA de MEDIOCRIDADE. Obrigado, passo."

Posts aqui no blog sobre educação:

Clipe da Música "Estudo Errado" - Gabriel, o Pensador
Veja a letra da música. MUITO VERDADE!


http://www.youtube.com/watch?v=m08sChqOgYk

Sobre a crítica do Illich ao monopólio médico da saúde, achei muito interessante. Não tenho confiança NENHUMA em médicos. A linguagem difícil, a falta de transparência, o interesse comercial, a sobrecarga/stress e a burocracia nos colocam à mercê da incompetência, da negligência e desumanidade do sistema medicalizado de saúde.

Para doenças simples eu confio muito mais em mim que sou "O" interessado na cura, do que num médico porqueira que não tá nem aí. Mais gente morre em hospitais por descaso ou burrada de alguém, do que por doença.

Queria ter melhor acesso a informações sobre sintomas e doenças relacionadas, e autonomia para em casos simples comprar remédios, solicitar exames, fazer pequenas intervenções - eu mesmo ué.

As pessoas deveriam ser incentivadas a se auto-examinar, auto-diagnosticar, auto-medicar e auto-curar - desde que confiáveis as informações que tiverem acesso. A saúde de uma pessoa é seu interesse máximo, deve ter autonomia e capacidade mínimas de tratá-la.

Minha falta de confiança nos diplomas se estende também quando tenho que visitar advogados, mecânicos, contadores, andar de avião. Diploma não mede competência e indicação mede muitas vezes amizade apenas.

Às vezes nem indicação é fácil de conseguir. Por exemplo, já pedi indicações mas não encontrei mecânico bom e confiável de motos em Campinas-SP.

Até quando vou no cabeleireiro fico preocupado de fazerem alguma cagada - e isso porque sou careca. :-P


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Melhores Trechos sobre o livro "Sociedade sem Escolas":

Fonte: blog do Rafael Reinehr - Ivan Illich - Sociedade Desescolarizada

"A escola nos faz confundir processo com substância, diploma com competência, serviço com valor, fluência no falar com capacidade de dizer algo novo."

"O processo de degradação se acelera quando necessidades não-materiais são transformadas em demandas por mercadorias, quando educação ou saúde física/psicológica são definidas como resultados de serviços ou 'tratamentos'."

"Necessitamos de pesquisas sobre usar a tecnologia para criar instituições que sirvam à interação pessoal, criativa e autônoma."

"A confiança no tratamento instituicional torna suspeita toda e qualquer realização independente"

"A igualdade de oportunidades na educação é meta desejável e realizável, mas confundí-la com obrigatoriedade escolar é confundir salvação com igreja [...] com promessas férteis de salvação aos pobres da era tecnológica"

"Precisamos de uma lei que proíba toda discriminação - na contratação empregatícia, nas eleições, na admissão a centros de aprendizagem - baseada na prévia frequência a determinado curso.

Isto não excluiria a aplicação de testes de qualificação para o exercício de alguma função, mas eliminaria a absurda discriminação em favor das pessoas que conseguiram um diploma sem relação nenhuma com o trabalho concreto."

"A admissão a um programa de aprendizagem pode pressupor competência em outra habilidade, mas não deverá jamais depender do processo pelo qual tais habilidades foram adquiridas"

"Poderia ser providenciado um sistema de crédito educacional em qualquer centro de capacitação, com quantias limitadas, para pessoas de todas as idades, e não apenas para os pobres, entregue a cada cidadão ao nascer.

Para favorecer os pobres que provavelmente não usariam cedo seus subsídios anuais, poderia haver uma cláusula dispondo que haveria certas vantagens para os usuários tardios dos 'direitos' acumulados.

Esses créditos vão permitir que a maioria das pessoas adquiram as habilidades mais demandadas quando quiserem, melhor, mais rapidamente, com menor custo e menos efeitos colaterais indesejáveis do que na escola."

"Uma pessoa exercendo determinada habilidade também poderia ensiná-la. Mas os que exercem habilidades em demanda são desencorajados a partilharem essas habilidades."

"Centros de habilidades que fossem julgados pelos clientes não pelas pessoas que empregam ou pelo processo usado, mas pelos resultados, abririam oportunidades de trabalho, até mesmo para aqueles considerados, agora, inimpregáveis."

"Não há razão para que tais centros não possam estar no próprio local de trabalho, onde o empregador e sua força de trabalho fornecessem instrução, bem como empregos."

"Os instrutores tornam-se escassos por causa da crença no valor dos registros. O certificado constitui uma forma de manipulação mercadológica e é plausível apenas a uma mente escolarizada."

"A maioria dos professores de artes e comércio são menos hábeis, menos inventivos e menos comunicativos que os melhores artesãos e comerciantes."

"A maior parte das habilidades são adquiridas e aperfeiçoadas por exercícios práticos, porque implica o domínio de um proceder definido e previsto. O ensino de habilidades pode basear-se, por isso, na simulação de circunstâncias em que será usada.

Mas a educação do uso das habilidades inventivas não pode basear-se em exercícios práticos.

Deriva de uma relação entre colegas que já possuem algumas das chaves que dão acesso à informação acumulada na e pela comunidade. Baseia-se no esforço crítico dos que usam estas memórias criativamente. Baseia-se na surpresa da pergunta inesperada que abre novas portas para o pesquisador"

"A mais radical alternativa para a escola seria uma rede de serviços que desse a cada homem a mesma oportunidade de partilhar seus interesses com outros motivados pelos mesmos interesses."

"Nem a aprendizagem individual e nem a igualdade social podem ser incrementadas pelo rito escolar. Não podemos superar a sociedade de consumo sem antes compreender que a escola pública obrigatória recria tal sociedade"

"Uma vez que o autodidata foi desacreditado, toda atividade não profissional será suspeita."

Aprendemos na escola que toda aprendizagem profícua é resultado da frequência, que o valor da aprendizagem aumenta com a quantidade de insumo (input) e, finalmente, que este valor pode ser mensurado e documentado por títulos e certificados.

Na realidade, a aprendizagem é a atividade humana menos necessitada de manipulação por outros. Sua maior parte não é resultado da instrução. É, antes, resultado de participação aberta em situações significativas."

"O crescimento pessoal não é coisa mensurável. Nem pelo metro nem por um currículo, nem mesmo comparando com as realizações de qualquer outra pessoa.

Neste tipo de aprendizagem pode alguém rivalizar com os outros apenas em esforço imaginativo, seguir seus passos, mas nunca imitar seu procedimento. A aprendizagem que eu prezo é recriação imensurável."

"As pessoas que se submetem ao padrão dos outros para medir seu crescimento pessoal, não mais precisarão ser colocadas em seu lugar, elas mesmas se colocarão nos cantinhos indicados; tanto se expremerão até caberem no nicho que lhes foi ensinado e, neste mesmo processo, colocarão seus companheiros"

"As pessoas que foram escolarizadas até atingirem o tamanho previsto deixam fugir de suas mãos uma experiência incomensurável. Para elas, tudo o que não puder ser medido torna-se secundário"

"Não é preciso que se lhes roube a criatividade. Sob o jugo da instrução, desaprendem a tomar suas iniciativas e ser elas mesmas. Valorizam apenas o que já foi feito ou o que lhes é permitido fazer."

"Quando as pessoas tem escolarizado na cabeça que os valores podem ser produzidos e mensurados, dispõe-se a aceitar qualquer espécie de hierarquização. Há uma escala para o desenvolvimento das nações, outra para a inteligência dos bebês; até mesmo o progresso em prol da paz pode ser calculado pelo número de mortos."

"O resultado do processo de produção curricular assemelha-se ao de qualquer outro processo mercadológico moderno. É uma embalagem de significados planejados, um pacote de valores, um bem de consumo cuja 'propaganda dirigida' faz com que se torne vendável a um número suficientemente de pessoas para justificar o custo de produção."

"Há uma crescente concentração de capital e trabalho na grande empresa de habilitar o homem para o consumo disciplinado."

"A dissonância que caracteriza muitos jovens de hoje não é tanto de ordem cognoscitiva, mas de atitudes - um sentimento nítido sobre a que uma sociedade tolerável não se pode assemelhar. O supreendente dessa dissonância é a capacidade de um grande número de pessoas de tolerá-la."

"A capacidade de perseguir metas incongruentes requer uma explicação. Segundo Max Gluckman, todas as sociedades possuem recursos para esconder essas dissonâncias de seus membros. Sugere ele que é esta a finalidade dos ritos."

"Enquanto não estivermos conscientes do rito pelo qual a escola modela o progressivo consumidor - o principal recurso da economia - não poderemos quebrar o encanto dessa economia e formar uma nova."

"Todos os planejadores futuristas procuram tornar economicamente possível o que é tecnicamente possível, enquanto recusam encarar a inevitável consequência social: um desejo sempre mais intenso de todos homens pelos bens e serviços que permanecerão sendo privilégio de uns poucos."

"Creio que o futuro promissor dependerá de nossa escolha de uma vida de ação em vez de uma vida de consumo; do nossa capacidade de engendrar um estilo de vida que nos capacitará a sermos espontâneos, independentes, ainda que inter-relacionados, em vez de mantermos um estilo de vida que apenas nos permite fazer e desfazer, produzir e consumir - simplesmente uma pequena estação no caminho para o esgotamento e a poluição do meio-ambiente.

O futuro depende mais da nossa escolha de instituições que incentivem uma vida de ação do que do nosso desenvolvimento de novas ideologias e tecnologias."

"De um lado, o serviço é uma oportunidade ampliada dentro de limites definidos, enquanto o cliente permanece um agente livre.

As instituições do outro lado são geralmente processos de produção complexos e dispendiosos em que a maioria do esforço e gastos são feitos para convencer o consumidor de que não pode viver sem o produto ou o tratamento oferecido pela instituição.

As primeiras tendem a ser redes que facilitam a comunicação ou cooperação dos clientes que tomam a iniciativa.

Nas segundas, há a tendência de se prescrever doses cada vez maiores de tratamento quando as menores não conseguem os resultados almejados. Como podemos observar no caso das escolas, convidam compulsivamente ao uso repetido e frustram as alternativas de obter resultados semelhantes."

"A General Motors e a Ford produzem meios de transporte, mas também manipulam o gosto público de tal forma que a necessidade de transporte vem expressa como demanda por carros particulares e não por ônibus"

"O que vendem, no entanto, não são apenas carros com motores desnecessariamente grandes, artefatos supérfluos, os novos acessórios forçados. Há outros custos não mencionados abertamente ao motorista: as despesas de publicidade e vendas da corporação, combustível, manutenção e peças, seguro, interesse sobre o crédito e outros custos menos perceptíveis como perda de tempo, de paciência e perda de ar respirável em nossas cidades congestionadas."

"A rede telefônica e postal existe para servir aos que desejam usá-la, ao passo que o sistema de rodovias serve, principalmente, como acessório aos carros particulares. Os primeiros são verdadeiros serviços públicos, enquanto o último é um serviço público para donos de carros, caminhões ou ônibus. O sistema de rodovias não se torna disponível de igual maneira para quem está aprendendo a dirigir."

"A escola dá a impressão, à primeira vista, de estar aberta igualmente a todos os aspirantes. Mas, de fato, esta aberta apenas aos que constantemente renovam suas credenciais."

"As rodovias resultam de uma perversão do desejo de locomover-se que se converte em demanda por um carro particular. As próprias escolas pervertem a natural inclinação de crescer e aprender, convertendo-a em demanda pela instrução."

"A escola, fazendo com que os homens abdiquem da responsabilidade por seu crescimento próprio, leva muitos a uma espécie de suicídio espiritual."

"A alternativa radical para ocupar o tempo disponível é um campo limitado de bens mais duradouros e o acesso a instituições que podem aumentar a oportunidade e o proveito da intenção humana."

"A economia de bens duráveis é exatamente o contrário de uma economia baseada na obsolecência planejada. "

"Os bens de consumo têm que ser tais que permitam a máxima oportunidade de agir para com eles: artigos que possam ser armados pelo comprador e que possam ser recuperados e reusados pelo mesmo."

"Na escola, alunos matriculados se submetem a professores diplomados para obter também eles diplomas; ambos são frustrados e ambos responsabilizam a insuficiência de recursos - dinheiro, tempo, instalações - por sua frustração mútua."

"Pessoas quando pressionadas a especificar como adquiriram o que sabem e valorizam, prontamente admitem que o aprenderam, na maioria das vezes, fora e não dentro da escola."

"Em qualquer lugar do mundo o secreto currículo da escolarização inicia o cidadão no mito de que as burocracias guiadas pelo conhecimento científico são eficientes e benévolas."

"Em qualquer parte do mundo este mesmo currículo instila no aluno o mito de que maior produção vai trazer vida melhor. E em qualquer parte do mundo desenvolve o hábito de um consumo contraproducente de serviços e de produção alienante, com a tolerância da dependência institucional e o reconhecimento das hierarquias institucionais."

"Um bom sistema educacional deve ter três propósitos:
  • dar a todos que queiram aprender acesso aos recursos, em qualquer época de sua vida;

  • capacitar a todos que queiram partilhar o que sabem a encontrar os que queiram aprender algo deles e,

  • dar oportunidade a todos os que queiram tornar público um assunto a que tenham possibilidade de que seu desafio seja conhecido."

"Os aprendizes não deveriam ser forçados a um currículo obrigatório ou à discriminação baseada em terem um diploma ou certificado. Nem deveria o povo ser forçado a manter, através de tributação regressiva, um imenso aparato profissional de educadores e edifícios que, de fato, restringem as chances de aprendizagem do povo aos serviços que aquela profissão deseja colocar no mercado.

É preciso usar a tecnologia moderna para tornar a liberdade de expressão, de reunião e imprensa verdadeiramente universais e, portanto, plenamente educativa."

"essas novas instituições devem ser canais aos quais o aprendiz tenha acesso sem credenciais ou linhagem"

"Uma real aprendizagem. A criança se desenvolve num mundo de coisas, rodeada por pessoas que lhe servem de modelo das habilidades e valores. Encontra colegas que a desafiam a interrogar, competir, cooperar e compreender; e, se a criança tiver sorte, estará exposta a confrontações e críticas feitas por um adulto experiente e que realmente se interessa por sua formação. Coisas, modelos, colegas e adultos são quatro recursos; cada um deles requer um diferente tipo de tratamento para assegurar que todos tenham o maior acesso possível a eles."

"O que é preciso são novas redes, imediatamente disponíveis ao público e elaboradas de forma a darem igual oportunidade para a aprendizagem e o ensino."

"Quatro diferentes abordagens que permitam ao estudante ter acesso a todo e qualquer recurso educacional que poderá ajudá-lo obter suas próprias metas:
  • Serviço de consultas a objetos educacionais: que facilitem o acesso a coisas ou processos que concorrem para a aprendizagem formal.

  • Intercâmbio de habilidades: que permite as pessoas relacionarem suas aptidões, dar as condições mediante as quais estão dispostas a servir de modelo para outras que desejem aprender essas aptidões e o endereço em que podem ser encontradas.

  • Encontro de colegas: que possibilite as pessoas descreverem a atividade de aprendizagem em que desejam engajar-se, na esperança de encontrar um parceiro para essa pesquisa.

  • Serviço de consultas a educadores em geral: que podem ser relacionados num diretório dando o endereço e a autodescrição de profissionais, não-profissionais, free-lancers, juntamente com as condições para ter acesso a seus serviços. Tais educadores, como veremos, podem ser escolhidos por votação ou consultando seus clientes anteriores."

"Uma forma bem mais radical seria criar um 'banco' para intercâmbio de habilidades. Cada cidadão receberia um crédito básico para aquisição de habilidades fundamentais. Além desse mínimo, ulteriores créditos iriam para aqueles que os ganhassem ensinando.

Somente os que tivessem ensinado outros por um período de tempo teriam direito a reclamar o tempo equivalente de professores mais adiantados. Surgiria uma elite totalmente nova, uma elite que obteria sua educação partilhando-a."

"Um bom enxadrista fica sempre feliz ao encontrar um bom adversário, da mesma forma um noviço ao encontrar outro. Os clubes servem a esta finalidade.

As pessoas que desejam discutir determinados livros ou artigos, provavelmente pagariam para encontrar parceiros. As pessoas que desejam jogar, fazer excursões, construir tanques de peixes ou motorizar bicicletas andariam grandes distâncias para encontrar parceiros. Sua recompensa seria encontrar esses parceiros.

As boas escolas tentam descobrir os interesses comuns de seus alunos matriculados no mesmo curso. O contrário de escola seria uma instituição que aumentasse as chances de as pessoas que, em dado momento, compartilharam o mesmo interesse específico, pudessem encontrar-se - não importa o que mais tenham em comum."

"O ensino de habilidades é uma repetição contínua de exercícios e é tremendamente monótona para os alunos que mais o necessitam. O intercâmbio de habilidades precisa de dinheiro, crédito ou outros incentivos palpáveis para funcionar.

O sistema de encontro de parceiros não precisa desses incentivos, precisa apenas de uma rede de comunicação. Em muitos casos, fitas, sistemas eletrônicos de informação, instrução programada, reprodução de formas e sons reduzem a necessidade de recorrer a professores humanos; aumentam a eficiência dos professores e o número de habilidades que alguém pode aprender durante a vida."

"Uma rede de encontros de parceiros, publicamente mantida, seria a única maneira de garantir o direito à livre reunião e de treinar o povo no exercício dessa atividade cívica mais fundamental."

"Desescolarizar significa abolir o poder de uma pessoa de obrigar outra a frequentar uma reunião. Também significa o direito de qualquer pessoa, de qualquer idade ou sexo, convocar uma reunião."

"Numa sociedade desescolarizada, os profissionais já não poderão exigir a confiança de seus clientes, baseados no seu diploma, ou confirmar sua reputação remetendo a outros profissionais que certifiquem a escolarização dos primeiros.

Em vez de confiar em profissionais, deveria ser possível, a qualquer tempo e para qualquer cliente potencial, consultar outros clientes de determinado profissional para ver se estavam satisfeitos com ele."

"A revolução educacional deve ser orientada por certos objetivos:
  • Liberar o acesso às coisas, abolindo o controle que pessoas e instituições agora exercem sobre seus valores educacionais.

  • Liberar a partilha de habilidades, garantindo a liberdade de ensiná-las ou exercê-las quando solicitado.

  • Liberar os recursos críticos e criativos das pessoas, devolvendo aos indivíduos a capacidade de convocar e fazer reuniões - capacidade esta sempre mais monopolizada por instituições que dizem falar em nome do povo.

  • Liberar o indivíduo da obrigação de modelar suas expectativas pelos serviços oferecidos por uma profissão estabelecida qualquer - oferecendo-lhe a oportunidade de aproveitar a experiência de seus parceiros e confiar-se ao professor, orientador, conselheiro ou curador de sua escolha."

"A desescolarização da sociedade inevitavelmente tornará imprecisa a distinção entre economia, educação e política sobre a qual repousa a estabilidade da atual ordem do mundo e a estabilidade das nações."
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Ivan Illich
Resumo das idéias de Ivan Illich

Fonte: Vi em um blog que gosto muito - How To Save The World, do Dave Pollard.

O argumento anti-institucional de Illich pode-se dizer que possui 4 aspectos:

1. Crítica ao processo de institucionalização. As sociedades modernas aparecem para criar mais e mais instituições - e grandes áreas da maneira como vivemos nossas vidas tornam-se institucionalizados.

Esse processo fragiliza as pessoas - isso diminui a sua confiança em si mesmas, e na sua capacidade de resolver problemas.

Ele mata convívio [social, sociável, alegre]. Instituições criam necessidades e controlam as satisfações dela, e assim tornam o ser humano em objetos e matam sua criatividade.

2. Crítica aos especialistas e à profissionalização. Foi definida no livro Desativando Profissões (Disabling Professions) e na sua exploração da expropriação da saúde no livro Nêmesis da Medicina (Medical Nemesis).

A instituição médica tem se tornado uma grande ameaça para a saúde. Obscurece as condições políticas que tornam a sociedade insalubre, e tende a expropriar o poder dos indivíduos para se curar e moldar o seu ambiente.

Especialistas tendem a formarem "cartéis" pela "criação de barreiras institucionais". Os especialistas decidem que conhecimento é válido e legítimo, e como a sua aquisição é sancionada.

Illich disse: "Chegou a hora de tirar das mãos do médico a seringa, como se tirou a pena das dos escritores durante a Reforma.

A maioria das doenças que temos hoje em dia podem ser diagnosticadas e tratadas por pessoas comuns.

Para a maioria essa declaração é muito difícil de ser aceita, porque a complexidade do ritual médico lhes ocultou a simplicidade de seus próprios instrumentos básicos..."


3. Crítica à commoditização. Os profissionais e as instituições tendem a definir uma atividade em que trabalham, por exemplo a aprendizagem, como uma mercadoria (educação), cuja produção eles monopolizam, cuja distribuição restringem, e cujo preço se elevar além da renda do cidadão comum.

Escolarização - A produção de conhecimento, a mercadorização desse conhecimento. A escola leva a sociedade a acreditar que esse conhecimento é higiênico, puro e respeitável, produzido por mentes humanas e disponível no estoque.

Tornando obrigatória a escola, as pessoas são educados a acreditar que o indivíduo auto-didata é deve ser discriminado, que o aprendizado e o crescimento da capacidade cognitiva requerem um processo de consumo dos serviços apresentados em uma forma industrial, planejada, forma profissional, que a aprendizagem é uma coisa, em vez de uma atividade.

Uma coisa que pode ser acumulada e medida, cuja posse é a medida da produtividade do indivíduo dentro da sociedade, ou seja, do seu valor social.

Aprendizado torna-se uma mercadoria e, como qualquer mercadoria que é comercializada, precisa ser "escassa" para aumentar seu valor.

É uma crítica às sociedades industriais modernas nos orientam em direção do "ter, acumular" - onde as pessoas se concentram e se organizam em torno da posse de objetos materiais.

Abordam a aprendizagem como uma forma de aquisição. O conhecimento torna-se uma posse, a ser explorada, em vez de um aspecto do ser no mundo.

4. O princípio da Contraprodutividade. É o meio pelo qual um processo benéfico é transformado em um negativo. Depois que atinge certo limiar, o processo de institucionalização se torna contraproducente.

É uma idéia que Illich aplica a diferentes contextos. Por exemplo, com relação a viagens, ele argumenta que, além de uma velocidade crítica, "veículos motorizados criam o distanciamento que só eles podem encolher".

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Trechos de seu livro de 1975 "Ferramentas para o convívio" (Tools for Conviviality), sobre como resolver a crise ambiental:

Convívio, Ivan Illich argumentava, envolve "a relação autônoma e criativa entre as pessoas e as relações das pessoas com seu meio ambiente".

Três tendências têm sido realmente identificadas, que tendem a perturbar o equilíbrio entre o homem e o ambiente:
  • Superpopulação: torna as pessoas mais dependentes de recursos limitados.
  • Consumo excessivo: compele cada pessoa a usar mais energia.
  • Tecnologias Ineficientes: que tem baixo aproveitamento de energia, alto custo e efeitos colaterais indesejados.
Apenas duas questões centrais devem ser discutidos:

(1) Para decidir qual fator ou tendência degradou o ambiente mais , e que vai impor o fator de maior pressão sobre o ambiente durante os próximos anos

(2) Para decidir qual fator merece mais atenção, porque podemos de alguma forma, reduzir ou invertê-lo.

A honestidade exige que cada um de nós reconheça a necessidade de limitar a procriação, o consumo e o desperdício, mas também temos de reduzir radicalmente nossas expectativas de que as máquinas vão fazer todo o trabalho para nós e de que professores nos farão aprender ou de que terapias nos tornarão saudáveis.

Devemos encarar o fato de que o desequilíbrio entre o homem e o meio ambiente é apenas uma de várias distorções que se reforçam mutuamente, cada uma distorcendo o equilíbrio da vida em uma dimensão diferente.

Nesta perspectiva, a superpopulação é o resultado de uma distorção no balanço da aprendizagem, o consumismo é o resultado de um monopólio radical sobre os valores institucionais sobre valores pessoais e tecnologia ineficiente é consequência de uma transformação de meios em fins.

Burocraticamente garantida a sobrevivência em tais circunstâncias, a expansão da economia industrial para o ponto onde um sistema de planejamento central de produção e reprodução é identificada com a evolução guiada à Terra.

Se essa solução torna-se uma mentalidade industrial geralmente aceita como a única forma de preservar um ambiente viável, a preservação do meio físico pode ser a justificativa para um Leviatã burocrático com alavancas que regulam os níveis de reprodução humana, a expectativa, a produção e o consumo.

A crença na possibilidade desse desenvolvimento, se baseia em uma suposição errônea, como disse Marcuse em "O homem unidimensional ", a conquista histórica da ciência e da tecnologia tornou possível a conversão dos valores em funções técnicas - a materialização de valores. O que está em jogo é a redefinição dos valores.

Envolvido em um ambiente físico, social e psicológico de sua própria criação, o homem está se tornando um prisioneiro no reservatório de tecnologia, incapaz de encontrar novamente o ambiente antigo para o qual foi adaptado por centenas de milhares de anos.

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Seria o problema com a maioria das soluções para nossas crises atuais, que são de base institucional, quando o que é necessário, seriam soluções orgânicas não-institucionais?

Em vez de estarmos obcecados com "construir algo melhor" deveríamos antes focar antes nas "ferramentas de desconstrução" que nos libertará das instituições, sistemas de governo e empresarial?

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Uma frase do grande Buckminster Fuller:

"Você nunca mudará as coisas lutando com a realidade existente.

Para mudar algo, construa um novo modelo que torne obsoleto o modelo existente.

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Ivan Illich
Para descontrair:
YouTube - Prof. Gilmar dá esporro em aluno (Bando de badernista)




Leia online a principal obra de Ivan Illich:

Ivan Illich - Sociedade Sem Escolas (Deschooling Society)

Outros escritos/obras dele. Fonte: Ivan Illich Archives



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9 comentários:

Thatiana Carvalho disse...

Claro que vc ia se identificar! rs
E pelo visto super se empolgou tb!!!
E td faz sentido...
Bjo, Nicholas!

Anônimo disse...

Discordo radicalmente de tudo q você falou.
Algumas escolas são ruins outras boas. Eu sou muito grato a minha educação e tenho muito orgulho de ter estudado na Unicamp q sempre estimulou a minha criatividade. Generalizar todas as escolas é perigoso, já que muitas formam o alicerce da sociedade. O Paulo Francis dizia q as escolas tem que ser elitizadas. Elitizadas por cérebros! Não acredito q escola seja pra todos, pois algumas pessoas não possuem aptidão pra ensino. Não, não são burras, apenas possuem outras aptidões que não exigem treinamento acadêmico. Quanto ao fato de você não confiar em médicos... Eu sou casado com uma médica, e minha esposa chora toda vez q um paciente no hospital morre! Chora prq ela tentou o máximo q pode pra salvar a vida do paciente. Novamente a generalização não faz justiça aos bons profissionais. Em medicina assim como em educação os problemas são sistêmicos. Talvez o esquema de escolas, e hospitais não seja o melhor, mas por hora não vemos alternativas melhores e a crítica ao sistema sem proposta de solução para o problema é vazia. Quais são as alternativas para a falta de escola e medicina? Poucas!

Nícholas Fernandes Gimenes disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Priscila Lima disse...

olá Nicholas
gostei da postagem!

a educação e o ensino passou por muitas fases...
sabemos que no Brasil
as escolas públicas precisam de algumas mudanças,
mas acredito que a mudança maior é na atitude dos educadores:
(pais e professores)
tenho dois filhos,
e estudam em escola pública
eles gostam de aprender,
sempre tem meu insentivo.
mas se eu ou eles relaxarem
não vai aprender nada.
acredito que a força de vontade de cada um conta muito!
minha mãe me ensinou muita coisa e ela fez só até a 4ºsérie.
temos muitos recursos hoje em dia e devemos aproveitar a sede de conhecimento e fortalece-la!
certo?!

God BLess!


abraço das conchinhas

www.conchasbelas.blogspot.com

www.ontem-sonhei.blogspot.com

Priscila Lima
Paraty - R.J

Ivana Maria disse...

Obrigada por me apresentar as idéias de Ivan Illich. No mínimo provocativas. O seu texto tb foi ótimo. Disse muita coisa que pensamos. Embora algum profissional possa sentir-se ofendido, não deveria. Sou uma educadora e tenho plena consciência dos meus valores mas não sou hipócrita de defender que a maioria dos profissionais da educação são pessoas totalmente comprometidas com o sucesso dos seus alunos. Tb não fico mesmo muito confiante com médico; mecânico; plolicial e outros profissionais. Disse tudo, muito bem dito, Nicholas, a crua realidade, certamente gostaríamos que assim não fosse.

Ana disse...

Sem querer ser chata ou excessivamente conservadora, maaaas... Ideias assim (refiro-me à parte que fala sobre a educação) funcionam muito bem para quem, como você ou o próprio autor dos textos, tem sede de conhecimento, gosta de aprender e quer sempre se melhorar. Mas e o que fazer com os preguiçosos mentais, os medíocres, ou aqueles que até têm certo potencial mas simplesmente precisam de "um empurrãozinho"? Olha, não sei, são ideias modernas demais para uma sociedade ainda tão mesquinha. Não duvido que este método daria muito certo para pessoas com o perfil que eu citei, mas infelizmente, pessoas assim constituem uma minoria. Até acho que é hora de repensar a educação, mas acho que não é bem por aí... De qualquer forma, é só minha opinião. Sou filha de professora e cresci conhecendo a realidade das escolas. Pode até ser que o sistema realmente esteja um pouquinho ultrapassado, mas a classe estudantil também não ajuda, viu? "Na minha época" os alunos já eram terríveis, desinteressados e desrespeitosos... E olha que naquele tempo, ou ao menos no lugar onde eu estudei e cresci, não existia essa história de adolescente bebendo, fumando e fazendo sexo descontroladamente. Imagine como a situação não está hoje, logo hoje, que o jovem tem tanta liberdade? Acho que essa questão tem mais a ver com a mentalidade das pessoas que com a própria fórmula estrutural da educação como um todo... Enfim, o grande problema do Brasil é esse mesmo, é a mentalidade. É uma pena que isso não se muda com leis e política. Mas é isso aí. Assim caminha a humanidade, um dia chegamos lá.

Sidiney Rodrigues disse...

Nas escolas, aprende-se e ensina-se várias Escolas, de muitas outras escolas. São escolas de nomes variados, tantas Escolas. A exceção da instituição física, não é regra para a não existência de uma escola.

Sidiney Rodrigues disse...

Oi meu caro.

Falei das escolas, tentando diferenciá-las de forma etimológica. Lugares de aprender e reaprender existem sim. A sociedade sem escolas de Illich, não necessariamente é acompanhada de somente uma estruturação. Mas de um conjunto e associação de Pensadores que podem contribuir e descontribuir com fundação pedagógicas suspeitas.

su lourencio disse...

Adorei e concordo com sua "empolgação" com as idéias de Ivan Ilitch!

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