14.1.16

"A Corrosão do Caráter" - Richard Sennett

Esse é o livro que mais gostei dele! :) Abaixo, fiz uma resenha:


Nesse livro, o sociólogo Richard Sennett (autor de vários livros sobre trabalho: O Artífice, Juntos, Respeito, Autoridade, A Nova Cultura do Capitalismo, entre outros) aborda os impactos negativos do novo Capitalismo Flexível, que estão emergindo no mercado de trabalho estadunidense.

O aumento da concorrência global, o surgimento das novas tecnologias de comunicação e as recentes mudanças institucionais requerem que os trabalhadores sejam mais ágeis, abertos a mudanças de curto prazo, suportem a incerteza, assumam mais riscos. Essa nova cultura do capitalismo, sob uma aparência de liberdade, impõe novos controles (mais sutis e eficientes), exige mais disponibilidade e engajamento, enquanto intensifica o trabalho. O poder se torna mais concentrado e, ao mesmo tempo, mais ilegível.

Nessa sociedade imediatista e incerta, Sennett levanta questionamentos: como podemos manter a confiança mútua, compromissos, acordos, regras, objetivos de longo prazo? Como avaliar os riscos? Como saber se esforços serão compensado?

Segundo Sennett, a geração anterior conseguia traçar uma narrativa linear e progressiva de sua vida profissional, construir uma identificação com o trabalho, cultivar relações sociais, ter um sentimento de dignidade e de autoria da própria história.

O novo cenário aumenta a ansiedade dos trabalhadores, reduz a solidariedade e confiança, as pessoas se sentem isoladas, pessoalmente culpadas pelas dificuldades das crises econômicas, sem um caminho a seguir, à deriva ética e emocionalmente, como se estivessem perdendo o controle de suas próprias vidas.

Além disso, a maneira como a automatização tem sido feita nos EUA (há outras abordagens na Alemanha, França, Japão) não aproveita o potencial do trabalhador e o afasta do sentido do trabalho, tornando as tarefas superficiais e o resultado final obscuro. Os critérios para se destacar  são difusos, as melhorias que se pode obter em outros cargos são incertos, colegas e compromissos são motivos de desconfiança - fatores que minam a colaboração.

Essa padronização pela automatização cria o efeito "o vencedor leva tudo" e está ampliando a desigualdade no mercado de trabalho, tornando-o polarizado em 2 camadas: uma super elite e o resto da população.

A forma como trabalho está mudando promove uma população jovem e sobrequalificada competindo por vagas de baixa qualificação, com dificuldade de se inserir no mercado, e uma população de meia-idade que tem sua experiência desvalorizada pelo imediatismo e com dificuldade para se recolocar. Estamos vivendo mais e nossas carreiras acabando mais cedo.

Esse contexto confuso, junto com a pressão para obter status, também leva as pessoas a tentar ansiosamente extrair significados e padrões de minúcias, supervalorizando o potencial de ganho e subvalorizando os riscos de perda, promovendo um terreno fértil para paranóias, apostas erradas, mal-entendidos, sentimentos de humilhação e ressentimento. A pessoa muitas vezes adota uma postura cínica sobre sua própria vida, como se em meio a tanta incerteza, nada fosse real ou tivesse valor duradouro.

Os impactos negativos não só prejudicam a produtividade do trabalhador como transborda para as demais áreas da sua vida, correndo o caráter, diluindo a auto-estima e fragmentando famílias.

Sennett deixa claro que essas consequências do Capitalismo Flexível não são naturais, mas sim efeitos de opções políticas e institucionais, que podem ser mudadas para se obter melhorias sociais e também de produtividade, exemplos: reduzir a jornada de trabalho, utilizar a automatização aproveitando a capacidade dos trabalhadores, remodelar o papel dos sindicatos (fortalecendo-os como espaços de convívio e ajuda mútua), promover medidas de mais estabilidade e segurança, metas que aumentem a colaboração, entre outras ações.



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