1.7.15

Livro "Redes de Indignação e Esperança" - Manuel Castells


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Sinopse

No início da segunda década do século XXI, muitas rebeliões eclodiram e protestos de massa aconteceram pelo mundo - a Primavera Árabe, os Indignados na Espanha, os movimentos Occupy nos Estados Unidos, Islândia, Tunísia, Egito. Embora os contextos divergissem, a crise era basicamente a mesma - as pessoas não confiavam mais nas instituições públicas e buscavam novas formas de participação na vida política. Em Redes de indignação e esperança, Manuel Castells examina esses diferentes movimentos e oferece ao leitor uma análise pioneira de suas características sociais - conexão e comunicação horizontais; ocupação do espaço público urbano; ausência de lideranças e de programas; aspecto ao mesmo tempo local e global. Tudo isso, observa o autor, propiciado pelo modelo da internet.




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Trechos Selecionados

as relações de poder são constitutivas da sociedade porque aqueles que detêm o poder constroem as instituições segundo seus valores e interesses. O poder é exercido por meio da coerção (o monopólio da violência, legítima ou não, pelo controle do Estado) e/ou pela construção de significado na mente das pessoas, mediante mecanismos de manipulação simbólica. As relações de poder estão embutidas nas instituições da sociedade, particularmente nas do Estado. Entretanto, uma vez que as sociedades são contraditórias e conflitivas, onde há poder há também contrapoder - que considero a capacidade de os atores sociais desafiarem o poder embutido nas instituições da sociedade com o objetivo de reivindicar a representação de seus próprios valores e interesses. Todos os sistemas institucionais refletem as relações de poder e seus limites tal como negociados por um interminável processo histórico de conflito e barganha. A verdadeira configuração do Estado e de outras instituições que regulam a vida das pessoas depende dessa constante interação entre poder e contrapoder.

Coerção e intimidação, baseadas no monopólio estatal da capacidade de exercer a violência, são mecanismos essenciais de imposição da vontade dos que controlam as instituições da sociedade. Entretanto, a construção de significado na mente das pessoas é uma fonte de poder mais decisiva e estável. A forma como as pessoas pensam determina o destino de instituições, normas e valores sobre os quais a sociedade é organizada. Poucos sistemas institucionais podem perdurar baseados unicamente na coerção. Torturar corpos é menos eficaz que moldar mentalidades. É por isso que a luta fundamental pelo poder é a batalha pela construção de significado na mente das pessoas.

Comunicação é o processo de compartilhar significado pela troca de informações. Para a sociedade em geral, a principal fonte da produção social de significado é o processo da comunicação socializada. Esta existe no domínio público, para além da comunicação interpessoal.

Em nossa sociedade, que conceptualizei como uma sociedade em rede, o poder é multidimensional e se organiza em torno de redes programadas em cada dominio da atividade humana, de acordo com os interesses e valores de atores habilitados. As redes de poder o exercem sobretudo influenciando a mente humana (mas não apenas) mediante as redes multimidia de comunicação de massa. Assim, as redes de comunicação são fontes decisivas de construção do poder. Por sua vez, as redes de poder, em vários dominios da atividade humana, constituem redes entre elas próprias. As redes financeiras e as multimidias globais estão intimamente ligadas, e essa metarrede particular detém um poder extraordinário. Mas não todo o poder. A metarrede das finanças e da midia depende, ela própria, de outras grandes redes, tais como a da politica, a da produção cultural (que abrange todos os tipos de artefatos culturais, não apenas produtos de comunicação), a militar e de segurança, a rede criminosa e a decisiva rede global de produção e aplicação de ciência, tecnologia e administração do conhecimento. Essas redes não se fundem. Em vez disso, envolvem-se em estratégias de parceria e competição formando redes ad hoc em torno de projetos especificos. Mas todas têm um interesse comum: controlar a capacidade de definir as regras e normas da sociedade mediante um sistema politico que responde basicamente a seus interesses e valores.

Então, de que modo as redes de poder se interconectam, embora preservando sua esfera de ação? Sugiro que o fazem por um mecanismo fundamental de construção do poder na sociedade em rede: a alternância de poder. Trata-se da capacidade de conectar duas ou mais redes diferentes no processo de construir o poder para cada uma delas em seus re sp ectivo s campos. Dessa forma, quem detém o poder na sociedade em rede? Os programadores com a capacidade de elaborar cada uma das principais redes de que dependem a vida das pessoas (governo, parlamento, estabelecimento militar e de segurança, finanças, mídia, instituições de ciência e tecnologia etc.). E os comutadores que operam as conexões entre diferentes redes (barões da mídia introduzidos na classe politica, elites financeiras que bancam elites políticas, elites políticas que se socorrem de instituições financeiras, empresas de mídia interligadas a empresas financeiras, instituições acadômicas financiadas por grandes empresas etc.). Se o poder é exercido programando-se e alternando-se redes, então o contrapoder, a tentativa deliberada de alterar as relações de poder, é desempenhado reprogramando-se as redes em torno de outros interesses e valores, e/ou rompendo as alternâncias predominantes.

Nos últimos anos, a mudança fundamental no domínio da comunicação foi a emergência do que chamei de autocomunicação - o uso da internet e das redes sem fio como plataformas da comunicação digital. É comunicação de massa porque processa mensagens de muitos para muitos, com o potencial de alcançar uma multiplicidade de receptores e de se conectar a um número infindável de redes que transmitem informações digitalizadas pela vizinhança ou pelo mundo. É autocomunicação porque a produção da mensagem é decidida de modo autônomo pelo remetente, a designação do receptor é autodirecionada e a recuperação de mensagens das redes de comunicação é autosselecionada. A comunicação de massa baseia-se em redes horizontais de comunicação interativa que, geralmente, são dificeis de controlar por parte de governos ou empresas.

A autocomunicação de massa fornece a plataforma tecnológica para a construção da autonomia do ator social, seja ele individual ou coletivo, em relação as instituições da sociedade. É por isso que os governos têm medo da internet, e é por isso que as grandes empresas têm com ela uma relação de amor e ódio

Envolvendo-se na produção de mensagens nos meios de comunicação de massa e desenvolvendo redes autônomas de comunicação horizontal, os cidadãos da era da informação tornam-se capazes de inventar novos programas para suas vidas com as matérias-primas de seu sofrimento, suas lágrimas, seus sonhos e esperanças. Elaboram seus projetos compartilhando sua experiência. Subvertem a prática da comunicação tal como usualmente se dá, ocupando o veículo e criando a mensagem. Superam a impotência de seu desespero solitário colocando em rede seu desejo. Lutam contra os poderes constituídos identificando as redes que os constituem.

Ao longo da história, os movimentos sociais são produtores de novos valores e objetivos em torno dos quais as instituições da sociedade se transformaram a fim de representar esses valores criando novas normas para organizar a vida social. Os movimentos sociais exercem o contrapoder construindo-se, em primeiro lugar, mediante um processo de comunicação autônoma, livre do controle dos que detêm o poder institucional.

Como os meios de comunicação de massa são amplamente controlados por governos e empresas de mídia, na sociedade em rede a autonomia de comunicação é basicamente construída nas redes da internet e nas plataformas de comunicação sem fio. As redes sociais digitais oferecem a possibilidade de deliberar sobre e coordenar as ações de forma amplamente desimpedida. Entretanto, esse é apenas um componente do processo comunicativo pelo qual os movimentos sociais se relacionam com a sociedade em geral. Eles também precisam construir um espaço público, criando comunidades livres no espaço urbano. Uma vez que o espaço público institucional - o espaço constitucionalmente designado para a deliberação - está ocupado pelos interesses das elites dominantes e suas redes, os movimentos sociais precisam abrir um novo espaço público que não se limite a internet, mas se torne visível nos lugares da vida social. É por isso que ocupam o espaço urbano e os prédios simbólicos. Os espaços ocupados têm desempenhado papel importante na história da mudança social, assim como na prática contemporânea, por três motivos básicos:

1. Eles criam uma comunidade, e a comunidade se baseia na proximidade. A proximidade é um mecanismo psicológico fundamental para superar o medo

2. Os espaços ocupados não carecem de significado: são geralmente carregados do poder simbólico de invadir areas do poder de Estado ou de instituições financeiras. Ou então, reportando-se a história, evocam memórias de levantes populares que expressaram a vontade dos cidadãos quando foram fechadas outras vias de representação. Frequentemente, prédios são ocupados, seja por seu simbolismo, seja para afirmar o direito de uso público de propriedades ociosas, especulativas. Ao assumir e ocupar o espaço urbano, os cidadãos reivindicam sua própria cidade, uma cidade da qual foram expulsos pela especulação imobiliária e pela burocracia municipal.

3. Construindo uma comunidade livre num espaço simbólico, os movimentos sociais criam um espaço público, um espaço de deliberação que, em última instância, se torna um espaço politico, para que assembleias soberanas se realizem e recuperem seus direitos de representação, apropriados por instituições politicos ajustadas As conveniências dos interesses e valores dominantes. Em nossa sociedade, o espaço público dos movimentos sociais é construido como um espaço larido entre as redes sociais da internet e o espaço urbano ocupado: conectando o ciberespaço com o espaço urbano numa interação implacável e constituindo, tecnológica e culturalmente, comunidades instantâneas de prática transformadora.

as raizes estão na injustiça fundamental de todas as sociedades, implacavelmente confrontadas pelas aspirações humanas de justiça. Em cada contexto especifico, os usuais cavaleiros do apocalipse da humanidade cavalgam juntos sob uma variedade de formas ocultas: exploração econômica; pobreza desesperançada; desigualdade injusta; comunidade politico antidemocrática; Estados repressivos; Judiciário injusto; racismo, xenofobia, negação cultural; censura, brutalidade policial, incitação A guerra; fanatismo religioso (frequentemente contra crenças religiosas alheias); descuido com o planeta azul (nosso único lar); desrespeito A liberdade pessoal, viola* da privacidade; gerontocracia; intolerância, sexismo, homofobia e outras atrocidades da extensa galeria de quadros que retratam os monstros que somos nós.

No plano individual, os movimentos sociais são emocionais. A insurgência não começa com um programa ou uma estratégia politica. Isso pode vir depois, quando surge a liderança, de dentro ou de fora do movimento, para fomentar agendas politicas, ideológicas e pessoais que podem ou não relacionar-se As origens e motivações dos participantes do movimento. Mas o big bang de um movimento social começa quando a emoção se transforma em ação.

Entretanto, para que se forme um movimento social, a ativação emocional dos individuos deve conectar-se a outros individuos. Isso exige um processo de comunicação de uma experiência individual para outras. Para que o processo de comunicação opere, há duas exigências: a consonancia cognitiva entre emissores e receptores da mensagem e um canal de comunicação eficaz. A empatia no processo de comunicação é determinada por experiências semelhantes às que motivaram o acesso emocional inicial.

para que as experiências individuais se encadeiem e formem um movimento é a existência de um processo de comunicação que propague os eventos e as emoções a eles associadas. Quanto mais rápido e interativo for o processo de comunicação, maior será a probabilidade de formação de um processo de ação coletiva enraizado na indignação, propelido pelo entusiasmo e motivado pela esperança.

As caracteristicas dos processos de comunicação entre individuos engajados em movimentos sociais determinam as caracteristicas organizacionais do próprio movimento: quanto mais interativa e autoconfigurável for a comunicação, menos hierárquica será a organização e mais participativo o movimento. É por isso que os movimentos sociais em rede da era digital representam uma nova espécie em seu gênero.

Quanto mais as ideias são geradas de dentro do movimento, com base na experiência dos participantes, mais representativo, entusiástico e esperançoso será ele, e vice-versa. Ocorre frequentemente que os movimentos se tornem matérias-primas para a experimentação ideológica ou a instrumentação politica, ao definir objetivos e representações que pouco têm a ver com sua realidade.

A representação equivocada dos movimentos por seus lideres, ideólogos ou cronistas tem de fato consideráveis consequências, já que introduz uma clivagem irreversivel entre os atores do movimento e os projetos elaborados em seu nome, muitas sem seu conhecimento ou concordância.

Quando se desencadeia o processo de ação comunicativa que induz a ação e a mudança coletivas, prevalece a mais poderosa emoção positiva: o entusiasmo, que reforça a mobilização societária intencional. Individuos entusiasmados, conectados em rede, tendo superado o medo, transformam-se num ator coletivo consciente.

Assim, a continuidade é ponto de partida e a fonte de acesso ao poder: "Juntos conseguimos". A horizontalidade das redes favorece a cooperação e a solidariedade, ao mesmo tempo que reduz a necessidade de liderança formal. Assim, o que parece ser ineficaz como forma de deliberação e tomada de decisão é de fato o alicerce necessário para gerar confiança, sem a qual nenhuma ação comum poderia ser empreendida contra o cenário de uma cultura politico caracterizada pela competição e pelo cinismo. 0 movimento produz seus próprios antidotos contra a disseminação dos valores sociais que deseja combater. Esse é o principio constante que surge dos debates de todos os movimentos: não apenas os fins não justificam os meios, mas os meios, de fato, encarnam os objetivos da transformação.

São movimentos profundamente autorreflexivos. Questionam-se permanentemente como movimento, e seus participantes como individuos, sobre o que são, o que desejam e o que pretendem realizar, que tipo de democracia e sociedade estão almejando e como evitar os imprevistos e armadilhas de tantos movimentos fracassados por reproduzir em si mesmos os mecanismos do sistema que queriam mudar, em particular no que se refere a delegação politico da autonomia e da soberania. Essa autorreflexividade manifesta-se no processo de deliberação das assembleias, mas também em múltiplos fóruns da internet, assim como numa miriade de blogs e grupos de discussão nas redes sociais.

Um dos principais temas do debate é a questão da violência com que os movimentos, por toda parte, se defrontam em sua prática. Em principio, eles são não violentos, em geral se envolvendo, em sua origem, na desobediência civil, pacifica. Mas tendem a se engajar na ocupação do espaço público e em táticas contenciosas com o propósito de pressionar autoridades politicos e organizaçõ es empresariais, de vez que não reconhecem a viabilidade de uma participação justa nos canais institucionais.

De modo correspondente, eles não podem se concentrar num só projeto ou tarefa. Por outro lado, não podem ser canalizados para uma ação politica que seja instrumental, do ponto de vista estrito. Desse modo, dificilmente podem ser cooptados por partidos politicos (universalmente desacreditados), embora estes possam lucrar com a mudança de percepção que os movimentos provocam na opinião pública. Assim, são movimentos sociais voltados para a mudança dos valores da sociedade, e também podem ser movimentos de opinião pública, com consequências eleitorais. Pretendem transformar o Estado, mas não se apoderar dele. Expressam sentimentos e estimulam o debate, mas não criam partidos nem apoiam governos, embora possam se tornar alvo do marketing politico. Mas são muito políticos num sentido fundamental. Particularmente, quando propiciam e praticam a democracia deliberativa direta, baseada na democracia em rede. Projetam uma nova utopia de democracia em rede baseada em comunidades locais e virtuais em interação. Mas utopias não são meras fantasias. A maioria das ideologias politicas modernas que estão nas raizes dos sistemas politicos (liberalismo, socialismo, comunismo) originou-se em utopias. Porque as utopias tornam-se forças materiais ao se incorporar a mente das pessoas, ao inspirar seus sonhos, guiar suas ações e induzir suas reações. 0 que esses movimentos sociais em rede estão propondo em sua prática é uma nova utopia no cerne da cultura da sociedade em rede: a utopia da autonomia do sujeito em relação as instituições da sociedade.

as pessoas só podem desafiar a dominação conectando-se entre si, compartilhando sua indignação, sentindo o companheirismo e construindo projetos alternativos para si próprias e para a sociedade como um todo.

Além disso, há uma conexão fundamental, mais profunda, entre a internet e os movimentos sociais em rede: eles comungam de uma cultura específica, a cultura da autonomia, a matriz cultural básica das sociedades contemporâneas. Os movimentos sociais, embora surjam do sofrimento das pessoas, são distintos dos movimentos de protesto. Eles são essencialmente movimentos culturais, que conectam as demandas de hoje com os projetos de amanhã. Os movimentos que observamos encarnam o projeto fundamental de transformar pessoas em sujeitos de suas próprias vidas, ao afirmar sua autonomia em relação as instituições da sociedade.

Nos bastidores desse processo de mudança social está a transformação cultural de nossas sociedades. Tentei documentar em outros textos o fato de que as características básicas dessa transformação cultural se referem a emergência de um novo conjunto de valores definidos como individuação e autonomia, os quais nascem nos movimentos sociais da década de 1970 e, com crescente intensidade, permeiam toda a sociedade nas décadas seguintes.

Individuação é a tendência cultural que enfatiza os projetos do indivíduo como supremo princípio orientador de seu comportamento.

Individuação não é individualismo, pois o projeto do indivíduo pode ser adaptado a ação coletiva e a ideais comuns, como preservar o meio ambiente ou criar uma comunidade, enquanto o individualismo faz do bem-estar do indivíduo o principal objetivo de seu projeto particular. 0 conceito de autonomia é mais amplo, já que pode se referir a atores individuais ou coletivos. Autonomia refere-se a capacidade de um ator social tornar-se sujeito ao definir sua ação em torno de projetos elaborados independentemente das instituições da sociedade, segundo seus próprios valores e interesses. A transição da individuação para a autonomia opera-se por meio da constituição de redes que permitem aos atores individuais construírem sua autonomia com pessoas de posição semelhante nas redes de sua escolha. Eu afirmo que a internet fornece a plataforma de comunicação organizacional para traduzir a cultura da liberdade na prática da autonomia. Isso porque a tecnologia da internet incorpora a cultura da liberdade, como mostra o registro histórico de seu desenvolvimento.

Ela foi deliberadamente programada por cientistas e hackers como uma rede descentralizada de comunicação por computadores capaz de resistir ao controle de qualquer centro de comando.

Da população como um todo, definimos empiricamente seis projetos de autonomia estatisticamente independentes: pessoal, profissional, empresarial, comunicativa, corporal e sociopolítica. Descobrimos que, quanto mais as pessoas eram autônomas em cada uma dessas seis dimensões, mais frequente e intensamente usavam a internet. E, num determinado período, quanto mais usavam a internet, mais aumentava seu grau de autonomia. Há de fato um círculo virtuoso entre as tecnologias da liberdade e a luta para libertar a mente das estruturas de dominação.

O consenso parece ser, afinal, que os sonhos de mudança social terão de se diluir e canalizar por meio das instituições politicas, seja mediante reforma, seja por revolução. Mesmo neste último caso, os ideais revolucionários serão interpretados (traidos?) pelos novos poderes constituidos e sua nova ordem constitucional. Isso cria um grande dilema, tanto analitico quanto prático, quando se avalia a produtividade politica de movimentos que, na maioria dos casos, não acreditam nas atuais instituições politicos e se recusam a crer na viabilidade de sua participação nos canais de representação politica predeterminados.

Os movimentos não têm objeção ao principio da democracia representativa, mas denunciam a prática dessa democracia tal como se dá hoje e não reconhecem sua legitimidade. Nessas condições, há poucas chances de uma interação positiva direta entre movimentos e politicos visando a promoção de uma reforma politica, ou seja, uma reforma das instituições de governança que amplie os canais de participação politica e limite a influência dos lobbies e grupos de pressão no sistema politico, reivindicações fundamentais da maioria dos movimentos sociais.

Já que a rota que leva a mudanças de diretrizes passa pela mudança politica, e esta é moldada pelos interesses dos politicos no poder, a influência do movimento sobre os programas de governo em geral é limitada, pelo menos a curto prazo, na ausência de uma crise importante que exija a revisão do sistema como um todo, como ocorreu na Islândia. Não obstante, há uma conexão muito mais profunda entre movimentos sociais e reforma politica que poderia desencadear a mudança social: ela ocorre na mente das pessoas. O verdadeiro objetivo desses movimentos é aumentar a consciência dos cidadãos em geral, qualificá-los pela participação nos próprios movimentos e num amplo processo de deliberação sobre suas vidas e seu país, e confiar em sua capacidade de tomar suas próprias decisões em relação A classe politica. A influência do movimento na população em geral se dá pelos cursos mais insuspeitos. Se a influência social e cultural do movimento se amplia, particularmente entre as gerações mais novas e ativas, politicos astutos abordarão seus valores e interesses, buscando ganhos eleitorais.

quanto mais o movimento consegue transmitir suas mensagens pelas redes de comunicação, mais cidadãos conscientes aparecem, mais a esfera pública da comunicação se torna um terreno contestado e menor é a capacidade dos politicos de integrar demandas e comunicações com ajustes meramente cosméticos. A derradeira batalha pela mudança social é decidida na mente das pessoas, e nesse sentido os movimentos sociais em rede têm feito grande progresso no plano internacional.

se há um tema predominante, um grito de pressão, um sonho revolucionário, este é o apelo a novas formas de deliberação, representação e tomada de decisão na politica. Isso porque a governança democrática eficaz é um pré-requisito para a concretização de todos os projetos e demandas. Se os cidadãos não tiverem os meios e formas de se autogovernar, as politicas mais bem-planejadas, os programas mais bem-intencionados, as estratégias mais sofisticadas podem ser ineficazes ou corromper-se ao serem implementadas.

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+ Referências

Livros

Autoridade - Richard Sennett

Trilogia A Era da Informação: Economia, Sociedade e Cultura - Manuel Castells
- Sociedade em Rede vol.1
- Poder da Identidade vol.2
- Fim do Milênio vol.3

Communication Power - Manuel Castells

Cypherpunks - Julian Assange

TAZ - Zona Autônoma Temporária - Hakim Bay

Política do Rebelde - Michel Onfray

Utopia e Paixão - A Política do Cotidiano - Roberto Freire

Sem Tesão Não Há Solução - Roberto Freire

A Banalização da Injustiça Social - Christopher Dejours

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Artigos

Introdução à Vida não-facista - Foucault

Post-Scriptum sobre a Sociedade de Controle - Deleuze

Neoanarquismo - Castells

Servidão Voluntária reconsiderada - Política Radical e o problema do auto-domínio - Paul Newman

Políticas do Pós-Anarquismo - Paul Newman

Anarquismo e a política do ressentimento - Paul Newman

Entrevista com Peter Pál Pelbart

Prisões - Alex Castro

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Vídeos

Entrevista recente do Pablo Iglesias (do Podemos) com Manuel Castells

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Documentários

Gene Sharp - Documentário "Como Começar uma Revolução" (Não-Violenta)

The Square - Trailer - sobre Primavera Árabe

Potes, Panelas e Outras soluções - Completo - sobre a Islândia

Time for Change - Completo - com Manuel Castells

Aftermath of a Crisis - Completo - com Manuel Castells

Junho - Trailer - sobre protestos no Brasil

Citizenfour - Trailer - sobre Snowdem

WikiRebels e Mediastan - Trailers - sobre Wikileaks

O Menino da Internet: A História de Aaron Swartz - Completo



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