30.7.15

Introdução à Vida Não-Fascista - Michel Foucault

Trechos do prefácio escrito por Foucault para o livro "O Anti-Édipo" do Deleuze e Guattari:


"fascismo que está em todos nós, que ronda nossos espíritos e nossas condutas cotidianas, o fascismo que nos faz gostar do poder, desejar essa coisa que nos domina e explora. [...]

Como livrar do fascismo nosso discurso e nossos atos, nossos corações e nossos prazeres? Como desentranhar o fascismo que se incrustou em nosso comportamento?

Essa arte de viver contrária a todas as formas de fascismo, estejam elas já instaladas ou próximas de sê-lo, é acompanhada de certo número de princípios essenciais, que resumirei como segue, se eu devesse fazer desse grande livro um manual ou um guia da vida cotidiana:

• Liberem a ação política de toda forma de paranóia unitária e totalizante.

• Façam crescer a ação, o pensamento e os desejos por proliferação, justaposição e disjunção, e não por subdivisão e hierarquização piramidal.

• Livrem-se das velhas categorias do Negativo (a lei, o limite, as castrações, a falta, a lacuna) que por tanto tempo o pensamento ocidental considerou sagradas, enquanto forma de poder e modo de acesso à realidade. Prefiram o que é positivo e múltiplo, a diferença à uniformidade, os fluxos às unidades, os agenciamentos móveis aos sistemas. Considerem que o que é produtivo não é sedentário, mas nômade.

• Não imaginem que seja preciso ser triste para ser militante, mesmo se o que se combate é abominável. É a ligação do desejo com a realidade (e não sua fuga nas formas da representação) que possui uma força revolucionária.

• Não utilizem o pensamento para dar a uma prática política um valor de Verdade; nem a ação política para desacreditar um pensamento, como se ele não passasse de pura especulação. Utilizem a prática política como um intensificador do pensamento, e a análise como multiplicador das formas e dos domínios de intervenção da ação política.

• Não exijam da política que ela restabeleça os “direitos” do indivíduo tal como a filosofia os definiu. O indivíduo é produto do poder. O que é preciso é “desindividualizar” pela multiplicação e o deslocamento, o agenciamento de combinações diferentes. O grupo não deve ser o liame orgânico que une indivíduos hierarquizados, mas um constante gerador de “desindividualização”.

• Não se apaixonem pelo poder."



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Cores da Estrada - Pinturas de Grant Haffner

Adorei isso! viajo olhando esses quadros! do Grant Haffner :) 













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Richard Sennett - AUTORIDADE



Neste livro, o sociólogo Richard Sennett discute nossa relação com a Autoridade, e toca em questões importantes:

- Por que continuamos nos submetendo a autoridades que consideramos ilegítimas?

- Podemos quebrar o encanto?

- Como supriremos nossa carência por amparo e lidaremos com a incerteza, sem nos submeter nem dominar
?

Sennett caracteriza a Autoridade pelas impressões de segurança, de capacidade superior de julgamento, de posição de poder desigual, impor disciplina e inspirar medo.

No entanto, nossa submissão não pode ser explicada somente por legitimidade ou medo de punição, mas por uma carência por segurança e pelo anseio de ratificar um significado maior às atividades.

No livro são mencionados:

- Weber e os tipos de autoridade (não-excludentes) - tradicional, racional/legal e carismática.

- Freud e a hipótese das imagens de força e poder dos pais serem projetadas a outras pessoas/instituições na fase adulta.

- Hegel e 4 etapas que atravessamos rumo à consciência racional sobre a autoridade e a libertação da lógica internalizada servo-mestre.

Sennett afirma que, mesmo a sociedade sendo toda interdependente, a dependência é motivo de vergonha e conflita com a carência de segurança, gerando sentimentos ambivalentes sobre a autoridade - uma coexistência de rejeição e submissão a ela.

São apresentados 3 mecanismos de rejeição que emergem com frequência e que intensificam a relação com a autoridade:

- Dependência desobediente: realiza-se transgressões e desobediências pontuais, sem romper a estrutura de dependência.

- Substituição idealizada:  a autoridade atual é pega como ponto de partida negativo, e espera-se um oposto, "positivo", que resolverá todos os problemas.

- Fantasia do desaparecimento: finge que não existe ou que vai desaparecer.


Também descreve 2 tipos de autoridade - autoridade Paternalista (responde com falso amor) e a autoridade Autônoma (responde sem amor) - e exemplifica como os mecanismos de rejeição atuam e aprisionam mais ainda autoridade e servos, além de levar a apatia e a uma perda geral de confiança.

A autoridade paternalista é um transbordamento do poder do pai nas famílias para o Estado e Empresas. Oferece uma benevolência egoísta, uma falsa promessa de amparo, que ao invés de fortalecer, cria dependência para que os subordinados atendam aos interesses da autoridade.

Metáforas usadas para dominação como "patrão/estado é seu pai" produzem uma combinação de sentidos diferentes das parte isoladas, que amplifica o poder, simplifica a realidade e embrutece a compreensão. Passar a impressão de que tudo o que a autoridade faz/diz é simples e nítido, é também  uma forma de reprimir questionamentos.

A personificação do poder pela autoridade paternalista tem a contrapartida de em meio a crises, a autoridade ser considerada pessoalmente culpada, inflamando a revolta nos subordinados.

A autoridade autônoma passa a impressão de precisar menos de outras pessoas do que precisam dela. A indiferença pode estimular um medo e reverência nos subordinados, um anseio de reconhecimento, ficamos emocionalmente dependentes e nos sujeitamos. (Exemplo: autoridade dos médicos.)

O poder exercido é mais indireto, disfarçado, se difunde por influências sem rosto ou  responsabilidade, ficando ainda mais velado pela burocracia.

O controle não mostra uma fonte direta e chega a ser internalizado/auto-infligido pelos subordinados. Eles não se sentem reconhecidos como pessoas integrais, são como cacos de seres humanos, culpam a si mesmos por sua incapacidade e a vergonha os submete.

Deuses do Mundo Moderno - Orozco


Sennett também enfatiza que as técnicas de motivação (teoria X/Y, gestão participativa, etc) não tem como objetivo dar mais qualidade de vida ao trabalhador, mas sim, obter mais produtividade e suavizar a realidade da dominação.

O trabalhador pode até ficar mais contente, porém, é uma satisfação projetada, designada. Os estímulos são dados, cabe ao trabalhador descobrir projetos e dar sentido ao poder que exercem sobre ele.

A autonomia é buscada como ideal de liberdade, mas permite apenas ser indiferente aos outros e se isolar. Do ponto de vista político, esse ideal abre caminho para o Estado, pois enfraquece o interesse de participação popular.

Sennett advoga por ideais mais sociais de liberdade. Além disso, considera que é insuficiente derrubar a figura de autoridade existente ou tirar sua legitimidade, é necessária uma desvinculação do mundo do poder.

Aqui são mencionadas as etapas identificadas por Hegel de conscientização do "servo" sobre o "mestre": estoicismo, ceticismo, consciência infeliz e consciência racional.

- na etapa do estoicismo o servo repara que o mestre necessita de seu trabalho, e não somente ele necessita do mestre.

- na etapa do ceticismo o servo passa a ver com descrença a relação de autoridade.

- na consciência infeliz o servo repara que há dentro de si um mestre e um escravo, e que reproduz esses papéis em outras situações.

- na consciência racional o servo repara que essa ambivalência existe em todas as pessoas, e então poderia se libertar dessa lógica servo-mestre.

Sennett recomenda que na desvinculação se procure avaliar a legitimidade e perceber que as diretrizes não são absolutos morais, observar como se reage e o que se é direcionado a fazer - com cuidado em não cair nos mecanismos de rejeição citados, na apatia/falta de sentido e no papel de vítima (preso à mágoa, ao ressentimento, ao que lhe foi negado) - o que mantém o poder concentrado na mão da autoridade e bloqueia a ação construtiva.

A empatia/redobramento com o opressor também é importante, imaginar como é estar no lugar dele, retirando o véu transcendente da autoridade, para quebrar o encanto e compreender que a autoridade não está em pessoas, mas se difunde por meio de convenções sociais.

Sennett reconhece que há muitas dificuldades em ampliar estes instrumentos da esfera íntima para programas políticos. Frisa a importância de tornar o poder visível e legível para o público.

Aponta os benefícios da co-gestão/auto-gestão, de se utilizar a voz ativa (para que as pessoas assumam as decisões e tornar o poder visível), buscar autonomia na execução, experimentar a troca de papéis em situações de impasse, avaliar as decisões a partir de categorias diferentes (para evitar o argumento da uniformização "é assim para todos, por que você quer ser diferente?") e discutir abertamente a questão do amparo.

Embora conflitos de poder e revéses sempre irão existir, bem como a necessidade de enfrentar a incerteza e de coordenação - não se pode cair na falta de sentido, deixar de imaginar caminhos possíveis e combater relações em que as pessoas sejam dominadas e oprimidas.

Não há conspiração (a elite não é tão talentosa), são convenções sociais compartilhadas por mestres e servos, que foram construídas pela imaginação e que podem ser alteradas. O começo é desvelar como o poder atua e submete, e como os papéis de mestre e servo se alternam, externamente e dentro de nós mesmos.




Outras Referências:

Livros

Psicopolítica - Byung Chul Han

Humilhação - Evelind Lindner

Trilogia A Era da Informação: Economia, Sociedade e Cultura - Manuel Castells

- Sociedade em Rede vol.1
- Poder da Identidade vol.2
- Fim do Milênio vol.3

Redes de Indignação e Esperança - Manuel Castells

Communication Power - Manuel Castells

Cypherpunks - Julian Assange

TAZ - Zona Autônoma Temporária - Hakim Bay

Política do Rebelde - Michel Onfray

Utopia e Paixão - A Política do Cotidiano - Roberto Freire

Sem Tesão Não Há Solução - Roberto Freire

Livro "Gestão como Doença Social" - Vincent de Gaulejac 

A Loucura do Trabalho - Christophe Dejours

A Banalização da Injustiça Social - Christopher Dejours

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Artigos

Introdução à Vida não-facista - Foucault

Post-Scriptum sobre a Sociedade de Controle - Deleuze

Neoanarquismo - Castells

Servidão Voluntária reconsiderada - Política Radical e o problema do auto-domínio - Paul Newman

Políticas do Pós-Anarquismo - Paul Newman

Anarquismo e a política do ressentimento - Paul Newman

Prisões - Alex Castro

Entrevista com Peter Pál Pelbart

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29.7.15

Esculturas do Movimento Humano - Peter Jansen

Muito bacana :) site do escultor humanmotions.com








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28.7.15

Nós Ansiamos o Fascismo? - Deleuze & Guattari

Trechos retirados do vídeo:
▶ Do We Crave Fascism? (Freud & Psychoanalysis) – 8-Bit Philosophy - YouTube 


"Não é incomum para as pessoas votarem em partidos contrários à sua situação social, trabalharem para patrões que os tratam horrivelmente, e ficarem à favor de familiares não importa o quão péssimos sejam.

Para o filósofo francês Gilles Deleuze e militante anti-psiquiátrico Felix Guattari o desejo de opressão vem da crença de que as pessoas devem reprimir seus desejos. E através desta repressão, as massas ficam preparadas para aceitar o fascismo.

O fascismo não é apenas algo que acontece dentro dos governos - o fascismo está dentro de cada um de nós - é um fascínio e um amor pelo poder.

As pessoas anseiam serem guiadas, protegidas [...] são levadas por seu desejo inconsciente de submeterem-se a força - o déspota sacia a necessidade de um pai provedor e de uma mãe carinhosa.

Vivemos em uma sociedade que produz enormes quantidades de ansiedade. A pressão social proclama: Mantenha um bom trabalho, faça exercícios, coma saudável, use fio dental e escova regularmente, não corra riscos desnecessários ou você vai morrer.

Como tal, existe um desejo por uma existência livre de problemas, uma vida protegida e abrigada sem conflitos, perigo ou luta. Tudo que você tem a fazer é desistir de sua liberdade em conformidade com os costumes sociais e ideais ditados por um líder forte.

As pessoas são ensinadas a negar o desejo - a ter vergonha de seus impulsos sexuais, de quaisquer fantasias ou predileções atípicas. Ceder a suas inclinações é ser pervertido - reprimir desejos é natural e divino.

Profissões inteiras são dedicados a fazer você se sentir doente, a fim de te venderem uma cura.

Indo na contramão da psicanálise, Deleuze e Guattari sugerem esquizoanálise ou análise que não se baseia em normalidade, poder e repressão.

Contra Édipo, eles preferem Anti-Édipo - uma máquina desejante, de luta contra fascismo."




Saiba mais:

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22.7.15

Evelin Lindner: TEORIA DA HUMILHAÇÃO

FUNDAMENTAL o trabalho da Evelin Lindner, que dedicou sua vida a estudar a Humilhação e Dignidade, e como isso atua na escalada de conflitos entre indivíduos, com instituições e países.


Lendo alguns de seus materiais, pude entender melhor: O que é Humilhação, formas como ocorre, quais seus efeitos e como as pessoas reagem, papel crucial que tem na escalada de conflitos, mudanças em virtude da globalização, como se pode mitigar seus efeitos, etc. - além de compreender melhor como posso estar infligindo a outros e como se desdobra em mim.


Estou sem tempo, abaixo, links relevantes e melhores trechos dos materiais que li  - maioria em inglês, sorry :(

Links relevantes:

Melhores trechos:

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retirado de:
http://www.iea.usp.br/noticias/evelinlindner.html

"As diversas formas de violência que a sociedade experimenta têm como causa a humilhação e somente a dignidade humana pode mitigar os efeitos dela. Essa afirmação é uma síntese da Teoria da Humilhação, elaborada pela psicóloga alemã Evelin Lindner."

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retirado de:
https://pt.wikipedia.org/wiki/Evelin_Lindner

Evelin Gerda Lindner é uma pesquisadora transdisciplinar que atua nas áreas das ciências sociais e humanas. Ela tem dois doutorados, um em medicina, outro em psicologia. Sua pesquisa concentra-se na dignidade humana, e ela acredita que a humilhação da honra e da dignidade pode estar dentre os mais fortes obstáculos no caminho para uma comunidade mundial decente. Ela é a presidente fundadora da Human Dignity and Humiliation Studies (HumanDHS), uma fraternidade global transdisciplinar formada por acadêmicos e profissionais interessados em promover a dignidade e transcender a humilhação.

Ela fala inglês, francês, alemão, norueguês e árabe egípcio fluentemente e possui sólidos conhecimentos de uma série de outras línguas, dentre elas português, sueco, dinamarquês, neerlandês, russo, indonésio, chinês, japonês e hebraico moderno.

Foi indicada ao Nobel da Paz em 2015.


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retirado do artigo:


HUMILHAÇÃO, AUTO-ESTIMA E VIOLÊNCIA
JULIAN WALKERA * E VICTORIA KNAUERB
(não foi escrito pela Evelin, coloco antes para clarear um pouco alguns conceitos)

Uma das teorias fundamentais mais convincentes de violência em relação às emoções autoconscientes é apresentado por Gilligan (1996), que coloca vergonha, baixa auto-estima e humilhação no centro de sua formulação psicodinâmica de propensão à violência. Ele sugeriu que a violência é usada para alcançar a justiça "punindo aqueles a quem eles sentem que os puniram injustamente”.

A pessoa violenta não pode lidar com essa vergonha devido a uma falta de auto-estima ou do saudável senso de orgulho que normalmente a permitiria lidar com o insulto. Quando isso acontece, e falta as habilidades não-violentas para restaurar seu senso de auto-estima, a violência se torna uma maneira de restaurar seu orgulho. Somos de opinião que a humilhação, respeito e auto-estima são questões complexas, mas centrais para o bem-estar emocional e psicológico.

Os termos embaraço, vergonha e humilhação são freqüentemente usados como sinônimos na literatura, no entanto, diferenças importantes entre estas emoções foram notadas. Embaraço foi definido por Miller (1996) como "um estado aversivo de mortificação, desconcerto e desgosto que se segue em impasses sociais públicos" (322 p.). Alguns teóricos acreditam que o componente-chave para o embaraço é avaliação negativa por outros.

Embora embaraço é muitas vezes considerado equivalente de vergonha, as duas emoções são pensadas como diferentes em termos de intensidade do afeto experienciado. Tem sido sugerido que o embaraço está ligado a deficiências no Eu apresentado publicamente, ao passo que vergonha resulta de deficiências percebidas no núcleo do Eu. Embaraço é marcado mais por humor, corando e um senso maior de exposição, enquanto a vergonha está associada com maiores sentimentos de responsabilidade, arrependimento e raiva.

Humilhação descreve a experiência de uma reação emocional ao sentir-se desvalorizado, colocado para baixo ou exposto; a questão central é a avaliação negativa de baixo estatuto da vítima especialmente em relação à pessoa que está humilhando ou em relação aos outros presentes. O sentimento de humilhação é subjetivo e inclui vários sentimentos negativos sobre si mesmo, em especial sentimento de pequeno, insignificante, fraco ou estúpido. Esses sentimentos também são comuns a vergonha, no entanto, na vergonha os indivíduos tendem a culpar-se para o prejuízo causado a si mesmo, enquanto que em humilhação o dano é visto como injustamente infligidos sobre nós por outros. Esta distinção é destacado por Klein (1991), que afirma que: "A humilhação é o que se sente quando se é ridicularizado, detestado, desprezado, ou de outra forma desvirtuada para o que se é e não sobre o que se faz. As pessoas acreditam que merecem a sua vergonha; mas não acreditam que merecem a sua humilhação (p. 117). Estes sentimentos de injustiça são frequentemente acompanhados por sentimentos de ódio e desejo de vingança contra a pessoa causadora da humilhação. Isto pode ser visto como uma resposta focada externamente ou agressiva. No entanto, se a pessoa é mais focada internamente ou depressiva, a humilhação pode incluir auto-dúvida, a auto-recriminação, sentimentos de inutilidade e de falta de poder.

O oposto de vergonha e humilhação são os sentimentos mais positivos de auto-consciência como orgulho saudável, auto-estima e auto-respeito. O orgulho pode ser definido como um sentimento de valor pessoal ou auto-estima.

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17.7.15

PSICOPOLÍTICA - Byung-Chul Han

Melhores trechos sobre Psicopolítica tirados dos livros e de uma entrevista do filósofo coreano Byung-Chul Han :)

"Na Psicopolítica, as novas técnicas de poder buscam acesso a esfera da psique, convertendo-a na sua maior força produtiva. Em vez de usar o poder opressivo, usa um poder sedutor, inteligente (smart), que faz os homens submeterem-se por si mesmos à dominação.

Neste sistema, o ser-sujeito não é consciente da sua submissão. A eficácia do psicopoder é que o indivíduo se supõe livre, enquanto o sistema explora sua liberdade.

A Psicopolítica se serve do Big Data, que, como um Big Brother digital, se apodera dos dados que os indivíduos entregam de forma efusiva e voluntária. Esta ferramenta permite previsões sobre o comportamento das pessoas e condicioná-los a um nível pré-reflexivo. A liberdade de expressão e a hipercomunicação que se difundem na rede se convertem em um controle total, levando a uma autêntica crise de liberdade."



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MELHORES TRECHOS SOBRE PSICOPOLÍTICA
de 
Byung-Chul Han
 
Entrevista "Por que hoje a Revolução não é Possível?" - Byung-Chul Han

http://brasil.elpais.com/brasil/2014/09/22/opinion/1411396771_691913.html

Por que o regime de dominação neoliberal é tão estável? Por que há tão pouca resistência? Por que toda resistência se desvanece tão rápido? Por que a revolução já não é mais possível apesar do crescente abismo entre ricos e pobres?

Quem pretende estabelecer um sistema de dominação deve eliminar resistências. Isso é certo também para o sistema de dominação neoliberal. A instauração de um novo sistema requer um poder que se impõe frequentemente através da violência.

O poder estabilizador da sociedade disciplinadora e industrial era repressivo. Os proprietários das fábricas exploravam de forma brutal os trabalhadores industriais, o que ocasionava protestos e resistências. Nesse sistema repressivo são visíveis tanto a opressão como os opressores. Existe um oponente concreto, um inimigo visível diante do qual a resistência faz sentido.

O sistema de dominação neoliberal está estruturado de uma forma totalmente diferente. O poder estabilizador do sistema já não é repressor, mas sedutor, ou seja, cativante. Já não é tão visível como o regime disciplinador. Não existe um oponente, um inimigo, que oprime a liberdade diante do qual a resistência era possível. O neoliberalismo transforma o trabalhador oprimido em empresário, em empregador de si mesmo. Hoje cada um é um trabalhador que explora a si mesmo em sua própria empresa. Cada um é amo e escravo em uma pessoa. Também a luta de classes se torna uma luta interna consigo mesmo: o que fracassa culpa a si mesmo e se envergonha. A pessoa questiona-se a si mesma, não a sociedade.

É ineficiente o poder disciplinador que com grande esforço oprime os homens de forma violenta com seus preceitos e proibições. É essencialmente mais eficiente a técnica de poder que se preocupa com que os homens por si mesmos submetam-se à trama da dominação. Sua particular eficiência reside no fato de não funcionar através da proibição e da subtração, mas através do deleite e da realização. Em lugar de gerar homens obedientes, pretende fazê-los dependentes.

Essa lógica da eficiência é válida também para a vigilância. Nos anos oitenta, se protestou de forma muito enérgica contra o censo demográfico. Os estudantes até mesmo foram para as ruas. Da perspectiva atual, os dados necessários como função, diploma escolar ou distância do local de trabalho são ridículas. Era uma época na qual se acreditava ter pela frente o Estado como instância de dominação que arregimentava informação das pessoas contra sua vontade. É precisamente esse sentimento de liberdade que torna impossível qualquer protesto. A livre iluminação e o livre desnudamento próprios seguem a mesma lógica da eficiência que a livre auto exploração. Protestar contra o que? Contra você mesmo?

É importante distinguir entre o poder que impõe e o que estabiliza. O poder estabilizador adquire hoje uma forma amável, ‘smart’, e assim se faz invisível e inatacável. O sujeito submetido nem sequer é consciente de sua submissão. Acredita ser livre. Essa técnica de dominação neutraliza a resistência de uma forma muito eficiente. A dominação que submete e ataca a liberdade não é estável. Por isso o regime neoliberal é tão estável, é imunizado contra toda a resistência porque faz uso da liberdade, em lugar de submetê-la. A opressão da liberdade gera resistência de imediato. Ao contrário, isso não ocorre com a exploração com a liberdade.

predomina um grande conformismo e consenso com depressões e síndrome de Burnout. Hoje a Coreia do Sul tem a mais alta taxa de suicido do mundo. A pessoa emprega a violência contra ela mesma, em lugar de querer mudar a sociedade. A agressão ao exterior que teria como resultado uma revolução cede diante da autoagressão.

Hoje não existe nenhuma multidão cooperativa, interconectada, capaz de se transformar em uma massa de protesto e revolucionária global. Pelo contrário, a solidão do auto empregado isolado, separado, constituiu o modo de produção presente. Antes, os empresários competiam entre si. Entretanto, dentro da empresa era possível existir solidariedade. Hoje todos competem contra todos, também dentro da empresa. A concorrência total ocasiona um enorme aumento da produtividade, mas destrói a solidariedade e o sentido de comunidade. Não se forma uma massa revolucionária com indivíduos esgotados, depressivos, isolados.

Não é possível explicar o neoliberalismo de um modo marxista. No neoliberalismo não existe lugar nem sequer para a “alienação” a respeito do trabalho. Hoje dedicamo-nos com euforia ao trabalho até a síndrome de Burnout [fadiga crônica, ineficiência]. [...]  Síndrome de Burnout e revolução se excluem mutuamente.

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MELHORES TRECHOS - LIVROS
em espanhol, ia levar muito tempo para traduzir, fui copiando e colando direto do livro em PDF :( mas confia que, lendo devagar, dá pra entender ;)

### Clique aqui para ver! ###

Outras Referências:

Livros

Autoridade - Richard Sennett

Trilogia A Era da Informação: Economia, Sociedade e Cultura - Manuel Castells
- Sociedade em Rede vol.1
- Poder da Identidade vol.2
- Fim do Milênio vol.3

Redes de Indignação e Esperança - Manuel Castells

Communication Power - Manuel Castells

Cypherpunks - Julian Assange

TAZ - Zona Autônoma Temporária - Hakim Bay

Política do Rebelde - Michel Onfray

Utopia e Paixão - A Política do Cotidiano - Roberto Freire

Sem Tesão Não Há Solução - Roberto Freire

Livro "Gestão como Doença Social" - Vincent de Gaulejac 

A Loucura do Trabalho - Christophe Dejours

A Banalização da Injustiça Social - Christopher Dejours

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Artigos

Introdução à Vida não-facista - Foucault

Post-Scriptum sobre a Sociedade de Controle - Deleuze

Neoanarquismo - Castells

Servidão Voluntária reconsiderada - Política Radical e o problema do auto-domínio - Paul Newman

Políticas do Pós-Anarquismo - Paul Newman

Anarquismo e a política do ressentimento - Paul Newman

Prisões - Alex Castro

Entrevista com Peter Pál Pelbart - Veja alguns trechos:

"Há mecanismos de poder um pouco mais sofisticados. Não é que eles mandam você fazer, mas criam um ambiente em que a sua conduta pode ter uma margem de manobra
limitada. Cada um se considera autônomo e livre, mas o ambiente foi trabalhado para incitar certas condutas, evitar outras, propiciar tendências."

"Houve uma interiorização desses mecanismos de poder de tal modo que o que era um controle virou um autocontrole."

"Há uma depauperação na imaginação sobre o que é desfrutar, o que é se divertir, o que é descobrir, o que é ter uma experiência. Você cumpre um destino. É um desafio coletivo, cultural"

"É preciso pensar modalidades de desconexão, reativação da capacidade que as pessoas ainda têm de serem afetadas e afetarem-se, sem ficarem anestesiadas por essa fábrica de entretenimento"

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