25.9.15

Notas sobre "Afeto, Psicanálise e Política" - Maria Rita Kehl e Vladimir Safatle - CPFL Cultura

Estive presente nesse Café Filosófico da CPFL Cultura e achei a conversa muito boa! :) abaixo segue minhas anotações e o vídeo completo da palestra.


Notas da Conversa "Afeto, Psicanálise e Política" - com Vladimir Safatle e Maria Rita Kehl
11/9/2015 - Café Filosófico - CPFL Cultura


Na psicanálise, o afeto que mais importa é a Angústia.

A Angústia paralisa, faz o sujeito perder sua potência de ação.

Isso pode ser trabalhado... sinaliza uma posição da pessoa em relação a um Outro / Algo (em geral, a mãe, sempre a mãe, coitada da mãe)

Uma visão idealizada de democracia seria a de um campo sem afetos, com discussões racionais, o irracional ficaria de fora - esta é uma visão equivocada

Temos que pensar: quais afetos transformam e quais bloqueiam? quais deles são ambivalentes?

A Angústia sinaliza uma forma de vida no limite, com dificuldade de criar, que necessita derrubar certas visões de mundo, redimensionar o seu campo da experiência

A angústia, como um bebê nú sem a mãe diante do mundo, sem quem cuide de mim/proteja, pode ser a porta de entrada na psicanálise

porém, segundo Lacan, idealmente também seria a porta de saída - depois do atravessamento do fantasma (da neurose), o fim da análise.

Durante a psicanálise, pode-se passar longos períodos, de alívios, tristezas, indiferença (só intelectualizando seus problemas, sem se afetar muito). Algumas pessoas param de sofrer e param a psicanálise (geralmente voltam).

O neurótico, a partir do Édipo, coloca alguém/algo no lugar da mãe, que garante o amor, que diz que é maravilhoso, que garante uma integridade narcisíca, procurando outras figuras para substituí-la.

"O neurotico é um escravo a procura de um senhor" - Maria Rita Kehl

"O que você quer de mim? para você ver como sou uma pessoa perfeita, que fui pra minha mãe?"

a pessoa geralmente busca a psicanálise para se sentir melhor, e quando entra realmente em um processo análitico, o que é difícil, o percurso idealmente seria:

durante o começo e um longo tempo, quer adivinhar o que analista quer que diga, busca confirmação de que é uma pessoa bacana, que está no caminho certo, agradando, esperando aprovação/acolhimento do analista.

O analista, vai se retirando desse lugar, a pessoa se depara com o vazio, e entra no desamparo, mas no sentido narcísico, não de insuficiência

"ninguém está aqui para me dar o que devo ser para agradar"

Desamparo narcisico é a condição para liberdade, a melhor possibilidade para saída de uma análise

não quer dizer que será feliz para sempre, mas deixará de estar submetido a um Outro (imaginário) a quem voluntariamente escraviza sua vida, uma servidão voluntária

O Desamparo também pode ser visto como uma impossibilidade de projetar expectativas, de prever.

é uma condição de maturação psiquíca afirmação do desamparo, mas também de ação social

A pessoa desamparada => busca amparo => demanda por cuidado => de uma autoridade que tem poder, que pode ouví-la e vai dizer a ela o que fazer => é uma confirmação da estrutura de poder, reconhecimento de que o outro tem o poder => isso para se livrar do desamparo

Freud fala da necessidade de afirmar o desamparo para quebrar essa servidão

temos que pensar política a partir desse tipo de afeto, não que a gente sempre saiba como agir, mas que a gente possa bancar aquilo que a gente sabe e que não sabe

"nesse momento da história, as verdadeiras obras de arte nos obrigarão a fazer coisas que não sabemos o que são" (Adorno)

nossa imaginação está bloqueada, parece que nenhuma possibilidade de transformação é possível, fomos colonizados por uma imaginação limitada, porque está muito afetada por dois afetos que limitam, o medo e a esperança - ambos tem em comum o tempo marcado na expectativa, de um mal por vir, ou de um bem por vir, que nos paralisa

hoje mais do que nunca é necessário agir sem saber previamente, porque os acontecimentos produzem novos sujeitos, não seremos mais as mesmas pessoas depois dos acontecimentos, por isso não dá pra projetar - temos que nos livrar do medo de nos tornarmos outra pessoa

em previsões, há um imaginário a mais, enquanto você se prepara para uma coisa, pode acontecer outra

a esperança também pode ser bloqueadora se você tem uma imagem muito forte do que você espera, isso tira sua potência de ação, você vai recusando o que aparece e etc

e se você quer muito uma coisa e vem exatamente o que você esperou muito, é como se anulasse (terminasse) a pessoa que desejava

porém, uma expectativa boa sobre a vida - Confiança, não Esperança - pode ajudar em muitos momentos na vida

Quem tem Esperança de que algo ocorra, tem medo de que não ocorra. Confiança é saber que independente do que ocorrer, não irá tirar por completo minha capacidade de agir. Não há uma reação de melancolia

“pouco importa se o futuro está obscuro, se não consigo enxergá-lo, não ajo estritamente procurando uma qualificação vinda do futuro” - Vladimir Safatle

O Desamparo elimina expectativas rígidas, não sabemos o que esperar.

O Desamparo é a condição para a liberdade: ninguém vai me garantir nada, uma vida feliz, então o que me move? Meu desejo. Esta é a diferença entre Desejo e Demanda.

A pessoa na análise sofre porque o jeito que o neurótico escolhe - o freud fala de "escolha" de neurótico - é a subjetiva e inconsciente forma como se posiciona em relação a um Outro, que ocupa o lugar da mãe toda poderosa, e sempre querendo alguém/algo preenchendo lugar - seja religião, fanatismo político, paixões

Lembrei desse quadrinho aqui:

buraco_no_peito.jpg


"Se não o ser amado, quem irá avaliar meu valor? Para eu merecer amar, ser feliz?"

O neurótico é permanentemente um escravo à procura de um mestre.

Agir pela demanda é agir para agradar, para aprovar, para ver como sou legal, para que o outro me reconheça para eu ter meu valor, e me amparar no sentido narcísico - não cuidar de mim, da minha pessoa, mas um lugar onde eu me sinta reconhecido porque tenho valor

É buscar o que o outro quer de mim, para eu oferecer, para ele reconhecer meu valor e me amparar. Claro que a gente também precisa disso.

O ideal do final análise seria: agir pelo desejo. Não é dane-se o outro. Mas pra onde eu vou, nem sei direito onde, algo me move e é responsabilidade minha, não irei atribuir/culpar alguém, esperar de alguém recompensa - é meu desejo. Não é por alguém, ou para agradar.

Não é desejo de algo, é desejo sem objeto, o objeto é recalcado, inconsciente, orienta o impulso para ação. Dão muito valor para o pensamento, mas é o desejo que tem mais valor nas decisões de vida. "não sei porque quero isso mas vou".

Quem age pela demanda, vai ficar desamparado em algum momento, porque nem sempre a demanda será atendida.

Quem age pelo desejo já está no desamparo, por isso deseja. O Desamparo é ponto de partida, é condição para a liberdade.

Não é uma idéia de autonomia, no sentido de ser auto-suficiente, é uma heteronomia sem servidão. Todas as relações não são de autonomia, entramos em uma heteronomia, que pode ser sem servidão.” - Vladimir Safatle

Pessoas são movidas por desejo e não por um sistema de interesses, escolhas racionais e conscientes.

Uma patologia da vida humana é pensar em uma sociedade de individuos, com interesses claramente enunciáveis, bons gestores de si mesmos, relações como meros contratos de interesses, sem as pessoas se afetarem muito.

Em algumas situações pode ser necessário, o problema é quando todas as experiências da vida são assim. Há quem fique bem com isso, pode inclusive ser um caso de estrutura neurótica-obssessiva bem-sucedida.

Se esse projeto dá certo, é pior, para a pessoa tomar consciência dele. Se não dá certo, pelo menos abre para alguma coisa. Melhor quando dá errado.

Não que tenha que ser um Rimbaud, seguindo o desejo loucamente.

Mas pensando no filme Revolutionary Road, casal de jovens criativos e cheios de vida, sociedade americana onde se deve saber para onde quer chegar e como vai, vão entrando na rotina do casamento, filhos, trabalho - mostra o trágico no anti-trágico: "tenho uma casa legal, marido legal, para, começa a chorar... e sou profundamente infeliz"

há insatisfação nos maus-sucedidos, e também há a insatisfação dos bem-sucedidos

não sabemos mais lidar com o Desamparo, aparece sempre como catastrófico, o desejo fica desorientado, não consegue se ligar a nada, há um sentimento de que tem que sair dessa posição a qualquer custo

Aqui lembrei do zen-budismo, as idéias de ficar bem com o nada, com o vazio (não que seja para permanecer lá)

que tipo de sociedade é a nossa que não conseguimos lidar com a despersonalização e indeterminação?
hoje se luta muito para que coisas não aconteçam, prefere-se voltar para trás, para ao que se conhece e tentar controlar

A Revolução Francesa, produziu o terror do jacobinismo, mas por outro lado permitiu o abolicionismo no mundo todo. Acontecimentos são complexos no bem e no mal, não estaríamos aqui sem revolução francesa, mesmo que o terror tenha acontecido.

A política brasileira hoje tem um afeto central, que é o medo, em todos os campos, e esta é a base do pensamento conservador. Para qualquer transformação estrutural, surge o receio de criar uma instabilidade tal, que é melhor baixar as expectativas do que tentar outra coisa.

No caso do Brasil, promete-se transformações, faz algumas, não consegue mais fazer, sobra dizer: é isso com a gente ou o caos.

que tipo de afeto está nos coloniizando na política? O Medo. Como fazemos pararem de nos afetar dessa maneira?

Pergunta minha depois da palestra:
Obs. não consegui fazer porque pessoas que estavam na minha frente querem aparecer + que os palestrantes, e ao invés de usar sua vez para fazer perguntas, ficam querendo palestrar também, e assim não sobra tempo para quem quer perguntar realmente.


Considerando o momento político que estamos vivendo, e visto que é inviável que todas as pessoas façam psicanálise, vocês vislumbram alternativa política que suscite um Desamparo Confiante nas pessoas?

Isso é possível dentro de um sistema capitalista em que a maioria das instituições estimula a dependência? A emergência de um ator ou movimento não é tentador para cair na dependência como fuga do desamparo? Como não cair nisso?

Esse desamparo confiante é o requisito primordial para uma sociedade mais livre e movida pelo desejo coletivo? O caminho não passaria pelas práticas anarquistas de descentralização, autogestão, etc?

Lembrei desses trechos:

"Não há necessidade nem de Medo nem de Esperança, apenas de buscar novas armas" - Deleuze, Postscript on the Societies of Control

"Se o desejo é submetido a tanta repressão, é porque toda posição de desejo, por menor que seja, pode pôr em questão a ordem estabelecida [...] é explosivo; não há máquina-desejante que não possa levar setores sociais inteiros a desabar.

Apesar do que pensam certos revolucionários, o desejo é, na sua essência, revolucionário — o desejo, não as festas!

e nenhuma sociedade pode suportar uma posição de desejo verdadeiro sem que suas estruturas de exploração, de sujeição e de hierarquia sejam comprometidas.

Se uma sociedade se confunde com essas estruturas, então, sim, o desejo a ameaça essencialmente.

Portanto, é de importância vital para essa sociedade reprimir o desejo, e até mesmo achar algo mais eficiente do que a repressão, para que até a repressão, a hierarquia, a exploração e a sujeição sejam desejadas." 


- Deleuze e Guattari, trechos de "O Anti-Édipo"

"Vivemos em um mundo desagradável, onde os poderes estabelecidos têm interesse em nos comunicar afetos tristes, que diminuem nossa potência de agir.

Precisam de nossas tristezas para nos fazer escravos. Os tiranos, os tomadores de almas, têm necessidade de nos persuadir que a vida é dura e pesada. Eles têm menos necessidade de nos reprimir do que de nos angustiar.

Esses doentes, tanto da alma quanto do corpo, não nos largarão, enquanto não comunicarem sua neurose e sua angústia, sua castração bem-amada, o ressentimento contra a vida, o imundo contágio."


- Deleuze, trechos de "Diálogos"


2015_09_18_Maria Rita Kehl from cpfl cultura on Vimeo.



Gostou? Compartilhe:
TwitterStumbleupondel.icio.us

0 comentários:

Blog Widget by LinkWithin