6.3.15

Livro "A Banalização da Injustiça Social" - Christophe Dejours

Mais um livro super relevante que veio do cabeção do Dejours. :-P



Nesse, ele tenta dar uma resposta a questão que muitos fazemos "Por que a maioria das pessoas tolera um sistema que gera tanto sofrimento e injustiça? Por que, sendo vítimas, não apenas toleram, como ainda contribuem ativamente para o sistema opressivo que dizem repudiar? Por que não se solidarizam e até mesmo infligem sofrimentos aos outros? Por que está ocorrendo esse processo de banalização do mal, no qual as pessoas não mais se importam, não se mobilizam?".

Isso sempre me intrigou muito, principalmente no que se refere ao meu próprio comportamento. E tem também a conivência da crise ambiental e a emblemática do nazismo (longe de ser caso único ou coisa antiga), na qual atrocidades contaram com uma colaboração ativa da população.

A hipótese do Dejours é de que o trabalho tem um papel essencial nesse processo. Segundo ele, a forma como o trabalho é organizado e a imensa carga de sofrimento psíquico que gera, demanda mecanismos de defesa individuais e coletivos, que agravam a alienação e vão minando a capacidade de mobilização das pessoas. Aqui, ele utiliza e desenvolve os argumentos do seu livro incrível "A Loucura do Trabalho", relacionando-os com o processo de banalização do mal.

Demonstra também como esse processo vai sendo mantido pela difusão do medo e da vergonha, pela negação do sofrimento, pela valorização da virilidade, pela racionalização do mal e por mentiras institucionalizadas.

Durante todo o livro, faz paralelos com o Nazismo, que teve a colaboração ativa de toda uma população de pessoas comuns, "boas", resultando em atrocidades que causam perplexidade até hoje.

Discute as polêmicas reflexões da Hannah Arendt sobre a banalidade do mal (foi ela que cunhou a expressão), no famoso caso Eichmann, julgamento de um chefe nas operações de execução de judeus. Pelos depoimentos, ele mostrava ser uma pessoa banal e diligente, com o pensamento suspenso sem ser movido por uma intenção antissemita, como a maioria ali, seguindo ordens dentro de uma máquina maior, ao invés de ter uma responsabilidade individual.

Ao final, enfatiza que para desbanalizarmos o mal é fundamental atacarmos as causas de sofrimento psíquico e físico no trabalho, a alienação, a bobeira da virilidade e as mentiras institucionalizadas, para que voltemos a nos sensibilizar, parar de contribuir e nos mobilizar, e quem sabe, transformar essa sociedade doente em que vivemos.

Enfim, o livro é mais legal do que essa resenha. Emoticon tongue ah, lembrei de algumas coisas tb:

"Mais crimes são cometidos em nome da obediência do que da desobediência. O perigo real são as pessoas que obedecem cegamente qualquer autoridade. [...] O maiores crimes do mundo não foram feitos por pessoas que quebram regras. Mas sim por pessoas que, seguindo ordens, despejam bombas e massacram vilarejos"
- Banksy

"Quero para já, se possível, esclarecer tão-somente o fato de tantos homens, tantas vilas, cidades e nações suportarem às vezes um tirano que não tem outro poder de prejudicá-los enquanto eles quiserem suportá-lo; que só lhes pode fazer mal enquanto eles preferem agüentá-lo a contrariá-lo.
Digno de espanto, se bem que vulgaríssimo, e tão doloroso quanto impressionante, é ver milhões de homens a servir, miseravelmente curvados ao peso do jugo, esmagados não por uma força muito grande, mas aparentemente dominados e encantados"
- Etienne de La Boétie, Discurso sobre a Servidão Voluntária


Veja também:

Resenha do Livro "A Loucura do Trabalho" - Christophe Dejours

Resumo do Livro "A mais pura verdade sobre a Desonestidade" - Dan Ariely


Experiência da Obediência de Stanley Milgram - YouTube

Wilhelm Reich - Psicologia de Massas do Fascismo

Cena do Filme Rede de Intrigas



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