14.10.14

Livro "Utopia e Paixão - A Política do Cotidiano", Roberto Freire e Fausto Brito

Não consegui frear minha curiosidade e fui de cabeça nos livros do Roberto Freire.

Li esse "Utopia e Paixão - A Política do Cotidiano", terminei também o "SOMA - uma terapia anarquista vol. 3", que é um resumo sobre a Somaterapia... só depois vi que era o mesmo texto do apêndice do livro "Eu é um outro".

Os próximos da minha lista ler-urgente são "SOMA - uma terapia anarquista vol. 2", "Coiote", "O Tesão e o Sonho" e "Pedagogia Libertária".

"Cléo e Daniel" deve ser muito massa, mas aí vai ter que ficar mais para frente... :-/


Sinopse do Livro
(para não perder tempo, fiz uma mistureba
do que tinha no livro e no site somaterapia.com.br)


O livro é fruto das reflexões gravadas entre os autores num momento em que Roberto Freire encontrava-se temporariamente cego. Lançando mão de suas ferramentas de trabalho — a psicologia, a pedagogia, a sociologia e, sobretudo, suas paixões e utopias - Roberto e Fausto procuram compreender e curtir o mundo pela dinâmica do cotidiano,  onde, acreditam, poderá haver uma verdadeira revolução.

Os autores questionam o autoritarismo que permeia o conjunto das relações sociais, a família, as relações afetivas, a escola, os meios de comunicação de massa, o Estado e os partidos políticos. A despolitização das relações sociais e vivência da política sem paixão são identificados como os alicerces do autoritarismo. E propõem uma política do cotidiano com forma de escapar das contradições e descaminhos da política tradicional.


Trechos que gostei muito:

Não há nada mais incômodo, desagradável e pertubador para uma sociedade autoritária e sob a ideologia do sacrifício, do que um homem alegre. A alegria é uma agressão e ofende porque provoca inveja e rompe pactos de mediocridade. O homem saudável é um revolucionário e alegre.

Não temos conhecimento de que a liberdade já tenha sido conquistada de geral para o particular, do social para o pessoal. O que a história mostra é exatamente o contrário. E isso é fácil de entender. Por que ser livre, para nós, parece um ato essencialmente de insubmissão e de afirmação da originalidade única da pessoa. A única liberdade que nos serve é a que conquistamos, não a que nos doam, vendem ou emprestam. Só podemos ser livres ás nossas custas. Podemos conquistar juntos a liberdade, mas vamos usá-la cada um a seu jeito.

Mais ainda: a busca da liberdade é algo permanente, sua conquista é incessante. suas razões mudam com o tempo, assim como os que pretendem impedir a realização da liberdade de cada um ou de todos.

Ser livre agora não garante, pois, que sejamos amanhã. Ser livre é um processo contínuo de ir a luta para garantir as conquistas já feitas e ampliá-las. É isso mesmo o que parece ser nossa liberdade: uma conquista, nunca um direito assegurado.

Não há dilema existencial para quem vive o aqui e agora. A tendência a nos evadirmos do espaço e tempo em que estamos inseridos é enorme. Recusamos o que temos, o que somos e onde estamos sem criar algo novo, sem a aventura de novos caminhos a não ser em fantasias. Somos deste mundo, deste lugar, mas acabamos morando em um castelo imaginário – construído pelas nossas frustações e pela incapacidade de mudar a rota de nossas vidas. O que fazemos (os papéis não nos gratificam) não correspondem à nossa espontaniedade.

Há uma questão delicada, mas cuja dimensão é imprescindível: a necessidade da ordem. Ela é necessária, não como imposição externa mas como algo que vem de dentro, ou seja, uma ordem que possibilite o exercício da criatividade, da espontaneidade. Pode ser anárquica, não preestabelecida, pode ser uma ordem em permanente mutação, surgindo sempre renovada no próprio exercício da descoberta dos melhores caminhos da liberação individual e da libertação coletiva.

Mas para encontrar uma ordem assim necessária, exigem-se lideranças. E esta é outra questão extremamente controvertida e nada tem a ver com o autoritarismo inerente ao conceito de vanguarda, tão comum entre as esquerdas. A liderança tem de ser espontânea, emergente, surgida no meio social apenas para ajudar o grupo a resolver dificuldades. A única liderança necessária é a espontânea e não pode ser forjada pela vontade autoritária de ninguém. Surge numa hora certa para desempenhar determinada função. Liderar é uma questão de originalidade e criatividade específicas. Nenhuma liderança pode se cristalizar. O motorista de táxi lidera nossas ações até o fim do itinerário. Depois, está dispensado.

Conforme as necessidades da vida social, surgem outras lideranças adequadas às novas situações. As lideranças são sucessivas, alternam-se em função da alternância de situações e crises, devem estar sempre disponíveis e, naturalmente, são descartáveis.  Liderança é um tipo de especialização provisória. Algumas pessoas estão mais habituadas a resolver determinado tipo de problema devido às características de suas personalidades ou em função de algum treinamento. Liderar significa servir, não comandar. Dá prazer, mas não oferece nenhuma sensação de poder. Prazer de desatolar um carro e não de possuí-lo.

O perigo está no autoritarismo e ele começa quando as lideranças se cristalizam, ultrapassando os limites do necessário, impondo-se, estabelecendo relações de dominação. Nesta perspectiva, a liderança para nós não é o que conduz, mas o que catalisa. Mais ainda: ela é mutante, passageira, jamais vai se institucionalizar. Ninguém poderá dizer assim: nesse grupo o líder é fulano. Depende do problema em questão e da situação do grupo liderança não é onipotência nem onipresença. É apenas um ato de amor e de sobrevivência comuns, como o dos bombeiros, porque são pagos para isso, ou dos sandinistas, porque acabaram com Somoza a todo preço. Liderança heróica, do tipo intelectual histórica, sempre deu em ditadura e mais repressão sobre o povo, o que chamamos de fascismo romântico.

Para implantar uma política do cotidiano é preciso que as pessoas se protejam do autoritarismo externo e do já interiorizado, que é secundário mas tão violento como o primeiro.

Mas como conseguir transformar essas estratégias individuais de liberação do autoritarismo em movimentos coletivos? Não se trata de desenvolver uma profilaxia somente no sentido de evitar os males do autoritarismo. Muito pelo contrário, trata-se de estimular a liberação. Em outras palavras: estamos mais interessados em estimular a saúde do que em evitar as doenças

Na verdade, temos então de encontrar uma pedagogia alternativa, mas não somente para experimentá-la em grupos terapêuticos ou em salas de aula. Temos de pensar em movimentos sociais articulados a partir de uma pedagogia realmente libertária. Assim também podemos repensar todas as instituições consideradas políticas, convencionalmente ou não. O sindicato, por exemplo, uma instituição indiscutivelmente fundamental, pode perfeitamente funcionar sob a base de uma pedagogia libertária, isto é, fundada no antiautoritarismo e na autogestão. Não precisamos fugir das chamadas instituições políticas convencionais, enquanto não as pudermos destruir, mas podemos semear dentro delas o germe do antiautoritarismo, independente das contradições que isso possa gerar.

Devemos levar em conta que a maior parte da população não consegue ainda a satisfação de suas necessidades básicas no plano material, isto é, alimentação, habitação, saúde etc. Ao mesmo tempo, sabemos que algumas experiências sociais, entre as quais destacam-se as de alguns países socialistas, não transformaram as classes antes desfavorecidas em libertárias, ou seja, em busca permanente da liberação individual dentro da libertação coletiva.

É trágico observar que nas experiências socialistas o Estado deu algumas das condições básicas de sobrevivência mas cobrou um preço altíssimo por isso: a submissão da sociedade ao Estado. Dava-se o básico, mas se impedia a conquista do essencial.

Através de mecanismos psicológicos de projeção e identificação, a pessoa que tem sua liberdade (originalidade, espontaneidade, criatividade) bloqueada por processos autoritários familiares e pedagógicos de natureza política, passa a viver como um parasita da liberdade da pessoa que mitifica. Para que a pessoa acredite em um mito é preciso que haja nela a ausência de crítica e autocrítica. O que freqüentemente se observa na mitificação é a progressiva perda de identidade da pessoa e o aparecimento das danosas conseqüências emocionais e psicológicas para a sua personalidade.

Na sociedade de consumo e nos Estados autoritários, a criação de mitos artísticos, esportivos e políticos é uma forma importante de exercer controle sobre as massas. Em resumo: a idolatria, a mitificação, são mistificações alienantes, visando abolir, diminuir e anestesiar a originalidade das pessoas, tornando-as menos críticas e mais indefesas em relação aos processos políticos de dominação autoritária.

Os meios de comunicação de massa, a TV em particular, são programados como poderosos meios de controle social, estimulando não só a desinformação — o que é óbvio pelos noticiários — mas também produzindo alienação através do falso real, como o das novelas, por exemplo.

O que Freud chamou de instinto de morte é algo que existe, evidentemente. Mas não é instinto e sim uma manifestação agressiva que surge em função das dificuldades de realização pessoal no meio social e dos defeitos da organização social. Se o homem for liberto, estiver liberto, ele vai funcionar bem, acionado pelo instinto de vida, o único realmente primário no homem.

Na verdade, o perigo está no homem reprimido. É a repressão que produz, secundariamente, a necessidade de morte, de destruição, o descontrole, o caos. A liberação produz o contrário: o prazer, a necessidade do outro, a agressividade necessária não à destruição, mas à realização da espontaneidade.


"É chegado o momento de acrescentarmos ao tempo e ao espaço mais uma dimensão fundamental à vida no Universo: o Tesão, o estar física e emocionalmente em prontidão, alertas, atentos, disponíveis, sintonizados, sensibilizados, sensorializados, sensualizados a todos os estímulos internos e externos da vida cotidiana [...]

na sociedade burguesa os mortos comandam os vivos, num processo de desvivência progressiva, contra o qual, nós, os que optamos pela ideologia do tesão, temos de nos insurgir [...]


é a principal arma que dispomos para lutar contra todas as tentativas de nos imporem as dependências, as limitações e as culpas [...]"

- Roberto Freire, livro "Sem Tesão Não Há Solução"

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