18.3.15

Livro "Gestão como Doença Social" - Vincent de Gaulejac

Dando sequência a minha saga para entender por que todo mundo está ficando louco - work edition -  rs terminei essa semana o livro Gestão como Doença Social, do Vincent de Gaulejac.

 
Na primeira parte do livro, ele afirma que o paradigma atual da gestão, apesar de uma aparente racionalidade e imparcialidade, não é isento nem é a forma definitiva de se organizar o trabalho.

Configura-se mais em uma ideologia, que apesar dos benefícios (progresso técnico inegável), descarta muito da complexidade humana, gera, dissimula, naturaliza e externaliza muitos prejuízos, e sua difusão converte cada vez mais áreas a seu serviço (corrigindo: de uma hiper elite, interessada apenas nos ganhos do mercado financeiro global).

A educação, as famílias, a saúde, as artes, a política e todo tempo livre passam a ser dedicados a  produzir apenas indivíduos empregáveis e tirar entraves ao crescimento econômico das empresas, sob a justificativa de sobrevivência na Guerra Econômica, sendo o único caminho possível a intensificação da luta.

O foco apenas na rentabilidade crescente impõe uma postura de "fins justificam os meios" e uma visão de curto-prazo, seja alcançada pela destruição do meio-ambiente ou pela precarização das condições de trabalho, por exemplo.

Ainda na primeira parte, aponta os paradoxos e critica os principais fundamentos em que a ideologia se baseia para ganhar adeptos: a aparente racionalidade, a imparcialidade dos números, o ser humano como recurso, a ilusão da qualidade total, inovação vs normalização, autonomia vs controle, desempenho vs redução de custos, mais engajamento do funcionário vs menos comprometimento da empresa, etc.

Na segunda parte, aponta porque esse ambiente paradoxal, de guerra permanente e exigências crescentes produz doenças, dentre os principais fatores desencadeadores: falta de sentido, contradições, mecanismos de vício, individualização, alienação, inibição da criatividade, estresse, esgotamento, assédios e estímulo à agressividade (sem vazão, é direcionada a colegas e a si mesmo).

Ao final, tenta delinear alguns caminhos, indo na direção de uma visão mais ampla do ser humano, levando em consideração o que ciências sociais já sabem (antropologia, psicologia, sociologia) e também a subjetividade dos trabalhadores, introduzindo mais diálogo, transparência, participação, autonomia e sentido, com vista na sustentabilidade e bem comum a longo prazo, mais do que na rentabilidade financeira de curto prazo.

Grifei quase o livro inteiro. Abaixo, vai alguns trechos, vídeo de uma entrevista muito boa e outras referências. Próxima etapa será ler mais sobre Auto-Gestão e Colaboração, o próximo livro na minha lista é o "Juntos", do Richard Sennett.


Melhores Trechos:

Essa cultura do alto desempenho, porém, e o clima de competição generalizada, põe o mundo sob pressão. O assédio se banaliza, acarretando o esgotamento profissional, o estresse e o sofrimento no trabalho. A sociedade é apenas um mercado, um campo de batalha insensata, em que o remédio proposto aos malefícios da guerra econômica consiste sempre em agravar a luta.

A guerra econômica substituiu a guerra fria [...] Em tempo de guerra, a moral habitual não entra cm questão. Pode-se matar, desculpar os excessos, admitir os maus-tratos, tolerar certas violências. Pode-se até considerar que a mentira é estratégica, que a deslealdade é necessária, que a dupla linguagem é uma condição da vitória. Nesse contexto, a pressão para melhorar a rentabilidade é contínua. A prática generalizada das demissões, as violações do direito do trabalho e até o cerco social não são verdadeiramente repreensíveis, pois são necessários para o sucesso da empresa e, portanto, para sua sobrevivência.

Parece-nos crucial compreender profundamente com situações, que levam assim, a cada dia, homens e mulheres equilibrados, de boa vontade, a produzir tal violência. Compreender e analisar por que a empresa se tornou um mundo guerreiro e destrutivo, ao mesmo tempo suscitando a adesão de seus membros. Atingir os fundamentos da “luta dos lugares” que se desenvolve no coração de nossas sociedades. Compreender por que, enquanto a riqueza não pára de aumentar, a vida parece sempre mais difícil para muitos.

A gestão gerencialista é uma mistura não só de regras racionais, de prescrições precisas, de instrumentos de medida sofisticados, de técnicas de avaliação objetivas, mas também de regras irracionais, de prescrições irrealistas, de painéis de bordo inaplicáveis e de julgamentos arbitrários. Por trás da racionalidade fria e “objetiva” dos números dissimula-se um projeto “quantofrênico” (a obsessão do número) que faz os homens perderem o senso da medida.

Sob uma aparência objetiva, operatória e pragmática a gestão gerencialista é uma ideologia que traduz as atividades humanas em indicadores de desempenhos, e esses desempenhos em custos ou em benefícios. Indo buscar do lado das ciências exatas uma cientificidade que elas não puderam conquistar por si mesmas, as ciências da gestão [...] legitimam um pensamento objetivista, utilitarista, racionalista e positivista. Constroem uma representação do humano como um recurso a serviço da empresa, contribuindo, assim, para sua instrumentalização.

Aqui tocamos na ambiguidade permanente do poder gerencialista, que reside na defasagem entre as intenções anunciadas de autonomia, de inovação, de criatividade, de desabrochamento no trabalho, e a aplicação de dispositivos organizacionais, produtores de prescrição, de normalização, de objetivação, de instrumentalização e de dependência.

Hoje, as consequências psicopatológicas são conhecidas. Particularmente, a depressão o esgotamento profissional e o vício ao trabalho. A depressão é frequentemente larvar, dissimulada, pois é preciso parecer estar bem, sempre em forma. A pessoa ressente um mal-estar contínuo, uma “repulsa”, um sentimento de lassidão, a impressão de não aguentar. Ela não se sente de fato doente [...] Os psiquiatras recebem cada vez mais pacientes “drogados” por sua atividade profissional.

Os work addicts desenvolvem uma relação de dependência do trabalho, apresentando os mesmos sintomas que os drogados. Em um primeiro tempo, o hiperativismo, tem efeitos psicoestimulantes: hiperestimulação sensorial, ilusões narcísicas, forte reforço grupal sobre a empresa, fantasia de fusão entre o Ego e o Ideal, etc. Rapidamente, porém, outros efeitos se fazem sentir, como a impossibilidade de se descontrair, a necessidade incoercível de atividade, a dor-de-cabeça dos fins de semana, a angústia das férias, o enfraquecimento das capacidades criativas.

Um contexto violento e paradoxal, no qual as regras do jogo são incertas, o quadro instável, as formas de sanção ou de reconhecimento são incertas, as promessas não são mantidas, pode suscitar comportamentos sadomasoquistas, sentimento de onipotência para uns, submissão incondicional para os outros, e muitas outras formas dc perversões. Sabemos que a prática da dupla linguagem pode produzir loucura. Quando o conjunto do sistema de organização se torna paradoxal, quando ele se apresenta como perfeitamente racional, os empregados “enlouquecem”; Convém, portanto, analisar essa “loucura” como uma violência e não tanto como uma patologia. O sofrimento psíquico c os problemas relacionais são os efeitos dos modos de gerenciamento. [...]

Quando o assédio, o estresse, a depressão ou, mais geralmente, o sofrimento psíquico, se desenvolvem, é a própria gestão da empresa que deve ser questionada. Na maioria dos casos, o cerco não é o fato de uma pessoa particular, mas de uma situação de conjunto.

Os empregados, em sua maioria, sentem-se individualmente assediados porque são coletivamente submetidos a uma pressão intensa. Todavia, por não poder intervir sobre as faltas cometidas pela organização do trabalho, eles se agridem mutuamente, até se ferindo, como nas experiências de Hemi Laboril. Quando um rato, fechado em uma gaiola, recebe uma descarga elétrica, ele agride seu “colega”. Se estiver sozinho, desenvolve perturbações psicossomáticas. Por não poder agir sobre as causas do sofrimento, no caso o experimentador que provoca as descargas, volta suas armas contra ele mesmo.

Nosso diagnóstico põe em evidência diferentes sintomas: perda de sentido, perversão dos valores, comunicação paradoxal, explosão dos coletivos, vontade de poder desmedida, transformação do humano em recurso, pressão sobre os indivíduos em uma competição sem limites, assédio generalizado, exclusão para uns, estresse para outros, perda da confiança no político.

Para o indivíduo não resta mais nem tempo, nem força, nem disponibilidade para outra coisas para encontrar o sentido das palavras, o sentido de seu desejo, inventar uma existência para si mesmo.

Entrevista

▶ Vincent de Gaulejac - A doença do management - FGV - 2013 - YouTube




Outras Referências

Resenha do Livro "A Loucura do Trabalho" - Christophe Dejours

Livro "A Banalização da Injustiça Social" - Christophe Dejours 

A Teologia do Empreendedorismo - Leandro Karnal - YouTube 

Perda do Trabalho, Perda da Identidade - Eugène Enriquez

Responsabilidade Social e Ética no Marketing - Nicholas Gimenes

Gary Hamel: Reinventing the Technology of Human Accomplishment - YouTube

Richard Sennett - Entrevista Exclusiva - YouTube  

Filmes
  • O Corte (Le Couperet)
  • O Lobo de Wall Street (The Wolf of Wall Street)
  • Sucesso a Qualquer Preço (GlenGarry Glen Ross)
  • A Grande Virada (The Company Men).



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