11.5.16

As Transformações do Trabalho na Sociedade em Rede

Gostei demais desse livro "Sociedade em Rede", do Manuel Castells! :) É o 1º da trilogia "A Era da Informação: Economia, Sociedade e Cultura".

Neste 1º volume, ele analisa o desenvolvimento e as transformações do Capitalismo Informacional em diversas áreas: na Política, na Economia, nas Empresas, no Trabalho, na Cultura, no Espaço e na relação com o Tempo.


No 2º volume, "O Poder da Identidade", ele analisa as transformações nos movimentos sociais e no 3º, "O Fim do Milênio", analisa os grandes acontecimentos políticos/econômicos do final do milênio.
 

Apesar de curtir tudo do 1º e o 2º (o 3º não li), é muita coisa para resumir por aqui, fiz somente um resumo do cap. 4 do 1º volume, específico sobre Trabalho, que tem sido meu interesse maior. Segue abaixo:

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Resumo Capítulo 4 - Trabalho
Livro A Sociedade em Rede - Manuel Castells



"No livro A Sociedade em Rede, Manuel Castells analisa o desenvolvimento e a difusão de uma nova estrutura social organizada em redes, implusionada após o término da Guerra Fria por transformações institucionais da reestruturação capitalista e pela revolução nas tecnologias da informação e comunicação. Este paradigma social emergente é denominado por Castells como Capitalismo Informacional, também descrito como Sociedade em Redes.

Segundo Castells, este tipo de Capitalismo tem nas tecnologias de geração de conhecimento, de processamento da informação e de comunicação de símbolos seu elemento fundamental para a produtividade. Este modo de desenvolvimento Informacional, diferencia-se de forma significativa do modo de desenvolvimento industrial, que se fundamenta na introdução e descentralização de novas fontes de energia, e do modo de desenvolvimento agrário, que se fundamenta na expansão quantitativa da mão-de-obra e das matérias-primas.

Castells afirma que esse novo formato de Capitalismo não extinguirá os formatos agrário e industrial, mas tende a se expandir entre os países e se tornar o paradigma social hegemônico, o que irá alimentar grandes transformações nas esferas centrais da atividade humana, por exemplo, as que foram analisadas no livro: a política, a economia, o trabalho, a cultura, a relação com o espaço e a relação com o tempo.

Essas transformações são movidas pela organização das estruturas sociais em redes, favorecida pelas novas condições institucionais e tecnológicas, de forma a atender às exigências de maior flexibilidade, descentralização e competitividade dos mercados capitalistas. A expansão do poder e da extensão dessas redes transcende os limites dos Estados Nacionais e promove o aumento da interação e da interdependência global. As transformações têm expressão variada entre os países a depender da cultura, das instituições, da trajetória histórica e do posicionamento de cada país na economia mundial.

No capítulo 4 do seu livro, Castells analisa as transformações sobre o trabalho com base nos países que compunham o G-7 (EUA, Japão, Alemanha, França, Itália, Reino Unido e Canadá) e estariam em um estágio mais avançado do Capitalismo Informacional. Dentro da análise, foram levantados dados sobre a evolução da estrutura ocupacional e do emprego e verificadas hipóteses das teorias pós-industriais. Além disso, também foram investigadas questões sobre a globalização da força de trabalho, mudanças no processo de trabalho sob o paradigma informacional, efeitos da tecnologia da informação na destruição e na criação de empregos, flexibilização do trabalho e impactos nas relações sociais. Para Castells, a revolução tecnológica e a organização das relações produtivas em torno da empresa em rede são as grandes propulsoras da transformação no trabalho e no emprego.

Dentre as hipóteses das teorias sobre o desenvolvimento atual de uma sociedade pós-industrial, Castells destaca as seguintes:

1.    A fonte de produtividade e crescimento reside na geração de conhecimentos. A atividade econômica mudará de produção de bens para prestação de serviços. O fim do emprego rural seria seguido pelo fim do emprego industrial em benefício de empregos em serviços, sendo a característica para economias mais avançadas.

2.    Aumento da importância das profissões com grande conteúdo de informação e conhecimento nas atividades. Profissões administrativas e profissões especializadas com crescimento mais rápido e formando o cerne da nova estrutura social.

3.    Trajetória uniforme e natural a partir da modernização dos países em direção a uma sociedade pós-industrial, liderada pela sociedade norte-americana.

No entanto, de acordo com os dados e análises apresentados no livro, a geração de conhecimentos para crescimento e produtividade não é uma diferença primordial entre uma economia industrial e pós-industrial. Essa separação também não é adequada, pois na verdade, há duas formas de produção rural, industrial e de serviços, baseadas no informacionalismo ou não. Castells propõe que o Pós-Industrialismo é uma previsão ainda sem resposta, a partir de estudos centrados na sociedade estadunidense. As sociedades serão informacionais por conta da maximização da produtividade baseada em conhecimentos, viabilizada pela difusão das tecnologias de informação, independente de um modelo específico de estrutura social.

Outro ponto problematizado por Castells é que embora a maior parte dos empregos estadunidense seja no setor de serviços, não significa que a atividade industrial esteja desaparecendo. Muitos serviços têm conexão direta com a atividade industrial e parte dos empregos industriais foram deslocados para países em desenvolvimento. Não é apropriado, em uma economia globalizada, analisar separadamente países desenvolvidos e em desenvolvimento, uma vez que fazem parte de uma mesma estrutura de produção.

A análise dos dados também aponta que mesmo havendo um crescimento de empregos para serviços administrativos e especializados e da introdução das tecnologias da informação nos processos de trabalho exigirem novas qualificações, houve crescimento nos empregos para profissões em serviços mais simples e não-qualificados. Castells também argumenta que há estudos que questionam se a aplicação de mais conhecimento e da ciência seja crucial na maioria das profissões administrativas e especializadas e que a separação dos setores em rural, industrial e serviços é obsoleta e não reflete a experiência empírica, pois desconsidera o avanço nas tecnologias da informação que possibilitaram conexão direta entre esses diferentes tipos de atividades.

Referente a trajetória uniforme liderada pela sociedade norte-americana, Castells identifica pontos em comum nas sociedades informacionais, porém afirma que não há um modelo único, mas variações a depender da cultura, do ambiente político e do contexto histórico e econômico de cada país. A partir dos dados dos países que compunham o G-7, Castells aponta dois modelos bem distintos de sociedade informacional:

1.    Modelo de Economia de Serviços: Tem como representantes os EUA, Canadá e Reino Unido. Caracteriza-se por uma quase eliminação do emprego rural, redução dos empregos no setor industrial em decorrência da automatização com fins de diminuir mão-de-obra na produção e de medidas institucionais, e o aumento de empregos no setor de serviços. Profissionais especializados e administradores aumentam participação na economia, enquanto o número de artífices e operadores diminui bastante. Há uma substituição de antigas profissões por novas.

2.    Modelo de Produção Industrial: Tem como representantes o Japão e a Alemanha. Caracteriza-se pela expansão do emprego em serviços avançados, mas de forma gradual, preservando a atividade industrial enquanto se adapta ao paradigma informacional. A automatização visa a produtividade e crescimento, as profissões antigas são redefinidas e os trabalhadores retreinados.

A França se encontra em uma posição intermediária, aproximando-se do modelo de economia de serviços, em uma relação complementar a ao modelo alemão dentro do sistema da União Européia. A Itália possui quase 25% do emprego como trabalho autônomo o que pode introduzir um terceiro modelo baseado em redes de pequenas e médias empresas adaptadas a nova economia global.

Sobre a existência de uma força de trabalho global, Castells refuta essa hipótese. Embora o capital esteja fluindo de forma instantânea pela rede global e haja aumento nas imigrações, o trabalho continua bastante limitado por fronteiras nacionais, barreiras institucionais, culturas, idiomas, xenofobia. O motivo principal das migrações são as guerras e a fome. Castells afirma que apenas uma pequena fração dos profissionais se movimenta pelos nós das redes globais em virtude do trabalho, são atuantes nas áreas de engenharia de ponta, inovação e P&D, administração financeira, serviços empresariais avançados e de entretenimento. São profissionais geradores de conhecimento/manipuladores de símbolos, auto-programáveis, ativos na rede, dirigentes e inovadores. No entanto, cerca de dois terços dos trabalhadores mundiais estão em empregos rurais restritos em seus países.

Sendo assim, embora não haja uma força de trabalho global e unificada, Castells salienta que há uma interdependência da força de trabalho dos países com a economia informacional, pois depende da divisão do trabalho pelas redes multinacionais. A maior parte dos trabalhadores não circula na rede, mas é dependente da função e da evolução de outros segmentos da rede.

Na análise dos processos de trabalho, Castells descreve que houve maior integração dos processos, em grande parte viabilizado pela difusão das tecnologias da informação, porém também houve uma desintegração da força de trabalho. Castells reforça que esta não é uma consequência inevitável do Informacionalismo, mas uma escolha política e econômica das empresas e governos, que contrasta com os objetivos de crescimento sustentável do trabalho e da produtividade, privilegiando uma visão de curto-prazo. Castells evidencia isso, retomando as diferenças já citadas anteriormente entre o modelo informacional estadunidense e o japonês.

Segundo Castells, a aplicação das novas tecnologias juntamente com a exigência de maior flexibilidade aumentou a necessidade de trabalhadores instruídos e autônomos. O papel do trabalho direto aumentou e o valor agregado é gerado principalmente pela inovação. O que tende a desaparecer são trabalhos em tarefas rotineiras ou que possam ser codificados por máquinas e softwares. Embora o número de empregos esteja aumentando de nível em relação a qualificações, não necessariamente refletiu melhoria de salários e condições, com exceção dos setores mais dinâmicos na economia dos países pesquisados.

Essa exigência maior por qualificação educacional também intensifica a segregação da força de trabalho, visto que o sistema educacional já é altamente segregado. Castells aponta que a mão-de-obra mais desvalorizada é composta em sua maioria por mulheres, minorias étnicas, imigrantes e jovens, sendo concentrada em atividades de baixa qualificação. Castells reforça que essa segregação não é intrínseca ao progresso tecnológico, mas resultado de opções administrativas e políticas da reestruturação capitalista. A polarização social e econômica nas sociedades mais avançadas tem fonte mais prevalente em diferenças de gênero, étnicas, faixa etária, territoriais, do que na qualificação profissional.

Castells também não identifica uma relação estrutural e sistemática entre a difusão das tecnologias da informação e a queda dos níveis de emprego na economia como um todo. Os ganhos de produtividade obtidos com a tecnologia podem reduzir custos e preços, o que estimula a demanda e gera mais empregos, ou aumentar os lucros e a capacidade de investimentos, permitindo a geração de empregos. As instituições e as organizações parecem ter mais influência na criação ou na destruição de empregos do que a tecnologia.

As decisões das organizações e instituições, somadas às possibilidades das tecnologias da informação e à exigência de flexibilidade dos mercados da sociedade em rede, também estão configurando uma tendência de eliminação do formato de trabalho tradicional, com base na jornada de horário integral, projetos profissionais bem definidos e um plano de carreira estável ao longo da vida.

O trabalhador flexível não necessariamente segue a jornada integral, pode variar o local de trabalho e realizá-lo de forma remota desde que tenha acesso `a rede da empresa, seu trabalho é regido por tarefas e não há compromisso de permanência no emprego.

Essa flexibilização do trabalho apresenta variações de acordo com a cultura e legislação de cada país. Não obstante, Castells aponta uma tendência em comum à individualização do trabalho no processo de trabalho, ou seja, no reverso da assalariação do trabalho e da socialização da produção.

Castells ressalta que a organização em rede, descentralizada, privilegia o trabalho individualizante e mercados personalizados, fragmentando as sociedades. Além de fragmentadas, as sociedades informacionais estudadas demonstram sinais de polarização entre os trabalhadores ativos na rede, e os trabalhadores passivos na rede ou desconectados. Essa fragmentação e polarização pode reduzir o sentimento comunitário, intensificar conflitos e afetar negativamente as demais esferas da vida humana.

As observações de Castells são consonantes com as observações do Zygmunt Bauman; sobre a prevalência do poder e extensão das redes globais em sobreposição aos limites dos Estados Nacionais, a intensificação da interação e interdependência entre os nós das redes, a flexibilização do trabalho e sobre a fragmentação e polarização social em “turistas” (pessoas ativas nas redes, geram e programam os fluxos) e os “vagabundos” (passivos, condicionados pela rede) – além de destacar a intensificação nos indivíduos de sentimentos de incerteza existencial, ansiedade e medo."



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