19.2.15

Livro "A Loucura do Trabalho" - Christophe Dejours

Várias coisas para postar, principalmente viagens e livros, mas a vida está a mil por hora... por enquanto não estou conseguindo atualizar aqui.

Mas, não posso deixar passar esse "A Loucura do Trabalho", tenho que comentar rapidinho.. livro INCRÍVEL! :)



Quando comecei a ler, lembrei do comentário do Scott Adams, criador do Dilbert: "por mais absurdas que fossem as tirinhas que eu desenhava, sempre encontrava alguém que dizia: 'a empresa em que eu trabalho é exatamente assim'" :)

Dejours, psiquiatra e psicanalista, longe de ser tragicômico como o Scott Adams, trata com seriedade da imensa carga de sofrimento psíquico infligida pela organização do trabalho na maioria das fábricas e escritórios - acarretando em insatisfação, estratégias de resistência, esgotamento, alienação, doenças mentais e físicas.

Aponta os mecanismos de defesa coletivos e individuais desenvolvidos pelos trabalhadores para proteger sua saúde mental, menciona diferentes tipos de sofrimento, explica como padrões sempre progressivos e procedimentos deixam completamente sem espaço as necessidades específicas de cada indivíduo.

Discute como as contradições, o medo de ameaças reais e supostas, a ansiedade, a agressividade, a competição, a exigência progressiva de performance, os comportamentos condicionados... continuam além da empresa, transbordam para as demais áreas da vida, corroendo a saúde mental e física do trabalhador. Comenta também motivos que levam os trabalhadores das indústrias perigosas a ignorar ou até desafiar as instruções de prevenção de acidentes.

Mostra que não adianta as condições externas do trabalho serem ótimas, se a forma como o trabalho é organizado é incompatível e violenta com a estrutura mental das pessoas. Exemplifica como muitas supostas melhorias tem efeito contrário ao bem-estar do trabalhador. Apresenta também um caso interessante de exceção: pilotos de caça.

Destaca ainda que esse sofrimento - como a frustração, a ansiedade, os conflitos nas relações de trabalho - é deliberadamente explorado, uma vez que pode levar a aumentos de produtividade no curto prazo, mesmo com seus efeitos nefastos à longo prazo.

No início do livro é apresentada uma visão histórica da preocupação e dos estudos sobre a saúde geral dos trabalhadores, e como a psicopatologia no trabalho passou ao largo das pesquisas. Usa vários exemplos e trechos tocantes de falas dos trabalhadores de vários setores, como construção civil, telefonistas, escritórios de contabilidade, indústria química, automobilística, etc.

Mais para o final, indica a tendência de taylorização em cada vez mais atividades (como enfermagem, artes, educação) e pontos chaves para pensar novos caminhos na organização do trabalho, a fim de que seja mais uma fonte de satisfação e de realização do potencial humano; do que tortura, degradação mental e física.

No último capítulo, expõe de forma esquemática a metodologia de suas pesquisas sobre sofrimento psíquico no trabalho, que muitas vezes fica escondido por debaixo do medo e da vergonha dos funcionários.

Embora não seja possível quantificar o custo desse sofrimento e esgotamento, que ocupa quase toda a vida da maioria das pessoas, não é absurdo supor que, tragicamente, não há desperdício maior no mundo do que o potencial humano, e que para mudar nossa sociedade doente é preciso experimentar formas alternativas de organizar o trabalho.

Livro barato, curto, bem escrito e fundamentado, fácil de ler, tema importante e urgente. Vontade de imprimir e distribuir nos MBAs e nas portas das fábricas.

Agora comecei a ler o outro dele, "A Banalização da Injustiça Social", no qual se aprofunda ainda mais nessas questões. Está sensacional! Quando eu terminá-lo, vou comentar por aqui ;)



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